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Orelha e o país sem limite

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(Foto: Reprodução / Redes Sociais)

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O Brasil está mais feio e triste com a morte do “cachorro comunitário” Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis. Não só pelo fato em si, brutal, covarde, injustificável, mas pelo que ele revela quando a gente tira o zoom do episódio e enquadra o cenário inteiro. Um país em que limites viraram peça de museu.

Orelha não era um cão de um dono. Era de todo mundo. Era do bairro. Um símbolo da vida comum, daqueles que dão nome ao lugar sem placa e sem decreto, é o cachorro que recebe carinho aqui, um potinho de água ali, uma ração acolá, e, de quebra, devolve a presença. O Ministério Público catarinense registrou isso ao dizer que o animal era cuidado pela comunidade havia cerca de dez anos, parte do cotidiano e do afeto do bairro.

A crueldade não nasce do nada

Quando adolescentes são investigados por um ato de violência extrema contra um ser indefeso, a explicação não pode ser o velho atalho da molecagem que passou do ponto. Não passou do ponto: nasceu fora do ponto. O que está em jogo é a socialização do limite, e ela falhou.

Falhou onde? Na família, que muitas vezes terceiriza a função de dizer não para o mundo. Na escola, que virou balcão de demandas e não fábrica de civilidade. No ambiente digital, que recompensa o exibicionismo e a humilhação com curtida e engajamento. E falhou, sobretudo, no clima cultural de permissividade seletiva, aquela sensação de que, para alguns, regra é sugestão; para outros, regra é sentença.

Essa permissividade tem classe social, tem rede de proteção, tem aquela ligação especial que chama e resolve. E é aí que o caso deixa de ser apenas crime contra um animal e vira radiografia do Brasil. Um país onde parte da sociedade acha, sim, sinceramente acha, que pode tudo. E quando a realidade ameaça contrariar essa crença, entra em cena o velho repertório de amortecedores: influência, intimidação, conversa entre amigos, atalhos.

O segundo crime: tentar dobrar o sistema

A Polícia Civil de Santa Catarina foi objetiva: além da apuração do ato infracional envolvendo adolescentes, instaurou inquérito para investigar coação praticada por familiares de investigados contra testemunhas. E foi além. Informou que o inquérito foi concluído e que três familiares, um advogado e dois empresários, foram indiciados por coação no curso do processo.

Isso é gravíssimo. Porque quando a violência tenta se proteger pela intimidação, o recado é claro: não basta ferir o vulnerável; é preciso também silenciar quem viu. Coação de testemunha não é detalhe lateral; é um ataque direto ao coração da Justiça.

E aqui aparece um ponto que precisa ser dito sem rodeios. Não é só sobre punir quem agrediu. É sobre punir, com firmeza e proporcionalidade, quem tentou atrapalhar a apuração. Se o Brasil quer, de fato, reduzir a impunidade, ele precisa tratar a tentativa de blindagem como agravante moral e institucional, e não como esperteza social tolerável.

Sim, justiça não pode ser refém da multidão

É verdade que a opinião pública se mobilizou. E é compreensível: quando a brutalidade é tão explícita, a indignação vira reflexo. A questão é que o Brasil vive uma armadilha dupla.

De um lado, a Justiça não pode virar enquete de rede social. Isso destrói o devido processo, troca prova por clamor, e abre caminho para decisões performáticas. Do outro lado, e aqui está o problema mais recorrente, também é inaceitável que casos só andem quando viram escândalo nacional. Quando o sistema se move apenas com sirene, o cidadão aprende a lição errada: sem barulho, ninguém existe.

No caso Orelha, houve um dado objetivo que alimentou a desconfiança pública. A notícia de que a juíza responsável se declarou impedida, e outro juiz foi nomeado para decidir. Isso, por si, não prova proteção, nem armação. Mas mostra como a credibilidade institucional está por um fio, que qualquer mudança processual vira combustível para suspeitas, porque o Brasil já tem histórico suficiente de desigualdade diante da lei.

A Polícia Civil também foi clara ao pedir cautela com boatos. A delegada afirmou que não existe vídeo do momento exato da agressão, ao contrário do que circulou, e explicou que houve apenas uma foto usada para tentar identificar adolescentes e que acabou apagada por envolver menores. Ou seja: indignação não dispensa método. Justiça precisa de prova, rito, contraditório, e punição.

Há ainda um efeito colateral que revela outra doença social, o impulso de linchar. Um casal chegou a registrar boletim de ocorrência por ameaças de morte depois de ser confundido nas redes com parentes de investigados. Isso é o retrato da nossa era. A tragédia real vira caça ao culpado, desordenada, em que a rede social aponta o dedo sem checar, e destrói inocentes pelo caminho.

Então, sim: é possível dizer duas coisas ao mesmo tempo, sem hipocrisia. 

Quem comete crueldade deve responder. E responder com seriedade, sem romantização da juventude, sem desculpa de que foi impulso. A lei brasileira trata maus-tratos como crime; e, quando envolve cães e gatos, a pena é mais dura, com reclusão de 2 a 5 anos, multa e proibição de guarda, podendo aumentar se houver morte do animal.
O processo não pode ser sequestrado pela turba. Nem por boatos. Nem por ameaças. Nem por investigação paralela de internet. O caminho civilizado é um só: investigação robusta, provas, responsabilização e transparência.

A Polícia Civil informou que analisou dezenas de horas de imagens de câmeras e ouviu mais de 20 pessoas, além de cumprir mandados e apreender eletrônicos para reforçar o conjunto probatório. O Ministério Público acompanha o caso por promotorias de meio ambiente e de infância e juventude. Isso é o mínimo institucional esperado.

O Brasil precisa ir além do mínimo.

Precisa tratar violência contra animais como indicador sério de risco social, e não como “causa menor”. Precisa encarar que permissividade educa para a crueldade. E precisa, sobretudo, quebrar a lógica da blindagem, essa maldita ideia de que relações e status diminuem a pressão, e rebaixam a gravidade do fato.

Porque quando a sociedade perde o limite, o que sobra é o medo. Medo de falar, medo de testemunhar, medo de enfrentar gente grande. E, no fim, a barbárie vira método, com verniz, sobrenome e advogado.

Orelha virou símbolo por um motivo simples: ele não tinha poder. E um país se revela civilizado, exatamente pelo que faz quando o poder está ausente. Se esse caso terminar em punições proporcionais para quem agrediu e para quem coagiu, o Brasil dá um passo em direção à civilização. Se terminar em acomodação, a mensagem será a pior possível: a crueldade compensa.

E aí não é só um cachorro que morre. É um pedaço da nossa ideia de comunidade que apodrece junto.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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