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Carnaval é construído o ano inteiro, mas verba só chega ‘na última hora’, apontam blocos de BH

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Atores do Carnaval denunciam repasses tardios para organização da festa (Paulo Santos / Rede 98)

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Antes de sair pelas avenidas de Belo Horizonte, o Carnaval expõe um problema de planejamento recorrente da gestão municipal: a demora no repasse de recursos públicos aos agentes que fazem a festa acontecer. Ligas de blocos de rua, blocos caricatos e coletivos da cidade afirmam que a verba, quando chega, aparece às vésperas da folia, dificultando a organização, a contratação de serviços e a preparação artística adequada.

A crítica é compartilhada por Eulália Amada, presidente da Liga de Blocos de Santa Tereza e Regional Leste (SiLiga) e coordenadora do bloco Volta Belchior. Segundo ela, a liberação tardia dos recursos se repete ano após ano e compromete diretamente a organização dos compromissos. “O dinheiro até chega, mas só na hora do amém”, ri. A menos de um mês para a folia, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) publicou, nessa quarta-feira (7/1), a lista de blocos de rua que receberão o auxílio financeiro do município.

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Para os caricatos, que desfilam em competição na avenida Afonso Pena, o impacto é ainda maior. Presidente da Liga Independente de Blocos Caricatos e Carnavalescos de Minas Gerais, Juólison Mangabeira afirma que a demora no repasse está diretamente ligada à dificuldade da PBH em captar patrocínio privado. “É uma história antiga. Sempre quando a Prefeitura de BH não consegue o patrocinador, nós temos esse atraso do repasse”, aponta.

O Executivo nega. “A realização do Carnaval de Belo Horizonte não está condicionada à captação de patrocínios. O evento integra o calendário oficial da cidade e é uma política pública consolidada, assegurada pelo planejamento e pelos investimentos do poder público. Os recursos destinados ao pagamento dos auxílios financeiros, bem como à estruturação e aos serviços do evento, são garantidos por dotação orçamentária da PBH”, garante a Belotur, empresa pública responsável por planejar, coordenar e promover a festa na cidade.

Em dezembro do ano passado, a PBH declarou, após duas tentativas, o edital para captação de recursos “deserto”, ou seja, sem nenhuma empresa interessada.

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Compromisso

Juólison explica que, além dos ensaios, os blocos caricatos precisam de meses de trabalho para confecção de fantasias e alegorias, criação do tema, composição e gravação do samba-enredo. “É uma preparação mais longa”, ressalta. Para os coletivos de rua, o cenário não é menos trabalhoso: são meses de ensaios em espaços que exigem aluguel, compra de instrumentos, entre outras despesas.

Questionada sobre a previsão de pagamento aos 105 blocos contemplados pelo Edital de Auxílio Financeiro do Carnaval, a Prefeitura afirmou que os repasses serão realizados até 31 de janeiro. Em 2026, serão destinados R$ 3,21 milhões, montante cerca de 82% maior do que o concedido no ano passado.

Diretor do bloco Então, Brilha! e integrante da Liga dos Blocos de Rua e de Lutas de Belo Horizonte (Liga Bruta), Leandro César avalia que a forma como a prefeitura organiza o financiamento demonstra uma visão limitada sobre a festa. Para ele, o Carnaval não pode ser tratado como um evento pontual, concentrado apenas nos dias de folia. “Olha o tamanho disso que a gente faz, o alcance…”, aponta. “É uma rede de pessoas que estão comprometidas com a realização da festa, mas é também uma rede de trabalhadores”, complementa.

Eulália, da SiLiga, concorda: “eles pensam que o Carnaval é só ali, naquele momento que a gente está no cortejo, no desfile. Não. Carnaval é o ano inteiro”.

