Durante muito tempo, a seleção brasileira de futebol foi vendida ao país como uma espécie de altar cívico. Um lugar sagrado onde as diferenças desapareciam, divergências eram suspensas e todos, por noventa minutos, vestiam a mesma camisa. Nelson Rodrigues cunhou a expressão que atravessou gerações: a “pátria de chuteiras”. Era bonito. Era forte. Era quase uma missa laica na tarde de domingo.
Mas talvez tenha chegado a hora de olhar para essa imagem com menos romantismo e mais lucidez.
A seleção brasileira pode emocionar, pode reunir famílias diante da televisão, pode fazer uma criança pintar o rosto de verde e amarelo, pode provocar grito, lágrima, abraço e até superstição com a mesma camisa usada em todas as Copas. Tudo isso é legítimo. Torcer é uma alegria humana. É uma forma de pertencimento, de festa, de memória afetiva. O problema começa quando essa alegria é confundida com patriotismo. E pior, quando interesses econômicos privados se vestem de nação para vender emoção com selo de dever cívico.
O futebol é uma atividade privada
A FIFA é uma entidade privada que organiza competições bilionárias. A CBF é uma entidade privada. Federações, clubes, patrocinadores, empresas de material esportivo, plataformas de transmissão, agentes, intermediários e marcas vivem em torno de uma engrenagem gigantesca de dinheiro. Nada disso é pecado. O lucro não é crime. A atividade econômica é legítima. Mas convém não vender cachorro-quente como se fosse banquete republicano.
A seleção brasileira não é uma instituição pública. Não representa o Estado brasileiro da mesma forma que uma embaixada, uma universidade pública, uma Força Armada ou um serviço essencial. Ela usa símbolos nacionais, canta o hino, veste as cores da bandeira e desperta emoção popular. Mas opera dentro de uma estrutura privada, movida por contratos, direitos comerciais, patrocínios, acordos de transmissão, interesses de mercado e gestão empresarial, muitas vezes opaca, distante e pouco comprometida com qualquer ideia real de cidadania.
E aí está a confusão
Quando se diz que a seleção é “o Brasil em campo”, cria-se uma narrativa conveniente. Ela transforma um produto esportivo em símbolo patriótico. Faz o torcedor acreditar que, ao defender a seleção, está defendendo a nação. Como se criticar a CBF fosse falta de amor ao Brasil. Como se questionar convocação, patrocínio, cartola, empresário ou calendário fosse uma espécie de heresia nacional. Não é. É apenas lucidez.
A pátria não cabe numa chuteira. A pátria está na escola que funciona, no hospital que atende, na rua segura, na justiça que respeita a lei, no imposto bem aplicado, na liberdade preservada, na democracia defendida, no cidadão que trabalha e paga a conta. A pátria está no esforço cotidiano de milhões de brasileiros anônimos, não no marketing de uma entidade esportiva que convoca atletas milionários para disputar torneios organizados por uma máquina global de entretenimento.
Os jogadores, diga-se, não são vilões. Muitos vieram de origem humilde, venceram pelo talento, pela disciplina, pela oportunidade e pela dureza de uma carreira curta e exigente. Merecem reconhecimento. Mas também é preciso dizer que a maioria dos atletas da seleção vive num universo financeiro completamente distante da realidade do brasileiro médio. São contratos milionários com clubes europeus, acordos com marcas esportivas, campanhas publicitárias, bônus, direitos de imagem, redes sociais monetizadas e empresários administrando carreiras como verdadeiras multinacionais pessoais.
Nada disso é errado em si. O erro está na embalagem moral. Está em fingir que tudo aquilo é apenas amor à camisa. Amor pode até existir. Mas ele viaja de jatinho, assina contrato, tem cláusula de desempenho e é assessorado por advogado.
O torcedor pode amar a seleção. Pode vestir a camisa. Pode sofrer num pênalti. Pode se emocionar com um gol nos acréscimos. Pode parar o churrasco, atrasar reunião, discutir escalação no bar e xingar o técnico com a autoridade de quem nunca treinou nem time de botão. Faz parte do teatro maravilhoso do futebol. O que ele não deve é entregar sua consciência crítica na bilheteria.
Torcer não exige ingenuidade
É perfeitamente possível vibrar com um gol do Brasil e, ao mesmo tempo, saber que há uma cadeia econômica poderosa lucrando com aquela emoção. É possível desejar a vitória da seleção sem transformar cartola em guardião da nacionalidade. É possível respeitar o talento dos jogadores sem tratá-los como soldados da pátria. É possível gostar de futebol sem aceitar que empresas privadas usem a bandeira como escudo moral.
A camisa amarela, aliás, já carrega hoje um peso simbólico muito maior do que o futebol. Foi apropriada, disputada, politizada, esvaziada e ressignificada ao longo dos últimos anos. Isso mostra como símbolos nacionais são vulneráveis quando passam a ser usados sem cuidado por interesses diversos. A seleção, nesse ambiente, deixou de ser apenas esporte há muito tempo. Virou produto, vitrine, palco político, ativo comercial e objeto de disputa cultural.
É necessário separar as coisas
O Brasil não é a CBF. O Brasil não é a FIFA. O Brasil não é um contrato de patrocínio estampado no intervalo da transmissão. O Brasil não é a coletiva ensaiada, o ônibus plotado, o camarote corporativo, a camisa vendida a preço de artigo de luxo. O Brasil é muito maior, mais sofrido, mais profundo e mais verdadeiro do que esse espetáculo cuidadosamente montado para parecer espontâneo.
A alegria popular é autêntica. O negócio em torno dela também é autêntico. Uma coisa não anula a outra. Mas confundir as duas é cair no conto mais antigo do entretenimento moderno: vender emoção privada como causa pública.
A seleção brasileira pode continuar sendo motivo de festa. Que seja. O futebol é bonito demais para ser entregue apenas aos burocratas, aos cartolas e aos patrocinadores. O drible ainda tem poesia. O gol ainda tem infância. A bola ainda sabe fazer o adulto virar menino por alguns segundos. Isso merece ser preservado.
Mas a tal pátria de chuteiras precisa descer do pedestal.
O que existe hoje é uma indústria de chuteiras. Bilionária, globalizada, profissional, privada e interessada. O torcedor pode entrar nessa festa, claro. Só não precisa entrar de olhos vendados, carteira aberta e coração sequestrado pelo discurso patriótico de ocasião.
Amar o Brasil é outra coisa.
É mais difícil, menos televisionado e quase nunca tem replay.
