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As nuvens mudam no céu político de Minas

Por Paulo Leite Rede 98
03/07/2026 10:04 Atualizado há 3 horas
Vista aérea de Belo Horizonte (Foto ilustrativa) | FOTO: DÉBORA ELISA

Já dizia o velho político mineiro que política é como nuvem. Você olha para o céu, está de um jeito. Abaixa a cabeça, levanta de novo, olha para cima, e pronto: já está tudo diferente. Em Minas Gerais, essa velha frase voltou a fazer sentido com uma precisão quase meteorológica.

Os ventos começaram a soprar em outra direção no céu político mineiro. E, quando o vento muda, as nuvens também mudam de lugar. Aquilo que parecia encaminhado no início da semana já não parece tão firme assim. O que era hipótese distante ganhou conversa de bastidor. O que era resistência virou negociação. E o que era plano A pode, rapidamente, virar plano B, C ou simplesmente evaporar.

A tentativa de aproximação

A movimentação mais importante neste momento envolve uma tentativa de aproximação entre o grupo do governador Mateus Simões, do PSD, e o senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos. Um hábil negociador ligado a Simões entrou em campo para tentar reduzir as diferenças entre Cleitinho e o atual grupo de poder em Minas. O objetivo é claro, abrir caminho para que o senador apoie Mateus Simões na disputa pelo governo do Estado em outubro.

Se essa conversa prosperar, muda muita coisa. Não é um detalhe de bastidor. É uma peça capaz de mexer no tabuleiro inteiro.

Cleitinho não é um ator lateral nessa eleição. É hoje um dos nomes mais competitivos da política mineira. Tem recall, tem presença nas redes, tem comunicação direta com parte expressiva do eleitorado e tem uma característica rara na política tradicional: fala uma língua que seus eleitores entendem sem precisar de tradução simultânea de marqueteiro. Pode-se gostar ou não do estilo, mas é impossível ignorar o peso político que ele carrega.

Por isso, qualquer decisão de Cleitinho altera o cenário. Se ele for candidato ao governo, puxa para si uma parte considerável do eleitorado conservador, embaralha os planos de Simões e obriga o PL a se organizar em torno de uma aliança com o Republicanos. Se ele decidir não disputar e apoiar Mateus Simões, o governador passa a ter a chance de agregar uma força popular que hoje lhe falta. Simões tem máquina, currículo administrativo e o legado do governo Zema. Cleitinho tem rua, voto e comunicação emocional. A combinação, se acontecer, muda o tamanho da candidatura governista.

O problema é que política não é matemática. E, em Minas, menos ainda. Aqui, dois mais dois podem dar quatro, quatro e meio ou uma reunião reservada em algum gabinete com café e prosa política.

A chapa pura do Republicanos

No início da semana, havia sido ventilada a possibilidade de uma chapa pura do Republicanos, com Cleitinho Azevedo na cabeça e Luiz Eduardo Falcão como vice. Esse desenho sinalizava uma candidatura própria, com o partido tentando explorar a força eleitoral do senador sem depender de outros campos. Mas, se as conversas com Mateus Simões avançarem, essa hipótese perde força e o Republicanos passa a discutir outro tipo de protagonismo: não necessariamente o de cabeça de chapa, mas o de fiador político de uma candidatura competitiva.

O movimento que atinge o PL

O PL mineiro está esperando Cleitinho. Essa é a frase. Simples assim. O partido, que precisa montar um palanque forte em Minas para Flávio Bolsonaro, vinha olhando para o senador como peça-chave dessa construção. A lógica era compreensível: Cleitinho poderia oferecer um palanque estadual competitivo, com apelo popular e afinidade com parte do eleitorado bolsonarista. Para o PL, seria uma forma de evitar uma candidatura fraca, improvisada ou meramente cartorial ao governo de Minas.

Mas, se Cleitinho caminhar para apoiar Mateus Simões, o PL perde o tempo confortável da espera. Não haveria mais o que aguardar. O partido teria que tomar uma decisão clara. Ou aceita apoiar Mateus Simões, ainda que isso implique administrar um palanque duplo, dividido entre Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, ou parte para uma candidatura própria.

A primeira opção é politicamente complexa. Um palanque com Flávio e Zema no mesmo campo  exigiria engenharia fina, daquelas que precisam de régua, compasso e um santo forte. Zema é presidenciável pelo Novo. Flávio Bolsonaro é o nome do PL para a disputa nacional. Juntar essas forças em Minas pode até ser possível, mas não é simples. Palanque duplo costuma ser bonito no papel e perigoso na prática. Na hora do discurso, da foto, da agenda e da propaganda, a conta aparece.

A segunda opção também não é tranquila. Se o PL decidir lançar candidato próprio, o nome que cresce internamente é o de Vittorio Medioli, ex-prefeito de Betim, empresário e figura conhecida no cenário político mineiro. Medioli tem trajetória administrativa, densidade econômica e experiência política. Não é um aventureiro. Mas seu nome não é consenso dentro da própria executiva estadual do PL. E candidatura majoritária sem unidade partidária nasce com uma pedra no sapato. Às vezes, com duas.

Esse é o ponto central: o PL pode até ter nomes, estrutura e ambição. Mas precisa decidir se quer ser protagonista, coadjuvante de luxo ou sócio de uma composição mais ampla. E essa decisão não depende apenas do partido. Depende, em boa medida, do movimento de Cleitinho.

Todos se movimentam com cautela

A política mineira entrou naquela fase em que ninguém quer ser o primeiro a piscar, mas todo mundo está olhando para o outro pelo canto do olho. Mateus Simões tenta ampliar sua base e reduzir resistências. Cleitinho mede o custo de disputar, o peso de apoiar e o valor político de continuar sendo desejado por todos. O Republicanos tenta preservar espaço. O PL calcula o palanque nacional. E Zema, continua sendo uma sombra decisiva sobre a sucessão.

O eleitor precisa prestar atenção porque esse tipo de movimentação não é apenas dança de bastidor. Ela define alianças, tempo de televisão, estrutura de campanha, capilaridade no interior, força nas redes e discurso eleitoral. Uma conversa hoje pode mudar uma chapa amanhã. Um apoio pode tirar uma candidatura da gaveta. Uma resistência pode empurrar um partido para uma aventura.

Até aqui, não há tempestade no horizonte. Mas o céu já não está igual ao de ontem.

As nuvens se moveram. Os ventos mudaram. E, em Minas, quando o céu político começa a mudar de cor, convém olhar com cuidado. Porque, nesta terra, muita coisa acontece antes do trovão. E, quando o trovão chega, geralmente a chuva já começou faz tempo.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.