A decisão contra Flávio Bolsonaro expõe o desgaste de Moraes e recoloca uma questão essencial: quem exerce tanto poder precisa explicar como o utiliza.
Alexandre de Moraes conseguiu causar desconforto até entre pessoas que costumam defendê-lo. Quando críticas partem de integrantes do próprio Supremo e de interlocutores do governo Lula, o ministro deveria escutar. A Autoridade não perde grandeza quando admite um erro. Perde quando transforma toda cobrança em ataque à democracia.
Parlamentares governistas consideraram desnecessária a escalada de tensão provocada pela determinação de apreender os passaportes de Flávio Bolsonaro. Existem avaliações de ministros do STF de que a medida foi precipitada e favorece politicamente o senador derrotado.
A atuação da PF
Há uma informação indispensável: a Polícia Federal afirma que pediu as medidas cautelares por identificar risco de saída do país. Portanto, não cabe apresentar a decisão como uma iniciativa sem provocação ou sem justificativa declarada. O ponto crítico é outro: a fundamentação, a proporcionalidade e a execução da medida resistem ao escrutínio público? A existência de um pedido policial não dispensa o juiz de responder por sua decisão.
Moraes ofereceu combustível ao discurso que pretendia enfrentar. Ao agir imediatamente depois da eleição, permitiu que uma investigação criminal fosse apresentada pelos aliados de Flávio como continuação da disputa presidencial por outros meios. Isso não comprova perseguição. Expõe um problema de credibilidade que o tribunal deveria levar a sério.
Não porque a Justiça deva calcular a popularidade de investigados, mas porque decisões desse alcance exigem fundamentação especialmente clara. Ter milhões de votos não concede imunidade. Vestir uma toga tampouco concede infalibilidade. Moraes, ao que tudo indica, mordeu a isca.
A ação do governo americano
Fica cada vez mais evidente a participação do Secretário de Estado dos USA, Marco Rubio, na saída de Flávio. Eduardo Bolsonaro já havia defendido que o irmão deixasse o Brasil em caso de derrota. Esses elementos permitem discutir uma estratégia previamente cogitada e trazem a nítida impressão de que Moraes participou, involuntariamente, de um roteiro inteiramente comprovado.
O resultado político, contudo, é visível: o debate passou a incluir a alegação de perseguição, a participação americana e o comportamento do magistrado. O ministro deveria ajudar a esclarecer os fatos. Tornar-se personagem central da controvérsia prejudica essa tarefa.
Moraes mordeu a isca
Alexandre de Moraes age com revanchismo. Um juiz decide pelos autos; quando sua conduta parece movida pelo fígado, a confiança na Justiça adoece. A força de uma decisão está na qualidade de suas razões, não no volume do poder de quem assina.
O desconforto entre colegas amplia o desgaste de Moraes. Não significa que o Supremo tenha formado uma maioria contra ele. Significa que a solidariedade institucional encontra limites quando a atuação individual aumenta o custo para toda a Corte.
A negociação por Alcolumbre
Nesse cenário, a presidência do Senado ganha importância decisiva. Setores do STF veem favoravelmente a recondução de Davi Alcolumbre, próximo de Moraes, pela perspectiva de conter o avanço de pedidos de impeachment. A informação merece atenção; não equivale, por si, à prova de um acordo de proteção.
O Senado deve examinar denúncias por seus fundamentos. Nem vingança parlamentar, nem blindagem de gabinete. Impeachment exige fatos e enquadramento em crime de responsabilidade. Mas deixar pedidos indefinidamente na gaveta também é uma escolha política, pela qual o presidente da Casa deve responder.
E permanece o caso Master. As suspeitas divulgadas sobre as relações de Moraes com Daniel Vorcaro exigem esclarecimentos verificáveis. O ministro nega irregularidades e contesta as apurações. Sua defesa deve ser considerada; a cobrança de transparência deve continuar. Negativa não encerra investigação, assim como suspeita não equivale a condenação.
A democracia precisa de investigação séria, decisões fundamentadas e controle sobre quem exerce o poder. O país já tem políticos suficientes disputando o papel de vítima. Do Supremo, espera-se Justiça.
A toga dá autoridade para decidir. Não dá licença para deixar de explicar.
