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Flávio Roscoe e a candidatura que ainda está em movimento

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Emmanuel Macron apoia lei pioneira na União Europeia que proíbe redes sociais e uso de celulares por jovens no ensino médio. (Foto: Divulgação/Fiemg)

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Conversei com Flávio Roscoe na manhã de hoje, quando da comunicação da transição na Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais. A FIEMG acaba de escolher o presidente que comandará a entidade a partir de janeiro, mas o assunto da nossa prosa não foi propriamente a indústria. O tema foi política, essa indústria brasileira de expectativas, alianças, projetos pessoais e decisões quase sempre adiadas até o último minuto.


Roscoe entrou na conversa como presidente licenciado da FIEMG e pré-candidato do PL ao governo de Minas. Saiu dela sem anunciar recuo, desistência ou ruptura. Sua candidatura não está encerrada. Está em movimento, submetida a uma engrenagem partidária que ele passou a conhecer por dentro e que, claramente, funciona de maneira muito diferente de uma entidade empresarial.


A política pelo líder empresarial


A primeira descoberta de Roscoe é quase semântica. Partido, como ele observou, é uma parte, uma fração. E o Brasil resolveu levar essa definição ao pé da letra, construindo um sistema com quase 30 legendas, dezenas de comandos e uma quantidade ainda maior de interesses individuais.


A fragmentação não existe apenas entre os partidos. Está também dentro de cada um deles. Mesmo quando há alguma proximidade ideológica, convivem na mesma legenda diferentes projetos, ambições e perspectivas sobre o poder.


Roscoe percebeu rapidamente que a política não é uma reunião de pessoas unidas em torno de uma única visão de futuro. Muitas vezes, é um condomínio de projetos pessoais. Cada morador deseja reformar o prédio, desde que a obra comece pelo próprio apartamento.


É nesse ambiente que ele tenta apresentar uma diferença. Afirma ter colocado o nome à disposição da sociedade e do partido. Caso possa contribuir, segue em frente. Caso não possa, retorna à FIEMG para concluir o mandato.
A frase é serena, mas não deve ser confundida com uma despedida antecipada.


O caminho político


Roscoe continua pré-candidato e aguardará a convenção partidária do dia 27. Até lá, o PL terá de decidir se lança uma candidatura própria ao governo de Minas ou se fecha uma composição com o senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos.


O empresário evita transformar a demora do partido numa reclamação pessoal. Também não faz ataques diretos a Cleitinho. Mas deixa escapar uma informação que ajuda a compreender o desconforto interno, o PL espera há mais de 60 dias por uma decisão do senador.


O relógio político, porém, não é movido apenas pela paciência. Em determinado momento, alguém precisa decidir.


Roscoe não afirma que o PL obrigatoriamente deva liderar a chapa. Reconhece que uma aliança poderá ser o melhor caminho, dependendo dos termos da composição. Também não descarta uma candidatura própria.
Sua cautela é compreensível. Nesta fase, qualquer frase mal colocada pode ser interpretada como ultimato, rompimento ou disputa pública por espaço. Ainda assim, sua posição está posta: o partido não poderá permanecer indefinidamente na sala de espera de Cleitinho.


Há, portanto, uma candidatura viva, mas condicionada. Ela depende menos da disposição pessoal de Roscoe e mais da estratégia nacional do PL, da composição com o Republicanos e da decisão final do senador.


O futuro na política


O ponto mais interessante da conversa talvez esteja justamente aí. Roscoe não trata sua candidatura como um projeto encerrado, mas também não a transforma numa obsessão. Ele se apresenta como alguém disposto a disputar, sem aceitar que sua trajetória política precise ser reduzida a uma única eleição ou a um único cargo.
Essa disposição fica ainda mais evidente quando o assunto avança para 2028.


Ao ser provocado sobre uma eventual candidatura à Prefeitura de Belo Horizonte, Roscoe não abraça a hipótese, mas também não fecha a porta. Diz estar concentrado na eleição atual e defende que cada discussão seja feita no seu tempo. Logo depois, acrescenta que continuará à disposição da sociedade quando for chamado.
Na política, portas abertas costumam dizer mais do que declarações definitivas.


Roscoe entrou no PL com a força de quem comandou uma das mais importantes entidades empresariais do estado. Sua filiação foi recebida como a chegada de um nome competitivo, com capacidade de representar o setor produtivo e dialogar com o eleitorado de direita.


A dificuldade foi transformar essa expectativa numa candidatura consolidada.


O PL mineiro vive uma divisão entre aqueles que defendem uma chapa própria e os que preferem uma aliança com Cleitinho. O senador tem presença popular, bom desempenho eleitoral e reconhecimento em todo o estado, mas sua indecisão passou a consumir um tempo político precioso.


Roscoe, por sua vez, oferece ao partido uma candidatura com discurso mais claramente econômico, liberal e vinculado ao ambiente empresarial. Sua visão sobre o Estado é direta, o desenvolvimento nasce do protagonismo das pessoas, e não da máquina pública.


