PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Vetor Sul de BH: ninguém defende só alargar vias; o que se cobra é planejamento, coragem e respeito à vida humana

Siga no

Trânsito no acesso a Nova Lima (Foto: reprodução/ Google Street View)

Compartilhar matéria

Quando da publicação de um comentário que fiz no “Meio DIa em Pauta” da 98 News, posteriormente publicado no Instagram da Rede 98, uma série de comentários negando-se ouvir a mensagem e matando o mensageiro me chamou a atenção. O trânsito da região Sul de Belo Horizonte não será resolvido com uma medida isolada. Mas também não será resolvido com imobilismo, discurso bonito e uma gestão urbana que parece ter desistido de enfrentar o problema.

Há críticas que ajudam o debate. E há críticas que apenas tentam deformar aquilo que foi dito para depois combater uma frase que nunca existiu.

Quando se cobra atenção para o caos do trânsito no Vetor Sul de Belo Horizonte, especialmente na ligação com Nova Lima, na pressão diária sobre a região da Raja Gabaglia, do Belvedere, do Vila da Serra, do BH Shopping, da BR-356 e dos acessos à área hospitalar, comercial e residencial daquela parte da cidade,  não se está dizendo que a solução seja simplesmente “alargar vias”.

A simplificação preguiçosa.

Em nenhum momento a tese foi: “alarga tudo que resolve”.

O problema é muito mais complexo. E exatamente por ser complexo exige um conjunto de soluções. Exige transporte público de qualidade, gestão inteligente de tráfego, integração metropolitana, fiscalização, planejamento de ocupação urbana, novos corredores, novas conexões e, sim, também obras viárias quando elas forem necessárias.

O que não dá é fingir que uma cidade cresce, que Nova Lima se expande, que prédios sobem, que condomínios se multiplicam, que empresas se instalam, que escolas, hospitais, shoppings e escritórios atraem milhares de pessoas todos os dias, e que tudo isso possa continuar sendo despejado nas mesmas poucas saídas de sempre.

Cidade não é sanfona

Belo Horizonte, naquela região, já está arrebentando nas costuras.

A defesa de uma nova avenida sobre a linha férrea, por exemplo, com ligação com a BR-356, não é uma proposta de “mais asfalto pelo asfalto”. É uma proposta de redistribuição de fluxo. É outra lógica. É tirar o trânsito de um funil único e criar múltiplas possibilidades de saída.

O mesmo vale para a ideia de um túnel que faça ligação com a Avenida das Agulhas Negras, no entorno do Parque das Mangabeiras. A virtude de um projeto assim está justamente em abrir alternativas. Hoje, boa parte do trânsito daquela região é empurrada para os mesmos gargalos, como se toda a água de uma enchente tivesse de passar por um canudinho.

Quando se cria uma nova conexão, uma nova avenida, um novo túnel, um novo eixo de circulação, o objetivo não é estimular o congestionamento. É o contrário. É permitir que o motorista, o ônibus, o serviço, a ambulância, o trabalhador, o morador e o visitante tenham caminhos diferentes.

Trânsito ruim é perda de vida

É a mãe que sai mais cedo e chega mais tarde em casa. É o pai que perde uma hora por dia dentro do carro. É o trabalhador que chega exausto antes mesmo de começar o expediente. É o comerciante que perde cliente. É o médico que se atrasa. É a ambulância que fica presa. É a criança que passa mais tempo olhando para o banco da frente do carro do que para o rosto dos pais.

O congestionamento permanente é uma forma silenciosa de violência urbana. Não mata de uma vez. Vai moendo.

Mói o humor, a saúde, o tempo, a paciência, a produtividade e a convivência familiar. Transforma a cidade em castigo. E uma cidade não foi feita para castigar seus moradores. Cidade foi feita para aproximar pessoas.

Por isso, também é preciso responder às críticas sobre os ambientalistas.

Ninguém de bom senso defende agressão ambiental irresponsável. Ninguém está propondo destruir montanha, rasgar parque, cimentar nascente ou tratar a natureza como obstáculo. Ao contrário, uma cidade civilizada precisa preservar suas áreas verdes, suas encostas, seus cursos d’água, sua paisagem e sua memória ambiental.

Mas há uma contradição que precisa ser enfrentada com coragem: alguns discursos ambientalistas parecem esquecer que o ser humano também faz parte do meio ambiente.

