PUBLICIDADE
CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Inconfidências políticas e descontrole fiscal: o Brasil entre o improviso e a eleição

Siga no

Cristiano Machado / Imprensa MG

Compartilhar matéria

O tabuleiro mineiro se move

Minas Gerais está mais viva do que nunca no xadrez político nacional. E, como toda boa partida, tem lances ousados, blefes calculados e algumas jogadas que ainda permanecem no sigilo das conversas reservadas. A mais barulhenta delas nos últimos dias atende pelo nome de Matheus Simões, atual vice-governador, que já tem destino partidário certo: o PSD de Gilberto Kassab. A filiação está definida e com data marcada, e embora Simões evite falar abertamente sobre o assunto, a decisão pavimenta um novo caminho na sucessão estadual.

Para Kassab, o movimento é um sonho antigo. Ter um candidato competitivo em Minas, com chances reais de vencer a disputa pelo governo. E Simões, com seu perfil técnico e proximidade com a atual gestão, surge como aposta sólida nesse projeto. A mudança, no entanto, produz efeitos colaterais imediatos: o PSD deixa de ser uma alternativa para Rodrigo Pacheco, atual presidente do Senado.

Pacheco entre a toga e o Palácio Tiradentes

A situação de Rodrigo Pacheco se torna mais complexa a cada movimento. Fora do PSD, o senador precisa agora de uma nova sigla para sustentar seu projeto político, seja ele a candidatura ao governo mineiro, seja a realização de um sonho antigo, tornar-se ministro do Supremo Tribunal Federal. No primeiro cenário, Pacheco carrega um trunfo valioso, o apoio explícito do presidente Lula, que vê no mineiro um aliado estratégico para fortalecer a presença petista no estado.

A prefeita de Contagem, Marília Campos, deixou claro em conversa recente que Pacheco é o nome preferido do PT para a disputa. Mas a travessia até lá não será simples. Uma das opções é o MDB, legenda de origem do senador. O problema? Newton Cardoso Júnior, presidente do partido em Minas, resiste à ideia e não demonstra entusiasmo em abrigá-lo. Há outras articulações em curso dentro do MDB, e a presença de Pacheco ainda é vista com cautela.

Sem espaço no MDB, outra possibilidade ganha força, o PSB de Geraldo Alckmin. O vice-presidente tem sinalizado, ainda que reservadamente, simpatia pela filiação de Pacheco à sigla. Uma movimentação nesse sentido poderia redesenhar o jogo eleitoral mineiro e fortalecer alianças no campo governista.

Cleitinho fora do jogo, por enquanto

Outro personagem importante do enredo mineiro é o senador Cleitinho Azevedo. O Republicanos, seu atual partido, já deixou claro, ele não será candidato ao governo estadual pela legenda. A decisão caiu mal e Cleitinho, acostumado com a retórica direta e a comunicação afiada nas redes sociais, ainda não digeriu bem a notícia.

Falta-lhe, porém, algo essencial para a construção de uma candidatura competitiva, articulação política. A habilidade de costurar apoios, negociar alianças e construir pontes ainda é uma lacuna evidente em sua trajetória.

A tentativa recente de se aproximar de Ratinho Júnior, governador do Paraná, oferecendo-se como vice em uma eventual candidatura presidencial, foi recebida com frieza tanto no PSD quanto no Republicanos. O episódio expôs a dificuldade de Cleitinho em jogar o jogo político no nível mais alto, algo que pesa contra ele em um estado complexo e decisivo como Minas Gerais.

Nicolas Ferreira e a carta do empresariado

No campo da direita, o nome de Nicolas Ferreira permanece cercado de mistério. Embora resista publicamente à ideia de disputar o governo, há uma movimentação silenciosa para montar uma chapa competitiva em torno do deputado federal. O plano inclui a escolha de um vice com perfil técnico e experiência em gestão, e o nome que circula com mais força é o de um líder empresarial de peso em Minas, ainda mantido em sigilo.

