Daniel Vorcaro ameaça abrir a boca. A pergunta é se a República terá coragem de abrir os ouvidos.
Na noite desta sexta-feira, o advogado Sérgio Leonardo, defensor do ex-banqueiro, afirmou em entrevista que seu cliente pode ajudar a esclarecer “todos os fatos”, inclusive aqueles relacionados ao ministro Alexandre de Moraes. Acrescentou que, se houver um procedimento de colaboração premiada, a participação de Vorcaro será “completa e efetiva”.
Convém puxar o freio jurídico antes que a indignação atropele os fatos. Não existe, até agora, novo acordo de colaboração aceito pela Polícia Federal ou pela Procuradoria-Geral da República. Não há delação homologada, depoimento formal ou prova nova apresentada pela defesa. Há uma disposição anunciada, e, em casos dessa dimensão, até a disposição de falar já produz barulho.
A declaração não confirma as suspeitas contra Alexandre de Moraes. Mas muda a temperatura do caso.
Até agora, tínhamos mensagens extraídas do celular de Vorcaro, registros de encontros, comunicações de visualização única cujas respostas não puderam ser recuperadas e documentos relacionados ao contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Agora, o dono do aparelho, por intermédio de seu advogado, apresenta-se publicamente como alguém capaz de explicar o conteúdo daquela rede de contatos.
Vorcaro quer falar. A República precisa decidir se deseja ouvir
Uma colaboração premiada não é um passe livre para a verdade. O colaborador precisa apresentar fatos verificáveis, provas, documentos e informações que possam ser confirmadas por outras fontes. Palavra de acusado não é sentença. Mas também não pode ser convenientemente tratada como ruído quando o que está em discussão é a possível atuação de autoridades responsáveis justamente por investigar, acusar e julgar.
Se houver uma proposta formal, ela terá de ser avaliada tecnicamente. Se Vorcaro estiver apenas tentando melhorar sua situação processual, isso aparecerá. Se estiver mentindo, deverá responder por isso. Mas, se apresentar elementos capazes de esclarecer os contatos mantidos com integrantes da cúpula da República, nenhuma autoridade pode escolher previamente o que deseja conhecer.
A “inocência” de Gonet
Eis que, no mesmo dia, surge Paulo Gonet, sentado ao lado de Vorcaro, com copos de uísque sobre a mesa e charutos acesos durante uma degustação no George Club, em Londres.
A fotografia, encontrada nas conversas extraídas pela Polícia Federal, foi feita em abril de 2024. Segundo apuração da Polícia Federal, o encontro teria sido custeado por Vorcaro. A PGR confirmou a presença de Gonet, mas afirma que havia outras autoridades no evento e sustenta que o contato foi único, brevíssimo e banal. A imagem, isoladamente, não comprova crime, favorecimento ou interferência em investigação.
Mas convenhamos: chamar de “brevíssimo e banal” um encontro com uísque e charutos em um clube londrino exige uma elasticidade semântica digna de um contorcionista.
Não é exatamente uma trombada na fila do café.
O problema da fotografia não está no charuto. Fumar pode fazer mal à saúde, mas não configura delito. O problema também não está no Macallan. Beber um bom uísque na companhia de um banqueiro não transforma automaticamente o procurador-geral da República em cúmplice de ninguém.
O problema é o contexto.
Paulo Gonet é o procurador-geral que pediu a anulação do relatório da Polícia Federal responsável por revelar as mensagens envolvendo Vorcaro e Moraes. É também quem sustenta não haver, até este momento, elementos suficientes para investigar o ministro. E o Conselho Superior do Ministério Público Federal já abriu procedimento para analisar as menções ao próprio Gonet encontradas no material apreendido.
Além da fotografia, as conversas apontam o advogado Ciro Soares como intermediário entre Vorcaro e o procurador-geral. Há mensagens atribuídas a Gonet, referências ao desejo de falar com o banqueiro e até uma consulta sobre a possível participação de um filho do procurador em outra viagem a Londres. A PGR afirma que esse segundo evento não aconteceu.
Nada disso prova interferência ilícita. Mas tudo isso torna insustentável a tentativa de reduzir a relação a um encontro irrelevante.
Pode ter sido lícito. Pode ter sido social. Pode não ter envolvido qualquer assunto profissional. O que já não parece razoável é descrevê-lo como se Gonet e Vorcaro tivessem apenas dividido um elevador por trinta segundos.
A foto não condena Gonet. Mas contradiz a impressão produzida por uma descrição excessivamente minimalista do encontro. E autoridades públicas não têm apenas o dever de agir dentro da lei. Quando estão diante de casos nos quais aparecem pessoalmente citadas, precisam oferecer explicações completas, transparentes e convincentes.
A incrível teia do Banco Master
A cada nova revelação, fica mais difícil compreender o Banco Master apenas como um banco investigado. O que emerge é uma extraordinária rede de acesso aos círculos superiores do poder: ministros, procuradores, advogados, familiares, empresários e intermediários.
Dos dez ministros do Supremo apenas os nomes de Edson Fachin, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin ainda não aparecem, até aqui, envolvidos por relações ou episódios públicos relevantes ligados a Vorcaro. Isso não permite transformar menção, encontro ou relacionamento em culpa. Ser citado não é ser criminoso. Conhecer alguém não é participar de seus negócios. E frequentar o mesmo ambiente não constitui prova de favorecimento.
Mas a quantidade de portas abertas a Vorcaro já é um fato político e institucional assustador.
A República brasileira talvez precise começar a se compreender como República Vorcariana, um país no qual Daniel Vorcaro parecia circular não pelas ante salas do poder, mas pelas salas principais, sempre a poucos contatos de distância de quem investigava, acusava, julgava ou poderia influenciar decisões fundamentais.
Por isso, a eventual colaboração não pode servir como instrumento de vingança, barganha clandestina ou seleção dirigida de alvos. Precisa ser formal, controlada, documentada e confrontada com as provas digitais já recolhidas.
Vorcaro diz que pode ajudar em todos os fatos. Pois que fale, dentro da lei, diante das autoridades competentes e apresentando provas.
E que ninguém o silencie apenas porque a verdade pode deixar cheiro de charuto nos corredores da República.
