Os vendedores ambulantes de Belo Horizonte contam os minutos para a abertura do credenciamento que permite a atuação no Carnaval de 2026. A primeira fase do processo, online, começa nesta segunda-feira (12/1), a partir das 9h. Para a categoria, o início do cadastro simboliza a proximidade do período mais importante do ano.
Segundo o presidente da Associação dos Trabalhadores Ambulantes de BH, Adjailson Severo, o Carnaval é “esse grande momento” aguardado por quem trabalha nas ruas. A expectativa, segundo ele, está diretamente ligada à geração de renda. “Nós estamos falando do maior evento cultural da nossa cidade”, afirma Adjailson.
O representante destaca que a festa movimenta não apenas os ambulantes, mas todo o setor de comércio e serviços da capital. Entretanto, para os trabalhadores informais, o impacto financeiro é ainda mais decisivo. “É desse evento que eles buscam o décimo terceiro”, diz.
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Credenciamento começa nesta segunda
O início do credenciamento a menos de um mês do período oficial de folia gerou questionamentos, enquanto o formato adotado pela prefeitura rendeu elogios. Adjailson reconhece a proximidade da data, mas afirma que os ambulantes já estavam preparados. Segundo ele, o cronograma “já vinha sendo divulgado” e não pegou a categoria de surpresa.
Além disso, ele defende o sistema de solicitações via internet, implantado pela PBH no ano passado e mantido em 2026. “Porque evita filas e confusões como foi em 2024. Ambulantes no sol, dormindo na rua, sem nenhum apoio, sem banheiro químico ou água… foi uma luta”, relembra.
O representante também explica que os dois primeiros dias de cadastro serão reservados, prioritariamente, aos caixeiros já credenciados pelo município. “São os verdadeiros trabalhadores ambulantes, que estão nas ruas o ano inteiro, debaixo de sol e chuva”, defende.
Atualmente, cerca de 1.300 ambulantes estão oficialmente cadastrados como caixeiros pela PBH. Para 2026, a Belotur, empresa pública responsável pela organização do Carnaval, trabalha com o teto de 14 mil vendedores registrados. A primeira etapa do processo de credenciamento segue aberta até 19 de janeiro.
Falta de patrocínios pode beneficiar ambulantes
Desde setembro do ano passado, a Belotur luta pela captação de patrocínios para o Carnaval de 2026. De dois editais publicados, apenas a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH) firmou contrato com a prefeitura, no valor de R$ 500 mil, equivalente a pouco mais de 2% da arrecadação esperada.
O cenário não preocupa Adjailson. Aliás, o representante vê com entusiasmo a ausência de uma fabricante de bebidas entre os patrocinadores. Para ele, isso traz mais liberdade aos vendedores. “Não nos prejudica em nada [a falta de patrocinadores], pelo contrário”, diz. “A gente viu aquela guerra que foi no Carnaval passado, com o monopólio da Ambev”, complementa.
Em 2025, a Ambev foi a patrocinadora oficial do Carnaval de BH, com um aporte de R$ 5,9 milhões pelos direitos de marca e ativações de publicidade. A holding é detentora de rótulos de cerveja como Skol, Budweiser, Original e Stella Artois. Concorrentes, como a Heineken, tiveram a venda proibida em pontos centrais dos blocos, de acordo com as regras do edital daquele ano.
Segundo Adjailson, a liberdade de vendas em 2026 abre espaço para marcas locais, especialmente de drinks, que têm grande aceitação entre os foliões. Do já consagrado Xeque Mate às novas apostas, como o Chablauzin, a cena belo-horizontina dos ready to drink cresce, valoriza produções mineiras e beneficia diretamente os trabalhadores.
Diálogo com a Belotur
O presidente da associação também aposta na boa relação dos ambulantes com a Belotur para a realização de um Carnaval mais produtivo para o setor. “A gente espera que esse diálogo permaneça da forma que vinha sendo nas outras gestões”, diz Adjailson.
A fala revela uma mudança: em dezembro, a menos de dois meses para a festa de rua, Bárbara Menucci deixou a presidência da empresa pública. Eduardo Cruvinel, servidor de carreira que atua há 20 anos no órgão, assumiu o cargo. Na época, a PBH defendeu que a renovação se tratava de uma “mudança pontual”, como ocorreu em “algumas áreas da administração”.
Segundo Adjailson, a expectativa com a chegada de Cruvinel segue positiva, mas o primeiro encontro com o novo presidente ainda não ocorreu. “Nós temos uma agenda marcada com ele na próxima quarta-feira para alinhar algumas questões que a gente acha que precisam ser resolvidas antes [da festa começar]”, antecipa.
Em nota enviada à reportagem na semana passada, a Belotur afirmou que “o diálogo com os representantes do Carnaval é permanente e seguirá sendo conduzido de forma aberta, transparente e respeitosa, com o objetivo de fortalecer a festa e garantir uma construção coletiva, à altura da relevância cultural e social do Carnaval de Belo Horizonte”.
O período oficial de Carnaval em Belo Horizonte começa em 31 de janeiro e vai até 22 de fevereiro.
