O Dia dos Pais, celebrado neste domingo (9/8), também chama atenção para o papel dos homens na formação dos filhos. Para especialistas, atitudes cotidianas, diálogo e exemplo dentro de casa podem ajudar meninos a reconhecer comportamentos machistas e construir relações mais respeitosas com meninas e mulheres.
Foi o que fez Cleomar Barros, de 43 anos, morador de Brasília, durante as férias do filho Samuca, de 8 anos. O menino contou que ele e um amigo riram depois de verem um pouco mais do corpo de uma amiguinha.
Cleomar aproveitou a situação para conversar sobre respeito às meninas e lembrou como o filho deveria tratá-las da mesma forma que trata a irmã, de 11 anos. Samuca concordou e abraçou o pai.
Para profissionais ouvidos pela Agência Brasil, a chamada “educação pelo exemplo” é uma das formas de combater a misoginia desde a infância.
O exemplo dos pais começa em casa
O psicanalista Thiago Queiroz, criador da página “Paizinho, vírgula!” e autor do livro Amor de pai, afirma que o comportamento dos adultos tem peso na formação das crianças.
“As maiores e mais eficazes formas de aprendizado de uma criança se dão por meio do modelo que o pai apresenta.”
Segundo Queiroz, o respeito às mulheres deve aparecer naturalmente nos ambientes frequentados pela família. A criança observa essas atitudes e passa a interpretá-las conforme cresce.
Cleomar também defende atenção aos comentários feitos pelos filhos sobre meninas. Na pré-adolescência, segundo ele, o diálogo pode avançar para temas como violência contra as mulheres.
Meninos também precisam falar sobre emoções
A psicóloga Bárbara Lobato, que trabalha com famílias em Brasília, afirma que esse aprendizado precisa fazer parte da rotina.
“É uma construção que tem de ser feita de forma cotidiana.”
Para Bárbara, os próprios homens precisam aprender a identificar e falar sobre suas dores para criar relações mais abertas com os filhos.
A psicóloga destaca que adolescentes podem se sentir incompreendidos ou emocionalmente negligenciados. Nesses casos, o papel dos responsáveis é acolher os sentimentos e abrir espaço para o diálogo.
Escola e família devem agir juntas
A discussão também passa pelo ambiente digital. A professora e orientadora educacional Ana Paula Lilly, de Bauru (SP), afirma que discursos misóginos chegam aos adolescentes por grupos de mensagens e outros espaços digitais.
“É preciso trabalhar com prevenção, com educação digital e midiática. É preciso ensinar nossos jovens a analisar criticamente o que eles estão consumindo.”
Para Ana Paula, família e escola devem atuar em parceria, com mensagens coerentes sobre respeito, igualdade e responsabilidade.
Pais enfrentam novos desafios
O educador Tiago Koch, cofundador do projeto “De Mano pra Mano”, que atua com meninos em escolas, avalia que muitos garotos precisam de espaços para conversar sobre como se relacionar com meninas.
Ele também alerta para conteúdos propagados por grupos masculinistas e pelas redes sociais e defende referências que não associem masculinidade apenas à violência, força, desempenho ou hipersexualização.
Segundo Koch, muitos pais enfrentam dúvidas sobre situações que não fizeram parte da própria infância, especialmente diante do avanço da tecnologia.
Pais também podem mostrar vulnerabilidade
O terapeuta Fábio Manzoli, pai de gêmeos e criador do canal “Masculinidade saudável”, cresceu ouvindo que “homem deve engolir o choro” e palavras pejorativas usadas para se referir às mulheres.
Com o tempo, percebeu esses padrões no próprio comportamento.
“Comecei a perceber que esse ‘engole o choro’ era a raiz da maioria dos meus problemas.”
Depois do nascimento dos filhos, Manzoli passou a defender que os pais também demonstrem emoções.
“Nós pais podemos chorar para eles também. Mostrar que a gente é ser humano. E que eles também estão autorizados a chorar.”
Para Cleomar, romper com ideias machistas tratadas durante anos como naturais é parte dessa mudança.
“Eu cresci, meus amigos cresceram, com ideias muito erradas. Chegou a hora de a gente mudar isso.”
*Com informações de Agência Brasil
