No Visão Macro de hoje, vamos falar sobre a credibilidade da política econômica, principalmente porque esse termo tem sido usado de forma equivocada por membros do Ministério da Fazenda para defender políticas fiscais sem consistência. Muitas vezes, não se consideram as políticas parafiscais ou, pior, tenta-se transferir a culpa para terceiros em vez de enfrentar os problemas de frente. A credibilidade não se constrói com discursos ou soluções paliativas de curto prazo, mas sim com medidas estruturais e de longo prazo.
Já discutimos bastante essa temática, mas aqui reforço alguns pontos:
Não é possível falar em credibilidade da política econômica quando a taxa de juros reais das NTN-Bs de 2026 até 2060 se mantém consistentemente acima de IPCA + 7.
Não é possível falar em credibilidade quando o cálculo da meta de déficit ou superávit primário inclui tantas exclusões que esvaziam o próprio conceito.
Não é possível falar em credibilidade quando grande parte das medidas são parafiscais, isto é, ficam fora dos gastos oficiais do governo, utilizando bancos públicos, crédito direcionado ou manipulação contratual de preços — os chamados preços administrados.
Não é possível falar em política econômica crível quando, do tripé macroeconômico (política monetária, resultado fiscal positivo e câmbio flutuante), apenas a política monetária tem funcionado de fato.
Não é possível falar em credibilidade quando, em 2024, foi preciso reverter abruptamente um ciclo de queda da taxa de juros, elevando a Selic em 300 pontos-base — 3% ao ano — entre 2024 e 2025, sob a atual gestão.
Não é possível falar em credibilidade quando se dá um “cavalo de pau” na política monetária devido à desancoragem das expectativas inflacionárias, provocada por pressões fiscais.
Não é possível falar em credibilidade quando a discussão se concentra muito mais em retórica ideológica — “nós contra eles” — em vez de tratar da economia real, da qualidade do crescimento e das soluções estruturais.
E, por fim, não é possível falar em credibilidade quando o único recurso para lidar com o curto prazo é tributar ainda mais o setor produtivo, em vez de atacar as causas do desequilíbrio.
A resolução desse problema começa pelo reconhecimento de que ele existe. Só assim será possível ter uma discussão mais direta, transparente e verdadeira. É exatamente disso que o Brasil precisa hoje.
