O Visão Macro de hoje retoma a discussão sobre política fiscal, principalmente à luz dos últimos dados divulgados pelo governo e do envio do orçamento para 2026, que traz preocupações relevantes.
É importante lembrar que a trajetória da dívida em relação ao PIB precisa ser controlada. Com o aumento da política fiscal e das políticas parafiscais anunciadas recentemente, a preocupação é justamente a pressão sobre o custo de capital.
Hoje, o déficit primário importa menos do que a tonalidade do déficit nominal. O último dado revela que temos aproximadamente 8% do PIB sendo pagos em déficit nominal, ou seja, só os juros da dívida beiram R$ 1 trilhão. Para cada 1% de queda nesses juros, a economia seria de algo próximo a R$ 100 bilhões por ano.
Mas, para que o custo de capital de fato caia — e a curva de juros ceda nos prêmios de risco, principalmente nos vértices longos — é necessário endereçar a questão fiscal com responsabilidade, critério e visão de longo prazo, não apenas “tapar buracos” no curto prazo, como o atual governo tem feito de maneira recorrente.
O último dado apontou um déficit primário de R$ 64 bilhões segundo o Banco Central, número maior que o divulgado pelo Tesouro Nacional (R$ 59 bilhões). Voltamos a um período preocupante, em que os dados passam a divergir entre instituições oficiais. Nesse caso, a referência mais confiável é a do Banco Central.
Para o próximo ano, mesmo superestimando receitas em cerca de R$ 120 bilhões, o governo não conseguirá entregar a meta de 0,25% de superávit primário, nem mesmo se aproximar do limite inferior da meta, que é de 0%. É provável que essa meta seja revista ainda em 2025, antes mesmo da virada do ano.
Esse ponto é crucial porque o governo conta com receitas dependentes de aprovação no Congresso, como a MP 1303, cujo resultado é incerto. Mais do que isso: mesmo arrecadando R$ 120 bilhões adicionais, ainda haveria uma lacuna de aproximadamente R$ 40 bilhões para alcançar a meta. É uma tarefa difícil, não apenas pela baixa qualidade do gasto, mas também porque entraremos em ano eleitoral — e sabemos como isso costuma influenciar a postura do incumbente.
Infelizmente, sem resolver a questão fiscal, as políticas sociais que de fato importam não vão cumprir seu objetivo principal. Afinal, política social não se mede por quem entra no programa, mas por quem consegue sair dele.
