Apesar dos desafios, o Brasil tem condições de avançar na industrialização das terras raras e deixar de concentrar sua atuação na exportação de matéria-prima. A avaliação é de André Pimenta, coordenador do Centro de Inovação e Tecnologia para Terras Raras (CIT Senai ITR), em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Durante entrevista à 98 News na Exposibram 2026, Pimenta destacou que o país pode desenvolver uma cadeia produtiva capaz de transformar os minerais em produtos de maior valor agregado. Segundo ele, apesar de o desafio ser grande, o cenário brasileiro permite uma perspectiva positiva.
“Esse é um desafio extremamente grande para o Brasil, pensando em industrialização. Mas a meta é essa. E se a gente olhar para o cenário brasileiro, a resposta bem categórica é sim. É possível”, afirmou.
Um dos principais obstáculos está no domínio da cadeia de processamento. Atualmente, a China concentra grande parte das etapas necessárias para transformar terras raras em produtos utilizados pela indústria, incluindo a fabricação de ímãs permanentes.
Para Pimenta, o Brasil precisa desenvolver não apenas a extração dos minerais, mas também tecnologias e processos industriais que permitam agregar valor à produção dentro do próprio país.
Industrialização pode levar até duas décadas
A construção de uma cadeia industrial competitiva, no entanto, não deve ocorrer rapidamente. De acordo com o coordenador do CIT Senai ITR, o processo pode levar entre 15 e 20 anos.
“Pensando em industrialização, a gente está falando aí de talvez uma década e meia a duas décadas”, explicou.
Já no campo do desenvolvimento tecnológico, o prazo pode ser menor. Pimenta estima que, em aproximadamente dez anos, o Brasil possa ter uma produção local capaz de demonstrar a viabilidade da fabricação de produtos a partir das terras raras.
A diferença está na complexidade de transformar uma tecnologia desenvolvida em laboratório ou em escala experimental em uma cadeia industrial capaz de produzir em grande volume e competir no mercado internacional.
Cadeia precisa ir além da mineração
Outro ponto considerado fundamental é a criação de um ambiente industrial que envolva diferentes empresas. A produção de bens de maior valor agregado depende de uma cadeia que começa no processamento dos minerais e passa pelo desenvolvimento de tecnologias e pela fabricação dos produtos finais.
“Esse arranjo passa por todas as empresas que estão no início da cadeia, por todas as empresas que irão desenvolver todos os processos e são muitos processos”, afirmou Pimenta.
Ele também chama atenção para a necessidade de criar demanda para esses produtos dentro do Brasil. Na avaliação do especialista, convencer empresas a investir na produção nacional depende da existência de um mercado consumidor.
“Se a gente instala a indústria, eu tenho que garantir para aquele investidor que ele vai ter um consumo local aqui dentro do Brasil”, disse.
Assim, o avanço das terras raras no país não depende somente da existência de reservas minerais. O desafio envolve criar tecnologia, atrair investimentos e estruturar uma cadeia industrial completa, capaz de transformar a matéria-prima brasileira em produtos de maior valor agregado.
