O Dia Mundial do Leite, celebrado em 1º de junho, chegou em Minas Gerais com cara de comemoração, mas também com gosto de alerta. Afinal, falar de leite em Minas não é apenas falar de um produto na mesa do café da manhã. É falar de cultura, economia, interior, indústria, produtor rural, caminhão na estrada, queijo na tábua, manteiga no pão e emprego na ponta da cadeia. Na manhã de hoje, no Meio DIa em Pauta, da 98 News, eu e Guilherme Ibraim conversamos com o presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados de Minas Gerais, Guilherme Abrantes,
Minas Gerais não é coadjuvante nessa história. O estado responde por mais de 27% da produção brasileira de leite e, nas palavras do presidente do SILEMG, se Minas fosse um país, estaria entre os grandes produtores mundiais. É um dado que impressiona, mas que também obriga o Brasil a olhar para essa cadeia com mais seriedade. Leite não nasce em caixinha, nem brota em prateleira de supermercado. Antes de chegar ao consumidor, ele percorre um caminho complexo, caro, tributado, cheio de riscos e cada vez mais pressionado por concorrência externa.
Minas grita pelo leite
Guilherme Abrantes foi direto ao ponto ao avaliar o movimento Minas Grita pelo Leite, que reuniu produtores, indústrias e entidades em defesa do setor. Para ele, a mobilização foi fundamental porque mostrou a força da cadeia e colocou todos, finalmente, na mesma direção. Mas o problema, segundo ele, está longe de ter sido resolvido. A entrada de leite e derivados da Argentina e do Uruguai continua sendo uma das grandes preocupações do setor, especialmente pela diferença de condições de produção, custo e subsídios.
A frase mais forte da entrevista resume bem o incômodo:
“A Argentina e o Uruguai se tornaram quase estados brasileiros, porque o leite deles entra aqui sem que a gente consiga barrar essa entrada.”
É uma imagem dura, mas eficiente. O entrevistado não está falando contra o comércio internacional, nem defendendo uma ilha econômica. O ponto é outro: concorrência precisa ter regra, equilíbrio e reciprocidade. Quando o produto importado chega ao Brasil em condições muito inferiores às da produção nacional, a disputa deixa de ser competição e passa a ser um cabo de guerra desigual. De um lado, o produtor brasileiro, submetido a carga tributária elevada, custo de energia, diesel caro, estradas ruins e insegurança regulatória. Do outro, produtos vindos de países que protegem suas cadeias produtivas com instrumentos que o Brasil ainda trata como pecado mortal.
Esse é um debate que precisa sair do discurso fácil. O Brasil adora dizer que valoriza o agronegócio, mas muitas vezes deixa suas cadeias produtivas expostas a uma concorrência que não segue o mesmo jogo. Guilherme Abrantes defende uma medida objetiva: taxar corretamente o leite importado quando houver desequilíbrio. Para ele, há espaço para importação, mas não da forma como ela vem ocorrendo. O problema não é o produto estrangeiro existir. O problema é ele entrar com vantagem artificial e derrubar preço, renda e planejamento de quem produz aqui.
O peso do custo Brasil
O setor também enfrenta o peso clássico do chamado Custo Brasil. E, nesse ponto, o presidente do Silemg foi categórico. A tributação é o maior problema. Depois vêm embalagem, energia, transporte e diesel. Tudo isso forma uma corrente pesada que aperta a indústria, pressiona o produtor e, cedo ou tarde, chega ao consumidor. A indústria tenta segurar os repasses, mas ninguém faz milagre todo dia. Nem mesmo em Minas, onde se transforma leite em queijo com uma competência quase religiosa.
Outro gargalo importante é a logística. Minas é gigante, tem forte produção no interior e depende de uma malha rodoviária que nem sempre acompanha a importância econômica do setor. A imagem antiga do caminhão recolhendo latões na beira da estrada já ficou para trás. Hoje, o setor está mais tecnológico. Há tanques resfriados nas fazendas, caminhões térmicos, técnicos acompanhando produção, controle de qualidade, alimentação animal e processos industriais cada vez mais sofisticados. Mas a tecnologia precisa de estrada, energia e previsibilidade. Sem isso, até a modernização anda de bota no barro.
Uma atividade geradora de empregos
A cadeia do leite em Minas, segundo Guilherme Abrantes, movimenta mais de R$40 bilhões por ano e gera mais de 1 milhão de empregos diretos. É muita gente envolvida para que o tema seja tratado como assunto menor. Da fazenda à indústria, da indústria ao comércio, do comércio à mesa, o leite sustenta uma engrenagem econômica que merece respeito. E merece também política pública séria, não apenas discurso em solenidade.
Mas nem tudo é crise. Há uma parte luminosa nessa história. O setor evoluiu, diversificou produtos e passou a olhar com mais atenção para o consumidor. O leite deixou de ser apenas o leite da caixinha. Virou proteína, virou whey, virou queijo especial, virou iogurte, virou bebida láctea, virou produto de conveniência, saúde e prazer. O consumidor quer novidade, quer qualidade, quer alimento mais saudável. E a indústria, pequena, média ou grande, está sendo obrigada a inovar diariamente.
A fala de Guilherme Abrantes sobre o valor simbólico do leite também merece destaque:
“O leite foi o primeiro alimento que você colocou na boca no dia em que nasceu.”
É uma frase simples, mas poderosa. O leite acompanha a vida desde o começo. Está na memória afetiva, na infância, no café da manhã, no pão de queijo, no queijo com café, no queijo com vinho, na mesa mineira que não pede licença para ser patrimônio sentimental. Em Minas, falar de leite é falar de identidade. A vida sem queijo por aqui ficaria sem graça, sem alma e, convenhamos, sem nenhuma condição moral de continuar.
Há ainda um ponto importante: a relação entre produtor e indústria amadureceu. Segundo Abrantes, a antiga ideia de que a indústria explorava o produtor deu lugar a uma visão mais integrada da cadeia. Instrumentos como o Conseleite ajudaram a criar diálogo entre produtores, indústria e entidades. A cadeia é contínua. Quando o preço cai para o produtor, cai também no produto final. Quando a indústria sofre, o produtor sente. Quando o consumidor muda o comportamento, todos precisam se adaptar. Não há elo isolado nesse processo.
O Dia Mundial do Leite, portanto, deve ser comemorado, sim. Mas com a lucidez de quem sabe que celebrar não é maquiar a realidade. Minas tem força, tradição, tecnologia e capacidade industrial. Tem produtores cada vez mais preparados e indústrias buscando inovação. Mas também tem carga tributária pesada, infraestrutura ruim, concorrência externa desequilibrada e pouca ação efetiva de governos que até ouvem, mas nem sempre fazem.
Guilherme Abrantes resumiu esse sentimento com outra frase direta: “Ouvir, vários estão ouvindo. Fazer, poucos querem fazer.”
Está aí o retrato. O leite mineiro não precisa de piedade. Precisa de estrada, regra justa, energia confiável, tributação racional, defesa comercial quando necessária e reconhecimento de sua importância econômica. Porque, no fim das contas, quando o consumidor abre uma caixa de leite ou corta um pedaço de queijo, ele talvez não veja tudo isso. Mas ali dentro há trabalho, investimento, risco, tecnologia e uma história inteira do interior brasileiro.
No Dia Mundial do Leite, Minas não pede favor. Pede respeito. E, se possível, um café quente, um queijo bem curado e um governo que finalmente entenda que cadeia produtiva não vive só de data de comemoração, viive de condição para produzir.
