Belo Horizonte precisa tomar uma decisão sobre o seu Centro. Pode continuar promovendo intervenções pontuais, trocando piso, instalando bancos, melhorando a iluminação e anunciando uma nova paisagem urbana. Ou pode enfrentar o problema com a verdade que o esvaziamento residencial, a degradação dos imóveis, a insegurança, a desordem do espaço público e a perda progressiva de vitalidade econômica estão diante dos nossos olhos.
A audiência realizada na Câmara Municipal deixou claro que existe disposição para discutir o futuro da área central. Isso já é positivo. O problema é transformar o debate em uma disputa abstrata entre mercado imobiliário e movimentos sociais, como se a cidade tivesse de escolher entre investimento privado e inclusão. A cidade não tem essa obrigação.
O Centro precisa de investimento, valorização imobiliária, novos moradores, comércio forte e recuperação dos edifícios. Precisa também de moradia acessível e de políticas objetivas para a população em situação de rua. Uma coisa não exclui a outra.
O que Belo Horizonte não pode fazer é confundir requalificação com revitalização. Revitalizar é trocar a aparência. Requalificar é mudar a função.
O Centro não está morto
A palavra revitalização costuma ser usada como se o Centro tivesse perdido completamente a vida. Não perdeu.
Ali continuam circulando milhares de trabalhadores, consumidores, estudantes, passageiros, comerciantes e moradores. O Centro permanece como uma das áreas mais intensamente utilizadas de Belo Horizonte durante o dia.
O problema começa quando o expediente termina.
As lojas fecham, os escritórios esvaziam, o fluxo diminui e uma grande parcela das ruas perde presença humana. Sem moradores suficientes, o Centro fica dependente da circulação pendular, enche pela manhã e esvazia à noite. Nenhuma região urbana se sustenta assim.
Cidade segura não é apenas cidade com câmera. É uma cidade com gente na rua, comércio funcionando, janelas iluminadas, transporte disponível, fachadas ativas e ocupação permanente.
Por isso, a moradia deve estar no coração de qualquer projeto de requalificação. Não como concessão ideológica, mas como estratégia urbana. Trazer moradores para o Centro significa utilizar uma infraestrutura que já existe, reduzir deslocamentos, ampliar o consumo local, fortalecer serviços e produzir vigilância cotidiana.
Um prédio ocupado ajuda mais a segurança urbana do que uma câmera instalada diante de um prédio vazio.
Retrofit precisa sair do discurso
Belo Horizonte possui edifícios antigos, imóveis subutilizados, galpões e estruturas que poderiam receber novos usos. Parte desse patrimônio está abandonada porque a legislação é complexa, a adaptação é cara e o retorno financeiro não é imediato.
É exatamente aí que o poder público precisa atuar.
Incentivos fiscais e urbanísticos podem ser legítimos, desde que estejam ligados a resultados mensuráveis. Não basta conceder benefícios e esperar que o mercado faça, por conta própria, aquilo que a cidade deseja.
A operação urbana precisa estabelecer contrapartidas claras, imóveis efetivamente recuperados, unidades residenciais entregues, fachadas preservadas, calçadas qualificadas, áreas comerciais ativadas e prazos para execução.
Benefício sem obrigação vira presente.
Também é necessário evitar que todo o processo se transforme numa produção de apartamentos pequenos destinados apenas à locação de curta duração. Isso pode gerar movimento econômico, mas não cria necessariamente comunidade, vínculo ou ocupação estável. O Centro precisa de moradores, não apenas de hóspedes.
Moradia popular sem fantasia
A discussão sobre habitação de interesse social precisa ser mais objetiva.
Definir percentuais altíssimos de moradia popular pode afastar o investimento e inviabilizar projetos. Ignorar completamente a habitação acessível, por outro lado, cria uma área central elitizada, incapaz de abrigar trabalhadores que dependem dela diariamente. É necessário encontrar uma equação possível.
Parte dos imóveis pode ser destinada à habitação popular, parte ao mercado convencional e parte à locação subsidiada. O importante é que isso esteja previsto com clareza e não seja deixado apenas para uma regulamentação futura. A cidade deve buscar diversidade de renda, não uniformidade social.
Um Centro composto apenas por moradores de alta renda perde sua identidade. Um Centro incapaz de atrair investimento privado continuará degradado. Urbanismo sério não escolhe um extremo. Organiza a convivência entre usos, rendas e interesses diferentes.
A população em situação de rua precisa ser enfrentada
Nenhum projeto de requalificação será bem-sucedido enquanto milhares de pessoas continuam dormindo nas calçadas, ocupando marquises e montando estruturas permanentes no espaço público. Dizer isso não é falta de humanidade. É reconhecer um problema urbano evidente.
A rua não pode ser tratada como moradia definitiva. A calçada é espaço de circulação. Praças, passeios e entradas de edifícios precisam permanecer acessíveis. Comerciantes, moradores e pedestres também possuem direitos.
Ao mesmo tempo, retirar barracas, colchões e pertences sem oferecer destino é apenas deslocar o problema. A pessoa sai de uma praça e reaparece na esquina seguinte.
Portanto, a cidade precisa abandonar tanto a fantasia de que todos aceitarão imediatamente uma solução quanto a ideia de que nada pode ser feito sem resolver previamente todas as desigualdades sociais. Não haverá solução perfeita. Haverá gestão contínua.
