O mundo amanheceu de novo com o som mais antigo da política internacional. O som dos mísseis e da força. O Oriente Médio, que já é um barril de pólvora com pavio curto, virou palco de uma ofensiva que recoloca uma pergunta essencial na mesa, e com a mesa tremendo. As armas voltaram a valer mais do que a diplomacia?
Uma escalada direta envolvendo Estados Unidos e Israel em operações contra o Irã. O custo humano já apareceu de forma crua. Centenas de mortos no Irã, mortes em Israel e as primeiras baixas norte-americanas confirmadas, com três militares mortos e outros feridos, de acordo com o Pentágono. E, no tabuleiro político, a crise ganhou contornos ainda mais explosivos. A morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, e a reorganização do comando interno iraniano.
Teocracia não é liberdade
Aqui, vale a honestidade intelectual: não existe regime aceitável em teocracia autoritária. O regime iraniano é conhecido por restringir liberdades, impor códigos de conduta pela coerção e sufocar dissidências, e isso inclui a opressão sobre mulheres e a perseguição de homossexuais, além de uma absurda restrição da liberdade..Infelizmente é bom lembrar que o Brasil de Lula sempre apoiou o regime dos aiatolás e nunca se opôs aos desmandos e à crueldade por eles praticados.
A queda de um sistema assim deve, aos que prezam a democracia, soar como uma boa mensagem. Só que a história é severa,e derrubar um autoritarismo por meio de bombardeio não garante o nascimento automático de uma democracia. Muitas vezes, garante apenas o parto de mais instabilidade, de mais radicalização e mais sangue.
E aí vem o detalhe que sentimos no bolso mesmo quando a guerra está a um oceano de distância. Energia e medo viajam rápido. O mundo olha para a região e pensa em rotas, petróleo, frete, seguro marítimo, aviação, inflação. O Estreito de Ormuz, gargalo estratégico, entra no radar porque qualquer ameaça ali se transforma em preço no barril de petróleo.
No oriente as bombas, aqui a cratera institucional
Mas enquanto lá fora a geopolítica faz barulho de explosão, aqui dentro a política faz barulho de porta rangendo. E porta rangendo, quando ninguém conserta, um dia cai.
O Brasil vive uma espécie de conflito que não abre buracos no asfalto, mas abre crateras na confiança pública. O desequilíbrio institucional. Congresso e STF se encaram como se estivessem em lados opostos de uma guerra, quando, numa democracia saudável, deveriam funcionar como pesos e contrapesos, não como dois times que jogam para humilhar o adversário.
O episódio da vez tem nome e sobrenome, é a decisão do ministro Gilmar Mendes que anulou a quebra de sigilos (bancário, fiscal, telefônico e telemático) da empresa Maridt Participações, associada ao ministro Dias Toffoli e familiares, decisão aprovada pela CPI do Crime Organizado. A CPI havia aprovado a quebra e também os convites/convocações, e Gilmar suspendeu a medida.
Do ponto de vista jurídico, há um argumento clássico: CPI precisa de fato determinado, e quebra de sigilo é medida excepcional, que deve estar ligada ao objeto formal da investigação. Só que o problema não é apenas o argumento, é o efeito político. Porque, para o cidadão comum, a percepção é imediata: quando o assunto encosta em gente da prateleira de cima, da elite jurídica e política do País, o sistema aciona uma blindagem que parece automática. E essa sensação não precisa ser verdadeira em cada detalhe para ser devastadora; basta ser verossímil para corroer a legitimidade.
A reação foi o fósforo perto do barril, desta vez da pólvora do desmando e não do petróleo. O presidente da CPI anunciou que vai recorrer e classificou a decisão como absurda na forma e no mérito, jogando mais um caminhão de tensão entre Congresso e Supremo. A defesa da empresa teria usado uma ação arquivada e buscado a suspensão diretamente com Gilmar, alimentando o debate sobre escolha de relator e reforçando a narrativa de proteção corporativa.
A triste vitória da força
E aqui chegamos ao coração da nossa conversa, que é difusa, sim, mas não é confusa. O mundo está sendo empurrado para decisões de força. Seja força militar, seja força institucional.
Lá fora, o que está em jogo é a guerra virando regra e a diplomacia virando peça decorativa. Aqui dentro, é o Supremo virando um poder sem freio percebido, e o Congresso reagindo com populismo de revanche, numa espiral em que cada lado acredita estar salvando a democracia, enquanto a democracia respira por aparelhos.
Por isso, 2026 não é só mais um ano de eleição. É um plebiscito informal sobre a maturidade do país. Vamos escolher gente com projeto, método, prioridade econômica e social, ou vamos repetir o ritual de votar em antagonismos morais embalados como virtude, mas usados como atalho de poder? Moralismo e política retórica, aquela que promete no discurso, e desaparece na prática, costumam ser a cortina perfeita para interesses silenciosos.
No fim, o planeta nos oferece um contraste didático.Mísseis derrubam prédios; canetas derrubam confiança.
