A política tem regras que não aparecem na Constituição nem nos estatutos partidários. Uma delas costuma funcionar muito bem: aliado útil é aliado enquanto for útil.
O Republicanos mineiro acaba de oferecer uma demonstração.
Gleidson Azevedo, irmão gêmeo de Cleitinho e candidato a deputado federal, comemorou abertamente o indeferimento da candidatura de Eduardo Cunha pelo TRE-MG. Disse “graças a Deus, foi impedido” e afirmou que quem votar no ex-presidente da Câmara estará jogando o voto fora.
Cunha teve o registro indeferido por unanimidade, mas anunciou recurso ao Tribunal Superior Eleitoral. Portanto, sua situação jurídica ainda não está definitivamente encerrada.
O interesse político da história, porém, está algumas semanas atrás.
Reportagens de bastidores publicadas em agosto atribuíram justamente a Eduardo Cunha participação relevante na articulação que levou a direção nacional do Republicanos a rever resistências à candidatura de Cleitinho ao Governo de Minas.
É importante separar as coisas: trata-se de bastidor publicado, não de uma decisão formal do partido reconhecendo Cunha como responsável pela candidatura.
Mas, se essa articulação ocorreu como relatado, a ironia está pronta.
Cunha teria ajudado Cleitinho a entrar na eleição. Agora o irmão de Cleitinho agradece a Deus porque Cunha pode ficar fora dela.
Gratidão, aparentemente, não é cláusula pétrea no Republicanos.
O outsider e a engrenagem
O episódio toca diretamente numa das principais forças políticas de Cleitinho: sua imagem de candidato independente das velhas estruturas.
Ele critica caciques, reclama dos fundos eleitorais, questiona partidos e vende ao eleitor a ideia de alguém que não pertence à política tradicional.
Essa narrativa funciona. Só que a candidatura ao Governo de Minas não nasce apenas de voto, rede social e popularidade.
Precisa de legenda, convenção, direção nacional, negociação e articulação em Brasília.
E foi nesse ponto que Eduardo Cunha teria aparecido.
Os relatos de bastidores indicaram ainda uma relação de conveniência eleitoral perfeitamente compreensível. Gleidson era visto como possível grande puxador de votos para deputado federal pelo Republicanos. Uma votação expressiva ajudaria a ampliar a bancada e poderia beneficiar outros candidatos da legenda, inclusive Cunha.
De um lado, articulação para fortalecer a candidatura majoritária. Do outro, votos para fortalecer a chapa proporcional.
Nada extraordinário. É política partidária.
O extraordinário é tentar vender depois a ideia de que essa engrenagem nunca existiu.
A pergunta é para Cleitinho
Gleidson não é um militante qualquer dando opinião.
É irmão gêmeo de Cleitinho, candidato pelo mesmo partido e integrante central do grupo político da família.
Por isso, quando comemora o impedimento eleitoral de Eduardo Cunha, cria uma pergunta inevitável: Cleitinho concorda com o irmão?
Se concorda, precisa explicar como enxerga hoje o papel atribuído a Cunha na articulação de sua candidatura.
Se considera falsa essa versão dos bastidores, pode simplesmente negá-la.
O que não funciona tão bem é manter simultaneamente as duas imagens: Cunha suficientemente influente para ajudar nos bastidores, mas absolutamente estranho ao projeto quando chega a hora de prestar contas políticas dessa relação.
Não existe crime nisso. Nem irregularidade automática. Existe uma contradição entre narrativa e funcionamento real da política.
Pouco dinheiro, muito voto
A mesma entrevista de Gleidson produziu outro retrato interessante.
Ele admitiu que a falta de recursos virou uma dificuldade da campanha. Segundo o irmão de Cleitinho, enquanto os adversários movimentam milhões, eles enfrentam limitações inclusive para impulsionar conteúdo nas redes.
É outro paradoxo da eleição mineira. Cleitinho tem pouco dinheiro e muito voto.
Flávio Roscoe montou uma campanha muito mais capitalizada, mas ainda procura transformar a estrutura financeira em intenção de voto.
Mateus Simões dispõe de máquina política, ampla aliança e grande exposição, mas também continua tentando converter estrutura em crescimento eleitoral.
Cleitinho fez o caminho inverso. Conquistou primeiro o eleitor e agora descobre que popularidade não paga equipe, deslocamento, propaganda e impulsionamento.
É uma dificuldade real, embora seja provavelmente a dificuldade que seus adversários gostariam de trocar pela deles.
A porta que Brasília abriu
No fundo, o episódio Eduardo Cunha interessa menos por Cunha do que pelo que revela sobre Cleitinho.
O candidato pode continuar criticando a política tradicional. Pode recusar fundos públicos. Pode preservar seu discurso de independência.
Mas nenhuma candidatura majoritária existe completamente fora do sistema partidário.
Até outsiders precisam de atas. Até candidatos antissistema precisam de partido.
E, quando surgem dificuldades dentro desses partidos, normalmente aparece alguém com trânsito suficiente para abrir portas.
Segundo os bastidores publicados, Cunha ajudou a abrir uma delas.
Agora seu próprio correligionário, irmão do beneficiário daquela articulação, comemora a possibilidade de vê-lo impedido de disputar a eleição.
Cleitinho não deve nada eleitoralmente a Eduardo Cunha. Tampouco tem obrigação de defendê-lo.
Mas deve uma resposta política ao eleitor: Cunha teve ou não teve importância para viabilizar sua candidatura?
Porque, se teve, a história ficará registrada com uma ironia difícil de melhorar:
Eduardo Cunha teria ajudado Cleitinho a entrar pela porta da eleição. Depois que a família entrou, agradeceu a Deus porque Cunha ficou do lado de fora.
A política brasileira conhece muitas portas giratórias.
Só que esta porta girou rápido demais.
