O Dia de Finados, celebrado nesta segunda-feira (2/11), convida a lembrar quem já partiu e a refletir sobre a morte, a saudade e a forma como cada pessoa lida com as perdas. Para falar sobre o tema, a especialista em saúde mental Tatiana Lassi foi a entrevistada do Buenos Días, que abordou o luto, seus sinais de alerta e como acolher quem está passando por ele.
Um processo natural
Segundo Tatiana, o luto é uma resposta natural à perda de algo ou de alguém muito querido e funciona como uma forma de se readaptar à realidade depois da perda. Por isso, a orientação é que o período seja vivido, sem tentativas de evitá-lo, antecipá-lo ou adiá-lo.
“O luto é um processo que tem que ser vivido, tem que ser processado para que a pessoa possa, de uma forma natural, transformar essa perda em outros sentimentos e dar sequência para a vida dela”, afirmou.
Fases não seguem ordem fixa
A especialista em saúde mental explicou que existe um modelo clássico que ajuda a nomear os sentimentos do luto, dividido em cinco fases:
- negação, marcada pela dificuldade de aceitar o fato;
- raiva, com irritação e sensação de injustiça;
- barganha, quando a pessoa passa a pensar no que poderia ter feito de diferente;
- tristeza, fase em que a realidade da perda se impõe;
- aceitação.
Tatiana ressaltou, no entanto, que nem todos passam por todas as etapas, nem em uma ordem determinada. O modelo serve, segundo ela, para ajudar a identificar o que se está sentindo.
Luto vai além da morte
A especialista lembrou que o luto não se restringe à morte de pessoas. Ele pode surgir com o fim de um relacionamento, a perda de um emprego ou qualquer situação de perda significativa.
Quando o luto se prolonga
Tatiana explicou que há critérios diagnósticos para identificar quando o luto deixa de ser considerado saudável e passa a ser classificado como prolongado, antes chamado de complicado. Entre os sinais estão:
- desejo intenso de ter a pessoa de volta todos os dias;
- sensação de solidão, mesmo cercada de pessoas;
- dificuldade de retomar projetos, a vida e as relações;
- entorpecimento emocional;
- sensação de que a vida perdeu o sentido ou de que parte de si morreu junto com a pessoa.
De acordo com a especialista, pela classificação da CID-10, o diagnóstico considera três ou quatro dessas características por pelo menos seis meses. Já o manual DSM-5 adota um período mais longo para adultos, de pelo menos um ano, e de seis meses para crianças.
Nesses casos, segundo Tatiana, é preciso iniciar intervenções que incluem psicoterapia e acolhimento. Em situações extremas, em que a pessoa apresenta disfuncionalidade ou pensamentos de autoextermínio, o trabalho passa a ser feito em conjunto com tratamento medicamentoso.
A morte como tabu
Ao comentar a dificuldade de muitas pessoas em lidar com o assunto, Tatiana afirmou que a relação com a morte é influenciada pela cultura. Enquanto algumas sociedades a celebram, os brasileiros tendem a se fechar e a evitar o tema.
Para ela, falar mais sobre a finitude e trabalhar a espiritualidade ajudam a aceitar o luto de forma mais leve. “Cada pessoa tem seu jeito, sua cultura para lidar com o luto, e a gente tem que respeitar”, disse.
Luto antecipatório
Questionada sobre o caso de um paciente terminal que organizou o próprio velório em vida, que ganhou repercussão nacional, a especialista em saúde mental explicou que ele viveu o chamado luto antecipatório. Para ela, esse processo pode ser saudável, pois permite que o tema seja falado e processado, o que tende a amenizar a perda para o paciente e para os familiares.
Dor adiada pode aparecer depois
A especialista também alertou para casos em que a pessoa parece lidar bem com a perda no início, mas apresenta um quadro de depressão meses ou anos depois. Segundo Tatiana, quem evita falar sobre o assunto ou se afasta das lembranças pode ter o sofrimento manifestado mais tarde, como transtorno depressivo maior, transtorno de ansiedade ou transtorno de estresse pós-traumático.
Por isso, a rede de apoio é fundamental. “Hoje a tristeza é muito criminalizada. A pessoa não pode chorar, não pode ficar triste, não pode lamentar”, observou. Para a especialista, o sofrimento não vivido pode se manifestar até no corpo, já que saúde mental e física estão interligadas.
Assista abaixo a entrevista na íntegra:
