Há histórias que não chegam aos jornais porque envolvem grandes decisões, autoridades, escândalos ou milhões de reais.
Chegam porque alguém resolveu simplesmente não ir embora.
Nessa semana, numa pista de caminhada da Zona Sul de Belo Horizonte, uma pessoa passou mal e caiu. Entre quem estava por perto estava o médico Hermann Alexandre Vivacqua von Tiesenhausen, clínico geral e intensivista com longa atuação na Santa Casa de Belo Horizonte.
O doutor Hermann fez aquilo que se esperaria de qualquer médico diante de uma emergência.
Prestou atendimento.
Avaliou a situação.
Chamou o SAMU.
Até aí poderíamos dizer: cumpriu sua obrigação profissional.
Mas a história começa justamente onde a obrigação poderia terminar.
O SAMU não chegou imediatamente.
E Hermann ficou. Não cinco minutos. Não dez. Não até perceber que alguém havia assumido o problema.
Ficou aproximadamente uma hora ao lado daquele desconhecido, acompanhando seu estado, prestando a assistência necessária e aguardando a chegada da equipe de emergência. Só saiu depois que o atendimento foi efetivamente assumido e o paciente pôde ser encaminhado para um hospital.
Pode parecer pouco.
Não é.
Talvez estejamos vivendo uma época em que uma das coisas mais raras seja justamente aquilo que não pode ser comprado, baixado por aplicativo ou acelerado pela tecnologia:
O tempo dedicado ao outro
Vivemos com pressa para trabalhar, para voltar para casa, para responder mensagens. Pressa até quando caminhamos para tentar fugir da pressa.
O celular vibra, o relógio cobra, os compromissos se acumulam e, sem perceber, começamos a organizar também nossas relações humanas segundo uma lógica de produtividade.
“Já fiz o que podia.”
“Já chamei alguém.”
“Agora preciso ir.”
São frases perfeitamente compreensíveis.
Mas existe uma distância enorme entre fazer o que era necessário e permanecer porque alguém ainda precisava de nós.
Foi essa distância que Hermann percorreu naquela manhã.
E talvez por isso sua atitude mereça ser contada.
Não para transformar um médico em herói por fazer medicina.
Muito menos para sugerir que todos tenham obrigação de agir exatamente da mesma maneira.
Mas para lembrar que a medicina, antes de equipamentos, protocolos, prontuários e tecnologias, nasceu de um gesto elementar:
uma pessoa cuidando de outra pessoa. A palavra paciente, curiosamente, carrega dentro dela a ideia de esperar.
Naquele episódio, porém, houve também paciência do lado de quem cuidava. Uma hora pode ser pouca coisa no relógio.
Mas experimente permanecer sessenta minutos ao lado de alguém que você não conhece, sem saber quanto tempo aquilo ainda durará, enquanto sua própria vida continua chamando.
É bastante tempo.
Principalmente num mundo acostumado a passar adiante.
Talvez a imagem mais importante dessa história não seja a do médico atendendo uma emergência.
É a do médico esperando.
Porque esperar junto também é cuidar.
Há uma solidão particular em passar mal numa rua.
De repente, desaparecem todas as certezas que carregamos quando saímos de casa. O corpo falha, o chão aparece, desconhecidos se aproximam e você passa a depender inteiramente da boa vontade de pessoas que nunca viu.
Nessas horas, a presença de alguém ao lado tem um valor que nenhum exame mede.
Às vezes o cuidado está numa medicação, num procedimento, numa frase: “Eu vou ficar aqui.”
A sociedade moderna conseguiu feitos extraordinários.
Colocamos computadores no bolso, inteligência artificial nas máquinas, cirurgias robóticas nos hospitais e comunicação instantânea entre continentes.
Mas existe uma tecnologia que continua absolutamente artesanal: a humanidade.
Ela exige presença, atenção, e , sobretudo, exige tempo.
Talvez por isso histórias como a do doutor Hermann nos toquem tanto.
Porque reconhecemos nelas algo que gostaríamos de encontrar caso fôssemos nós caídos naquela pista.
Ninguém gostaria apenas que chamassem uma ambulância.
Gostaríamos que alguém permanecesse.
Que perguntasse como estamos. Que observasse nossa respiração. Que dissesse que o socorro está chegando. Que não nos deixasse sozinhos.
E aqui está talvez a parte mais bonita dessa história.
Hermann não sabia quem era aquela pessoa. Não havia amizade.
Não havia parentesco. Não havia gratidão futura garantida. Havia somente alguém precisando de alguém. Isso bastou.
Num tempo em que discutimos tanto aquilo que nos separa, política, religião, dinheiro, opiniões, ideologias, redes sociais, talvez seja saudável lembrar que ainda existe uma condição muito mais antiga que todas essas divisões.
Somos humanos.
E, vez ou outra, algum de nós cai.
Quando isso acontece, talvez a grande pergunta não seja apenas quem sabe socorrer. É quem está disposto a ficar.
O doutor Hermann ficou durante uma hora.
Pode parecer apenas uma hora na vida de um médico.
Para quem estava caído naquela pista, provavelmente foi muito mais do que isso.
Foi o tempo em que um desconhecido decidiu que, naquele momento, a vida do outro era também um pouco responsabilidade sua.
E talvez, humanidade seja exatamente isso.
