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BH faz eventos, mas ainda tropeça no básico: orientar quem precisa circular

Por

Paulo Leite

Paulo Leite
  • 25/05/2026
  • 18:07

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Agentes da BHTrans fazem a gestão do trânsito em BH, durante evento (PBH/Divulgação)
(PBH/Divulgação)

(PBH/Divulgação)

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Belo Horizonte teve um fim de semana cheio. A cidade se espalhou em eventos, encontros, shows, festas, atividades culturais e até jogo de futebol no Mineirão. Em princípio, ótimo. Uma cidade que se movimenta é uma cidade que respira. Uma capital que oferece programação nas ruas, nos bairros, nos equipamentos públicos e nos espaços tradicionais de convivência mostra vitalidade. O problema começa quando BH acende as luzes da festa, mas esquece de organizar o caminho até ela.

A má sinalização na Savassi

Foi o que se viu na Savassi, durante o Savassi Festival. Um evento legítimo, simpático, importante para a ocupação urbana e para a vida cultural da cidade. A Savassi, que já foi uma espécie de sala de estar sofisticada de Belo Horizonte, precisa mesmo de movimento, programação e cuidado. Mas um evento bom não dispensa planejamento. Pelo contrário, quanto melhor o evento, maior deve ser o zelo com a circulação, a informação e o impacto sobre a rotina da região.

A orientação aos motoristas, no entanto, beirou o improviso. A BHTrans e a Prefeitura de Belo Horizonte colocaram faixas presas entre postes, com letras pequenas demais, difíceis de ler até para quem estivesse parado diante delas. Para quem dirigia, então, aquilo era quase uma provocação. O motorista precisava reduzir, entender o texto, identificar o desvio, prestar atenção no trânsito, cuidar do pedestre, observar o semáforo e ainda fazer interpretação de placa miúda pendurada no alto.

É pedir demais a qualquer cidadão. Nem motorista, nem morador, nem visitante são obrigados a decifrar bula de remédio no meio da rua.

Sinalização urbana não é detalhe decorativo. Não é burocracia visual para cumprir tabela. Sinalização é serviço público. É orientação. É segurança. É respeito. Quando uma via é interditada ou quando a lógica de circulação de um bairro muda, a informação precisa chegar antes do problema. A placa tem que estar em local adequado, com letra grande, mensagem curta, seta clara e antecedência suficiente para permitir decisão.

Na Savassi, isso é ainda mais importante. Não se trata de um bairro qualquer do ponto de vista da mobilidade. É uma região de ruas curtas, cruzamentos próximos, grande circulação de pedestres, bares, restaurantes, comércio, prédios residenciais, motoristas de aplicativo, entregadores, ônibus, táxis e visitantes. Um desvio mal informado ali não cria apenas incômodo. Cria confusão em cadeia. Um motorista perdido segura o fluxo. Um carro parado na dúvida atrapalha o ônibus. Um retorno improvisado trava a esquina. E a irritação se espalha como buzina em dia de chuva.

O curioso é que o problema não atinge apenas quem não conhece a região. Claro que o visitante, vindo de outro bairro ou de outra cidade, dificilmente conseguiria entender as faixas colocadas como orientação. Mas até quem conhece a Savassi teria dificuldade, porque os desvios de eventos não seguem necessariamente o caminho usual da memória urbana. A pessoa acha que sabe por onde passar, chega à esquina e descobre que a cidade mudou de lugar. Aí começa a coreografia do improviso: seta para um lado, dúvida para o outro, aplicativo recalculando rota e paciência evaporando pelo escapamento.

Evento público exige logística pública

Não basta autorizar, divulgar e celebrar. É preciso planejar. É preciso comunicar. É preciso organizar o antes, o durante e o depois. Se a cidade quer promover festivais, jogos, corridas, shows e ocupações culturais, e deve querer, precisa tratar a mobilidade como parte do evento, não como uma consequência incômoda que será resolvida na base da faixa amarrada em poste.

A prefeitura tem instrumentos para fazer melhor. Pode divulgar mapas de interdição com antecedência. Pode usar redes sociais de forma mais objetiva. Pode integrar informações aos aplicativos de navegação. Pode posicionar agentes de trânsito em pontos críticos. Pode instalar placas provisórias maiores, padronizadas, com setas claras e leitura rápida. Pode avisar moradores e comerciantes. Pode criar rotas alternativas compreensíveis. Pode, principalmente, parar de tratar o motorista como alguém que deve adivinhar o que a administração pública deixou de explicar.

A cidade moderna não é aquela que apenas realiza eventos. É aquela que consegue realizá-los sem transformar o entorno em um labirinto mal-humorado.

Ocupar espaços para eventos é legítimo

Há também um ponto simbólico nessa história. Belo Horizonte vive tentando recuperar espaços, devolver movimento a regiões importantes e fazer a cidade voltar a ser agradável. A Savassi é um exemplo central. É um bairro com memória, economia, vida noturna, comércio e identidade. Mas, se cada evento vier acompanhado de transtorno desnecessário, a população começa a associar cultura a aborrecimento. E isso é péssimo.

O cidadão não deve ser colocado diante de uma falsa escolha: ou tem evento ou tem circulação. Uma cidade bem administrada precisa oferecer os dois. Pode haver interdição? Claro. Pode haver desvio? Evidente. Pode haver transtorno pontual? Natural. O que não pode haver é descuido. O que não pode haver é aquela impressão de que a cidade foi avisada depois que a confusão já estava montada.

Eventos são bem-vindos. O que precisa ser expulso da gestão urbana é o improviso.

BH tem talento para ser vibrante. Tem bairros com personalidade, ruas com história, público disposto a ocupar os espaços e uma economia que se beneficia desse movimento. Mas falta à administração municipal entender que o encanto da cidade depende também do básico bem feito. E básico, nesse caso, é sinalizar direito.

Faixa com letra miúda entre dois postes não é orientação. É álibi. É a administração dizendo: “avisamos”, quando, na prática, quase ninguém conseguia ler. Informação pública que não informa é apenas paisagem burocrática.

Belo Horizonte merece eventos. Merece cultura. Merece Savassi cheia, Mineirão movimentado, praças ocupadas e ruas vivas. Mas também merece organização. Porque uma cidade boa não é só aquela que chama as pessoas para sair de casa. É aquela que permite que elas cheguem, circulem e voltem sem precisar disputar com o trânsito, com o improviso e com placas que parecem escritas para formigas alfabetizadas.

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Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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