A estratégia é clara, combinar o potencial eleitoral massivo de Nicolas, impulsionado por sua popularidade digital, com a credibilidade administrativa de um nome do setor produtivo. Essa fórmula, se confirmada, pode colocar o bolsonarismo em posição relevante na disputa estadual e tornar o pleito ainda mais imprevisível.

Improviso fiscal: a crise que o Brasil ignora

Enquanto Minas traça suas linhas para 2026, Brasília segue representando um espetáculo à parte, e não no bom sentido. Um grupo de economistas de peso, que inclui Paulo Hartung, Persio Arida, Edmar Bacha, Armínio Fraga, Henrique Meirelles, Mailson da Nóbrega, Marcos Mendes e Elena Landau, soou o alarme. 80% das propostas apresentadas pelo Congresso Nacional e pelo governo federal não têm estimativa de despesa.

Isso mesmo: quatro em cada cinco projetos que circulam pelo Parlamento e pelo Planalto são aprovados sem que ninguém saiba quanto custam aos cofres públicos. O diagnóstico é devastador. Criam-se programas sociais, ampliam-se benefícios e concedem-se renúncias fiscais no escuro, sem base técnica ou responsabilidade orçamentária.

O resultado é um debate público teatral, onde promessas substituem planos e o orçamento se transforma em ficção. Sem saber o custo real de cada iniciativa, torna-se impossível definir prioridades, comparar alternativas ou responsabilizar autores por ideias inviáveis. E, como sempre, a conta chega, pesada e inevitável.

Se não houver correção de rumos na política fiscal do atual governo, os números e as projeções são assustadores. Num cenário já avaliado por economistas, até 2030, a dívida pública brasileira deve atingir 120% do PIB. É um cenário que ameaça a estabilidade fiscal, afasta investimentos e compromete o crescimento de longo prazo. E o mais grave, revela um governo que, mais do que gastar demais, gasta sem saber onde e por quê.

Entre a política e a matemática

O Brasil vive hoje um paradoxo cruel. Enquanto o país discute nomes e alianças para as próximas eleições, ignora os fundamentos que sustentam qualquer projeto político viável. Sem disciplina fiscal, sem responsabilidade no gasto público e sem transparência nas contas, nenhuma plataforma, de direita ou de esquerda, resistirá ao teste da realidade.

Minas Gerais, como palco central da política nacional, reflete esse dilema em escala local: candidaturas se desenham, partidos se reposicionam e projetos pessoais se entrelaçam com interesses partidários. Mas o pano de fundo, silencioso e incômodo, é o mesmo: um Estado que precisa reencontrar o equilíbrio entre ambição política e responsabilidade fiscal.

E enquanto esse equilíbrio não vier, continuaremos reféns de dois males que se alimentam mutuamente, a política feita no improviso e a economia conduzida às cegas.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de Colunistas

Palanque em construção, aliança em manutenção: a incerteza nas eleições em Minas

ISS na base do PIS e da Cofins: o que está em jogo no julgamento do Tema 118 no STF

Tarifa zero: a catraca some, a conta aparece

Pirâmide alimentar: dois pra lá, dois pra cá

BH, a cidade que embarga tinta e autoriza abandono

Nova regra do imposto sobre heranças e doações a partir deste ano

Últimas notícias

Planalto instala grades para chegada de manifestantes comandados por Nikolas Ferreira

Acidente entre caminhões provoca explosão e deixa motorista morto na BR-365, no Triângulo Mineiro

PSOL, UNE e Educafro acionam STF contra lei que proíbe cotas raciais em SC

Rapaz que se perdeu no Pico do Paraná vira Sir Roberto da Montanha em propaganda de série

Rússia ataca Ucrânia com drones em meio a negociações para encerrar guerra

Quem foi Constantino Júnior, fundador da Gol e pioneiro da aviação de baixo custo no Brasil

Atlético fica perto de vender Rony para o Corinthians; veja valores

Onça-parda ferida após atropelamento é resgatada pelos bombeiros em Minas Gerais

Além de Atlético x Cruzeiro, outros sete clássicos movimentam o domingo de futebol; saiba o horário e onde assistir