É necessário ampliar o acolhimento, criar unidades adaptadas para diferentes perfis, oferecer tratamento de saúde mental e dependência química, manter equipes permanentes de abordagem e estabelecer regras claras para o uso do espaço público.
Parte das pessoas aceitará ajuda. Parte recusará. Alguns retornarão às ruas. Outros precisarão de acompanhamento durante anos.
Essa é a realidade.
A política pública deve insistir, acompanhar, oferecer alternativas e, ao mesmo tempo, impedir a ocupação permanente de áreas de circulação. Humanidade não pode significar paralisia. Ordem urbana não pode significar brutalidade.
Abrigo não pode ser depósito humano
A rede de acolhimento também precisa ser revista.
Muitas pessoas evitam abrigos porque os consideram inseguros, excessivamente rígidos ou inadequados para casais, famílias, animais e guarda de pertences. Enquanto essas falhas existirem, a adesão continuará baixa.
A solução não está em culpar exclusivamente quem recusa o atendimento. Está em melhorar a qualidade do serviço e tornar a alternativa minimamente atraente.
As unidades precisam ser menores, mais distribuídas, especializadas e conectadas à saúde, documentação, emprego e moradia transitória.
Mas também é preciso reconhecer que o acolhimento emergencial não equivale a solução habitacional. Ele é uma etapa, não o destino final.
Segurança é ocupação e autoridade
O Centro necessita de presença permanente do poder público.
Não apenas durante operações especiais ou eventos. Precisa de Guarda Municipal, policiamento, fiscalização, limpeza, manutenção e equipes sociais todos os dias. A degradação urbana cresce onde a autoridade pública aparece de forma episódica.
Câmeras ajudam, mas não limpam calçadas, não abordam consumidores de drogas, não impedem depredações e não reorganizam o comércio irregular. Tecnologia sem presença física produz uma cidade muito bem filmada e mal administrada.
É igualmente necessário enfrentar a ocupação desordenada por ambulantes, sem criminalizar o trabalho informal. O ambulante precisa de áreas definidas, regras, identificação e fiscalização. O comerciante formal não pode arcar sozinho com impostos, aluguel e exigências sanitárias enquanto enfrenta concorrência sem qualquer controle diante da porta.
Ordenar não é expulsar. É estabelecer limites compreensíveis para todos.
Mobilidade não pode ser esquecida
O Centro é uma área metropolitana. Não pertence apenas a quem mora dentro da Avenida do Contorno.
Milhares de pessoas chegam diariamente de ônibus, metrô e automóvel. Qualquer requalificação precisa melhorar o transporte coletivo, organizar pontos de embarque, ampliar a acessibilidade e criar condições seguras para o pedestre.
Reduzir espaço para automóveis pode fazer sentido em algumas áreas. Mas isso precisa vir acompanhado de transporte público eficiente, estacionamentos bem localizados, carga e descarga organizada e conexão com os bairros.
Urbanismo não é declarar guerra ao carro. É impedir que um único modo de transporte domine todo o espaço. Também não adianta criar áreas bonitas para pedestres se o trajeto até elas permanece escuro, sujo e inseguro.
A qualidade urbana não pode existir apenas dentro do perímetro da obra.
A fachada não pode esconder a estrutura
Belo Horizonte já viu projetos que começaram com entusiasmo e terminaram sem manutenção. Piso quebra. Árvore morre. Luminária é danificada. Banco desaparece. A obra é entregue, fotografada e lentamente abandonada.
Requalificação exige orçamento permanente de conservação. Não basta construir. É preciso limpar, fiscalizar, reparar e atualizar.
A cidade deve criar indicadores públicos para acompanhar o projeto. Número de moradores permanentes, imóveis ocupados, estabelecimentos abertos à noite, ocorrências de segurança, pessoas retiradas de forma duradoura das ruas e taxa de conservação dos espaços reformados.
Sem metas, qualquer intervenção pode ser considerada sucesso por quem a inaugurou.
Uma cidade de uso misto
O Centro precisa recuperar aquilo que as melhores áreas urbanas possuem: mistura.
Moradia, comércio, serviços, cultura, restaurantes, escolas, hotéis, escritórios e espaços públicos funcionando em horários diferentes. Quando uma região depende de uma única atividade, torna-se frágil. Áreas exclusivamente comerciais morrem à noite. Áreas exclusivamente residenciais perdem movimento durante o dia.
O uso misto produz continuidade.
É isso que deve orientar a operação urbana. Não apenas a construção de novos edifícios, mas a criação de uma região que funcione durante 18 ou 24 horas por dia.
O teste será feito depois da inauguração
A requalificação do Centro não será julgada pelo número de obras anunciadas nem pela beleza das imagens produzidas em computador. Será julgada quando as reformas estiverem concluídas e a novidade tiver passado.
O Centro será melhor se tiver mais moradores, menos imóveis vazios, comércio mais forte, ruas mais limpas, transporte melhor, ocupação ordenada e menos pessoas dormindo nas calçadas.
Será pior se apenas ganhar novos acabamentos, imóveis mais caros e os mesmos problemas deslocados para ruas menos visíveis.
Belo Horizonte não precisa esconder a degradação atrás de uma nova pintura. Precisa recuperar a capacidade de administrar seu território.
Requalificar é devolver função, atividade e segurança a uma região urbana. Revitalizar é apenas mudar o cenário.
E cidade nenhuma se transforma trocando o cenário enquanto preserva o enredo.