‘Caminho do ouro’

Para contornar o problema, todos miram numa mesma direção: a iniciativa privada. Juólison defende que as agremiações não fiquem reféns apenas do poder público. “Os caricatos e os outros não podem contar somente com o patrocínio da Prefeitura”, sugere. “Eu falo isso também como presidente de bloco, porque além de presidir a liga, eu sou presidente do bloco caricato Estivadores do Havaí. Nós fazemos um esforço para manter as coisas funcionando o ano todo”, afirma.

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“Claro que o patrocínio do poder público é fundamental. Ele é o patrocinador master, porque além do recurso financeiro, a Prefeitura oferece a estrutura: passarela, arquibancada, som, iluminação, segurança, banheiros químicos, toda a infraestrutura do desfile. Mas a nossa visão é que os blocos não dependam exclusivamente dessa verba”, diz.

Leandro, da Liga Bruta, vai de acordo, mas explica que, nessa corrida, um ou outro bloco pode sair prejudicado. “Porque é uma articulação mais individual, digamos assim. A Liga Bruta não tem, hoje, a finalidade de articular patrocínios coletivos. Então está todo mundo nessa lida de correr atrás”.

Diálogo com a Belotur

O atraso no repasse das verbas ocorre em meio à troca de comando na Belotur. Em dezembro último, Bárbara Menucci deixou a presidência da empresa após cerca de um ano e quatro meses de gestão. Eduardo Cruvinel, servidor de carreira que atua há 20 anos no órgão, assumiu o cargo. À época, a PBH defendeu que a renovação se trata de uma “mudança pontual”, como ocorreu em “algumas áreas da administração”.

Para Eulália, da SeLiga, o diálogo com a Belotur existe, independentemente da pessoa à frente, mas não tem sido suficiente para evitar problemas estruturais do Carnaval.

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Já entre os blocos caricatos, a ponte com a Belotur é descrita como constante e bem estabelecida. Juólison afirmou que há muitos anos tem um “diálogo excepcional” com a empresa e que as tratativas ocorrem “sem burocracia”.

Na Liga Bruta a avaliação é diferente. Leandro César afirma que ainda não houve contato direto com a nova presidência. “Nós ainda não conhecemos o novo presidente”, afirma, mas acrescenta que, até o momento, a mudança no comando “ainda não teve nenhum reflexo” na relação institucional com os blocos de rua.

À reportagem, a Belotur afirmou que já realizou, desde novembro de 2025, 537 reuniões com os blocos de rua para o fechamento de trajetos e outros detalhes operacionais. “Eduardo Cruvinel assumiu o cargo em 19 de dezembro e, desde então, tem se dedicado a compreender a estrutura, os processos e as principais demandas da Belotur, com atenção especial à organização do Carnaval de Belo Horizonte”, apontou.

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A empresa também garantiu uma agenda de encontros em breve. “Na próxima semana, o presidente da Belotur já tem agendas marcadas com algumas ligas de blocos de rua para apresentação e alinhamento de demandas”, afirmou.

Expectativas

Problemas à parte, a ansiedade para a folia deste ano segue alta. Para Eulália, da SiLiga, a expectativa é de que o Carnaval aconteça com segurança e respeito, apesar das dificuldades enfrentadas pelos blocos. Segundo ela, o principal desejo é que os recursos sejam liberados a tempo para evitar o endividamento dos coletivos e garantir a estrutura mínima necessária para os desfiles.

“Que seja melhor do que já foi nesses anos todos”, diz Eulália Amada.

Já para Leandro César, da Liga Bruta, prevalece o desejo de manter o espírito que marcou o reaquecimento do Carnaval em Belo Horizonte anos atrás. Ele afirma que os blocos seguem com a “expectativa de sempre”, que é “dar o melhor” e construir uma festa de “muita alegria e muita brincadeira”. “Mas também com essa carga crítica presente, fazendo as discussões políticas que são necessárias em relação à ocupação do espaço público”, finaliza.

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Thiago Cândido

Jornalista pela UFMG. Repórter na 98 desde 2025. Participou de reportagens vencedoras do Prêmio CDL/BH de Jornalismo 2024 e Prêmio Mercantil de Jornalismo 2025.

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