Uma provocação política e econômica


Flávio Roscoe sustenta que o governo absorve recursos da sociedade, redistribui de forma pouco eficiente e frequentemente vende à população a impressão de que produz riqueza. Para ele, o Estado não produz o dinheiro que entrega. Ele apenas retira dos contribuintes e decide onde gastar.


Há um ponto relevante nessa crítica. O sistema tributário brasileiro realmente transfere boa parte do peso dos impostos para o consumo. Isso faz com que a população de menor renda seja proporcionalmente penalizada, ainda que o discurso oficial frequentemente prometa cobrar apenas dos mais ricos ou das empresas.
Roscoe resume essa lógica de forma provocativa: o empresário recolhe o tributo, mas quem efetivamente paga é a população, por meio dos preços.


É uma visão econômica que conversa com o eleitorado liberal e com os setores produtivos, embora ainda precise ser traduzida para além dos auditórios empresariais. Uma campanha majoritária exige transformar conceitos sobre carga tributária, ambiente de negócios e eficiência estatal em assuntos que façam sentido na mesa do trabalhador.


Essa talvez seja uma das principais tarefas de Roscoe caso sua candidatura seja confirmada.


A avaliação do governo Zema


Ao avaliar os oito anos do governo Romeu Zema, Roscoe reconhece como principal legado a capacidade de atração de investimentos e a melhoria do ambiente de negócios. A própria FIEMG participou de parte desse processo e, segundo ele, foi ouvida pelo governo.


Mas sua análise não é apenas elogiosa. Roscoe identifica na articulação política a maior fragilidade da gestão.
Zema foi eleito com forte apoio popular, mas sem uma bancada legislativa equivalente. O Novo tinha pouca experiência de governo e, em alguns momentos, cometeu erros estratégicos na relação com a Assembleia Legislativa. Como resultado, parte das mudanças estruturais prometidas não saiu do papel.


Roscoe toca num ponto central para o próximo governo. Minas não precisa apenas de uma administração capaz de atrair investimentos. Precisa de liderança política para negociar reformas, formar maioria e transformar propostas em decisões concretas.


Nenhum governador administra sozinho, ainda que alguns tenham sido eleitos acreditando nisso.


As relações dos poderes


Sobre o presidencialismo de coalizão, Roscoe faz uma distinção importante. A coalizão não é necessariamente ruim. Governos precisam construir maiorias. O problema está na versão brasileira, baseada na troca de apoio por cargos, secretarias, emendas e espaços de poder.


O acordo deixa de ser programático e passa a ser comercial.


Apoiar um governo em torno de propostas comuns é parte natural da democracia. Apoiar cegamente em troca de estruturas administrativas é outra coisa. É o velho “toma lá, dá cá”, expressão que atravessa governos de direita, de esquerda e de centro com a mesma desenvoltura.


A direita na eleição 2026


Roscoe também não demonstra preocupação excessiva com a fragmentação da direita na disputa nacional. Para ele, a divisão é natural no primeiro turno. A esquerda aparece mais unificada porque está no poder e possui um candidato natural à continuidade. A direita, fora do governo, busca definir quem terá condições de representá-la.
O desafio, segundo ele, será construir uma convergência no segundo turno.


A tese é politicamente razoável, mas não automática. Adversários que passam meses se atacando nem sempre conseguem subir juntos no mesmo palanque depois. A política brasileira coleciona alianças improváveis, mas também guarda ressentimentos com excelente memória.


O perfil do próximo governador


No final da conversa, Roscoe defendeu que o próximo governador coloque o cidadão no centro das decisões. Na educação, o foco deve ser o aluno. Na segurança, deve ser o cidadão. O programa de governo, segundo ele, precisa nascer do diálogo com a população, e não apenas das negociações entre políticos, partidos e instituições.
É uma proposta aparentemente simples, mas frequentemente esquecida. Governos discutem carreiras, corporações, contratos e estruturas. O usuário do serviço público costuma aparecer apenas na fotografia da campanha.


Roscoe entrou na política trazendo a lógica do setor produtivo, mas já percebeu que as decisões partidárias não obedecem ao mesmo ritmo de uma empresa. Na iniciativa privada, uma indefinição prolongada costuma ser tratada como problema de gestão. Na política, muitas vezes recebe o nome de estratégia.


Sua candidatura ao governo de Minas não foi consolidada, mas tampouco terminou. Ela continua circulando pelos corredores do PL, pelas negociações com o Republicanos e pela espera, cada vez mais curta, por uma posição de Cleitinho.


Se for escolhido, Roscoe entrará na disputa com um discurso econômico definido e o desafio de ampliar sua comunicação para além do empresariado. Se não for, não parece disposto a abandonar a política.


A convenção do dia 27 decidirá o destino imediato de sua pré-candidatura. Não necessariamente decidirá o destino político de Flávio Roscoe.


Na política, algumas candidaturas começam muito antes da convenção. Outras permanecem vivas mesmo depois dela.

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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