O debate econômico no Brasil costuma oscilar entre dois extremos. De um lado, a defesa da responsabilidade fiscal; de outro, a urgência da política social. Um ponto decisivo nesse embate é que não há contradição entre essas duas agendas. Pelo contrário, políticas sociais eficazes dependem de equilíbrio fiscal, assim como a responsabilidade fiscal só se legitima quando sustenta a proteção social. Quando essa relação é rompida, abre-se espaço para o populismo disfarçado de solução.
A economia, quando entra na política, costuma perder a sobriedade e ganhar fantasia. Vira promessa, slogan, palanque. E é justamente aí que mora o perigo. Porque há uma tentação permanente, especialmente entre setores que se apresentam como progressistas, de tratar a heterodoxia econômica não como instrumento técnico, mas como licença poética para gastar.
É uma velha prática da gestão pública no Brasil. Quando a conta não fecha, muda-se o discurso. Quando o orçamento aperta, chama-se o gasto de investimento. Quando a dívida cresce, culpa-se o mercado. Quando a inflação aparece, diz-se que é especulação. E assim o populismo vai vestindo terno de política social.
A necessidade de ampliar a compreensão
É necessário compreender que em momentos específicos, o Estado pode e deve agir para estimular setores, proteger empregos, financiar infraestrutura e corrigir desigualdades que o mercado sozinho não resolve. O problema é quando deixa de ser ferramenta e vira dogma, e qualquer limite fiscal passa a ser visto como maldade.
É aí que a política social, que deveria ser coisa séria, vira argumento para qualquer despesa. Gasta-se em nome dos pobres, mas nem sempre para os pobres. Cria-se programa, amplia-se subsídio, distribui-se benefício, abre-se renúncia, tudo embalado na mesma frase generosa: “é pelo social”.
Mas nem todo gasto social é política social. Política social de verdade tem foco, avaliação e resultado. Populismo fiscal tem pressa, propaganda e conta escondida. A primeira emancipa. O segundo captura.
O atalho perigoso do progressismo
O progressismo brasileiro, muitas vezes, se perde exatamente nesse ponto. Confunde sensibilidade social com desorganização fiscal e presença do Estado com expansão sem critério do gasto público. E, no fim, termina traindo justamente aqueles que diz defender.
Porque quando a inflação volta, ela não bate primeiro à porta dos ricos. Bate na cozinha dos pobres. O arroz encarece, o gás vira luxo, o aluguel sufoca. A inflação é uma máquina silenciosa de moer salário. E não há discurso bonito o bastante para compensar a perda concreta do poder de compra.
A virtude da ortodoxia
A ortodoxia econômica tem uma virtude que a política brasileira costuma desprezar, a previsibilidade. Não é capricho de banqueiro, mas a garantia de que regras não serão rasgadas no meio do jogo. É o que permite investimento, planejamento e juros sustentáveis.
A ortodoxia fiscal parte de uma ideia simples. O governo também tem limite. O Estado não pode gastar permanentemente mais do que arrecada sem produzir consequências. E, quando a conta chega, ela vem como inflação, aumento de juros e perda de confiança.
A vantagem da ortodoxia está em criar um ambiente em que as políticas públicas possam durar. Um governo fiscalmente responsável tem mais capacidade de manter programas sociais e atravessar crises. Já um governo que ignora limites termina obrigando o futuro a cobrar juros altos.
Responsabilidade fiscal não é abandonar os pobres
Política social boa precisa de organização do Estado, Porém deve-se evitar a confusão entre Estado presente e Estado forte, inchado e desorganizado. A eficiência do Estado está em arrecadar, gastar, avaliar programas e dizer não a grupos que se escondem atrás de discursos nobres, garantindo que a ajuda não dependa de improviso ou criatividade contábil.
O erro do populismo é vender a ideia de que toda restrição fiscal é crueldade. Muitas vezes, é proteção contra a aventura. É o freio antes do precipício.
Os atalhos da política brasileira
Essa paixão por atalhos, comum à política no Brasil, é cercada de contradições. Quer crescimento sem produtividade, distribuição sem financiamento, gasto permanente com receita temporária. É bonito no palanque, mas desastroso no caixa.
Os chamados progressistas precisam encarar essa contradição. Não basta dizer que defendem os pobres. É preciso mostrar como vão financiar essa defesa sem destruir a moeda ou comprometer o futuro. Boa intenção não paga boleto.
A ortodoxia, por sua vez, também precisa compreender que equilíbrio fiscal não pode ser sinônimo de insensibilidade. Cortar desperdício é dever. Cortar privilégio é justiça. Mas cortar política social eficiente é miopia.
O ponto de equilíbrio
É necessária a busca de uma combinação que o Brasil insiste em tratar como impossível. Responsabilidade fiscal com prioridade social. O gasto público deve ser defendido pelo resultado, não pela ideologia.
A previsibilidade ortodoxa é o chão. A política social eficiente é a construção. Sem chão, a casa desaba. Sem construção, o chão não abriga ninguém.
O país precisa sair da falsa oposição entre mercado e povo, equilíbrio e justiça social. Não há política social sem responsabilidade fiscal. E não há responsabilidade fiscal legítima sem compromisso social.
O populismo prefere o aplauso imediato. A responsabilidade prefere o resultado duradouro. O primeiro promete tudo hoje e manda a conta para amanhã. A segunda escolhe prioridades e sustenta políticas que sobrevivem ao calendário eleitoral.
O Brasil não precisa de uma economia sem coração. Mas também não pode aceitar uma economia sem juízo. Entre a frieza tecnocrática e o delírio populista, há um caminho mais difícil, e mais honesto. Gastar melhor, com foco e responsabilidade.
Porque os mais carentes não precisam apenas de promessas. Precisam de estabilidade, inflação baixa e emprego, tudo isso com serviços públicos que funcionem.
A heterodoxia pode até oferecer atalhos. Mas um país sério não se constrói por atalho. Constrói-se com regra, responsabilidade e coragem para gastar onde precisa e cortar onde sobra.
Em última instância, a escolha não é entre responsabilidade fiscal e política social, mas entre um modelo que sustenta ambas e outro que sacrifica uma em nome da outra. O equilíbrio entre essas dimensões não é apenas desejável, é condição para que políticas sociais sejam eficazes e para que a estabilidade econômica tenha legitimidade. Ignorar essa interdependência é repetir erros que o país já conhece bem.
A economia pode até parecer uma disputa entre escolas. Mas, na vida real, ela é uma disputa entre consequência e fantasia. E a fantasia, no Brasil, costuma vir com discurso bonito e uma fatura muito alta no final.
