O Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG) marcou para terça-feira (3/11) o julgamento, em primeira instância, da ação que pede a cassação do vereador Wagner Ferreira (Rede), de Belo Horizonte, por suposta infidelidade partidária. A iniciativa do PT da capital enfrenta divergências dentro da própria Federação Brasil da Esperança. Fontes ouvidas reservadamente pela Rádio 98 confirmaram que o Partido Verde (PV), antiga legenda do parlamentar, autorizou sua saída e não apoia a tentativa de cassação.
Wagner foi reeleito em 2024 pelo PV, integrante da federação formada com PT e PCdoB. Em março deste ano, deixou a legenda e se filiou à Rede Sustentabilidade, fora da janela partidária destinada aos vereadores.
A ação foi apresentada pela primeira suplente da federação, Luana de Souza (PT), pelo diretório municipal do PT de Belo Horizonte e pela Federação Brasil da Esperança. Os autores sustentam que a mudança de partido ocorreu sem justa causa, apesar da carta de anuência concedida pelo PV.
PV confirma liberação e não vê fundamento para cassação
Interlocutores do PV ouvidos pela Rádio 98 confirmaram que Wagner Ferreira recebeu autorização da legenda para se filiar à Rede Sustentabilidade.
Segundo essas fontes, a decisão de recorrer à Justiça Eleitoral partiu do PT-BH, sem o apoio político do PV.
Nos bastidores, integrantes da legenda avaliam que a existência da carta de anuência enfraquece o pedido de cassação. A interpretação, entretanto, diverge da apresentada pelos autores da ação, que questionam a validade de uma autorização concedida apenas por um dos partidos da federação.
As fontes também negaram que o PV tenha exigido contrapartidas políticas de Wagner Ferreira para permitir sua saída, como apoio a candidaturas ou compromissos eleitorais.
A posição da legenda revela um desacordo entre os partidos que integraram a chapa responsável pela eleição do vereador em 2024.
Ação também provoca divergência dentro do PT
A iniciativa de questionar o mandato de Wagner Ferreira não é consensual entre os petistas. Conforme apuração da Rádio 98, há uma divergência entre o diretório municipal do PT de Belo Horizonte e a direção estadual da legenda em Minas Gerais.
A ação foi articulada pelo PT da capital, presidido por Guima Jardim, e pela suplente Luana de Souza. Já no âmbito estadual, interlocutores relatam resistência à tentativa de cassação.
O desacordo ocorre apesar da proximidade histórica entre PT e Rede Sustentabilidade, partidos que compartilham parte de suas bases políticas e já estiveram juntos em diferentes articulações eleitorais.
Em Minas Gerais, entretanto, as legendas também apresentaram divergências recentes, como o apoio da Rede a Alexandre Kalil na disputa pelo governo estadual.
Essas diferenças políticas não constituem o fundamento jurídico do processo, que se concentra nas regras de fidelidade partidária e na validade da autorização para a desfiliação.
Processo questiona autorização concedida apenas pelo PV
A Rádio 98 teve acesso a informações do processo movido contra Wagner Ferreira. Na ação, os autores afirmam que o vereador deixou o PV e ingressou na Rede em 23 de março de 2026, sem apresentar uma hipótese legal de justa causa para a mudança.
O principal argumento é que Wagner foi eleito pela Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. Por isso, os autores sustentam que a autorização concedida exclusivamente pelo Partido Verde não seria suficiente para preservar o mandato.
O processo também aponta que a eleição do vereador dependeu da soma dos votos recebidos pelas três legendas e que a mudança partidária contrariou as diretrizes da federação.
Os autores destacam ainda a representatividade de raça e gênero da chapa, citando a condição de Luana de Souza como mulher negra e primeira suplente. Wagner Ferreira também é negro e possui trajetória política ligada ao movimento sindical.
A defesa do vereador, por sua vez, sustenta que a desfiliação ocorreu com autorização do PV. Os advogados também alegam que ele sofreu perseguição na antiga legenda após apoiar Juliano Lopes (Podemos) na eleição para a presidência da Câmara Municipal, em janeiro de 2025. Na ocasião, o PV defendia o apoio a Bruno Miranda (PDT).
Caberá à Justiça Eleitoral decidir se a carta de anuência apresentada pelo vereador atende às exigências legais e se houve infidelidade partidária.
Luana já assumirá vaga de Pedro Rousseff em fevereiro
Outro elemento da disputa envolve a composição da bancada da federação na Câmara Municipal de Belo Horizonte.
Luana de Souza, primeira suplente da chapa, já tem previsão de assumir uma cadeira no Legislativo em 2 de fevereiro de 2027, com a saída de Pedro Rousseff (PT), eleito deputado federal.
Rousseff foi o vereador mais votado da Federação Brasil da Esperança em Belo Horizonte nas eleições de 2024, com 17.595 votos.
Com a posse de Luana na vaga de Rousseff, uma eventual cassação de Wagner Ferreira abriria espaço para o próximo suplente habilitado da federação, e não para a própria petista.
O segundo suplente da chapa é o ex-vereador Célio Frois, do PV.
PV tem interesse na chegada de Célio Frois à Câmara
Apesar de não apoiar a ação contra Wagner Ferreira, o PV acompanha as possibilidades de ampliar sua representação no Legislativo municipal.
Fontes ouvidas pela Rádio 98 apontam que a legenda tem interesse na chegada de Célio Frois à Câmara de Belo Horizonte.
O ex-vereador ocupa a segunda suplência da Federação Brasil da Esperança e foi designado, em julho, pelo prefeito Álvaro Damião (União Brasil) para integrar o Conselho Fiscal da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica.
A eventual mudança na composição das cadeiras dependerá tanto da posse dos suplentes quanto do resultado da ação eleitoral contra Wagner Ferreira.
O julgamento está previsto para terça-feira (3/11), em primeira instância. A decisão ainda poderá ser objeto de recursos.