A vida humana também merece proteção

O direito de respirar um ar melhor também passa por não deixar milhares de veículos parados, queimando combustível, todos os dias, nos mesmos gargalos. O direito à qualidade de vida também envolve deslocamento digno. O direito à cidade também exige mobilidade. O direito ao verde não pode ser usado como desculpa para condenar pessoas a uma rotina cinzenta de buzina, fumaça e desespero.

Preservar a natureza é essencial. Mas preservar a vida humana também é. E não há preservação verdadeira quando se ignora o sofrimento cotidiano de quem vive preso num trânsito enlouquecido, fruto de anos de omissão, falta de planejamento e medo político de tomar decisões.

O Vetor Sul de Belo Horizonte não pode continuar sendo tratado como um problema menor, como se fosse apenas uma reclamação de motoristas impacientes. Não é. É uma questão metropolitana. É urbanística, econômica, ambiental, social e humana.

O crescimento de Nova Lima impacta Belo Horizonte. O adensamento imobiliário de uma cidade afeta a mobilidade da outra. O trânsito não respeita limite administrativo. O carro não para na placa dizendo “fim de município”. O ônibus não pergunta se o congestionamento é responsabilidade da prefeitura A, B ou C. A vida real atravessa fronteiras que a burocracia insiste em fingir que são muros.

Falta uma visão metropolitana para a região

BH, Nova Lima, Governo de Minas e órgãos de planejamento precisam sentar à mesa com seriedade. Não para produzir mais um estudo bonito que dormirá em alguma gaveta refrigerada do poder público. Mas para definir projetos, prazos, responsabilidades e fontes de financiamento.

A cidade precisa de alternativas. Precisa de coragem. Precisa de engenharia. Precisa de política pública adulta. E precisa abandonar essa falsa escolha entre mobilidade e meio ambiente.

A discussão madura não é “obra ou natureza”. A discussão madura é: que obras podem ser feitas com menor impacto, maior compensação ambiental, melhor resultado social e maior inteligência urbana?

Porque não fazer nada também tem impacto ambiental.

O carro parado polui. O congestionamento polui. A demora polui. A falta de planejamento polui. O improviso urbano polui. A omissão também agride o meio ambiente, e agride principalmente o cidadão.

Portanto, é preciso repetir: ninguém está dizendo que basta alargar vias. O que se defende é um pacote de soluções, dentro do qual novas conexões viárias podem e devem ser discutidas.

A avenida sobre a linha férrea, a ligação com a 356 e o túnel para criar nova saída em direção à região da Agulhas Negras são exemplos de projetos que merecem debate técnico, ambiental e urbano. Não devem ser aceitos automaticamente, mas também não podem ser descartados por reflexo ideológico.

Cidade boa é a cidade que respira, circula, preserva e acolhe.

Hoje, o Vetor Sul de Belo Horizonte está sufocado. E sufocamento não se resolve com slogan. Resolve-se com planejamento, obra, transporte público, gestão, tecnologia, integração e respeito ao cidadão.

O ambientalismo que merece respeito é aquele que protege a árvore, a nascente, o parque e também a pessoa que perde parte da vida dentro de um congestionamento sem fim.

Porque a principal razão para preservar o mundo é permitir que a vida floresça nele. E vida, convém lembrar, inclui o ser humano.

Compartilhar matéria

Siga no

Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

Webstories

Mais de Entretenimento

Mais de 98 News

Ibovespa cai pela 8ª semana seguida e preocupa mercado

Tarantino detona Hollywood e indica filme da Netflix

IA não substitui médicos, reduz atritos no trabalho

Minerais críticos: o tesouro que o Brasil não explora

Pressão no agro pode elevar inflação dos alimentos

Desafio de Mateus Simões vai além da sucessão

Últimas notícias

Junho Vermelho alerta para falta de sangue em MG

Ferrari elétrica gera críticas e derruba ações

Liderança é inspirar, não controlar pessoas

Quanto dinheiro preciso para investir na bolsa?

Rush volta aos palcos sem Neil Peart após 11 anos de hiato

Parcelamento é estratégia, não descontrole financeiro

Remodelação glútea: a moda que conquistou as redes e os riscos que ninguém mostra

Astro do beisebol escapa de tragédia ao não embarcar em avião que caiu no Caribe

Incêndio que destruiu 27 ônibus não terá impacto no subsídio nem na tarifa do transporte em BH, diz Setra