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‘A música mora onde o Alzheimer não alcança’: Idosa emociona ao cantar samba de Cartola com o neto

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Em meio às falhas de memória provocadas pelo Alzheimer, músicas que marcaram a juventude seguem intactas, especialmente as de Cartola (Reprodução/@novabrunna/Instagram)

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“A música mora onde o Alzheimer não alcança”. É dessa forma que os irmãos Bruna Bispo e Douglas Moreira resumem a relação da avó, a carioca Léa Sant’anna Moreira, de 85 anos, com a doença diagnosticada há cerca de quatro anos. Em meio às falhas de memória provocadas pelo Alzheimer, canções que marcaram a juventude da idosa seguem intactas, especialmente os sambas de Cartola.

Mesmo quando Léa já não se lembra dos netos ou de tarefas simples do dia a dia, como escovar os dentes ou tomar banho sozinha, versos de “O Mundo É Um Moinho” continuam vivos. Um vídeo da idosa cantando a canção dos anos 1970 ao lado de Douglas gerou comoção nas redes sociais e reacendeu o debate sobre o papel da música no cuidado de pessoas com Alzheimer.

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Segundo o médico geriatra Adriano Faustino, esse fenômeno tem explicação neurológica. Enquanto o reconhecimento de pessoas depende da chamada memória recente, que é uma das primeiras áreas afetadas pela doença, a música está ligada a memórias automáticas e emocionais, que ficam mais solidificadas no cérebro.

“Cantar uma música envolve emoção, ritmo e repetição, ativando várias regiões cerebrais ao mesmo tempo. Por isso, essas memórias resistem por mais tempo, mesmo com o avanço da doença”, diz o especialista.

Para os netos, os benefícios da música no bem-estar da avó são mais do que comprovados. “Sou suspeito para falar, porque entendo muito bem o poder que a música tem. Parece que ela alcança lugares onde outras coisas não chegam. Faz bem não só para quem está doente, mas para todos nós”, conta Douglas.

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De acordo com Adriano Faustino, a música tem impacto comprovado no humor e na qualidade de vida de pacientes com Alzheimer. Estudos indicam melhora do bem-estar, maior engajamento emocional e redução de sintomas como ansiedade, agitação e agressividade. “Em fases mais avançadas, quando o paciente pode ficar mais agressivo ou pouco cooperativo, a música ajuda a acalmar, melhora o comportamento e facilita o cuidado diário”, afirma.

Quando a memória falha, o samba fala mais alto

A relação de Léa com a música está profundamente ligada à própria construção de sua família. Segundo os netos, qualquer reunião familiar acaba, inevitavelmente, se transformando em uma roda de samba. “A música sempre fez parte da vida da minha avó por causa do meu avô, que tocava violão. O samba era o fio condutor das festas, dos encontros e das celebrações. Ele integra a nossa história e ajuda a definir a identidade da nossa família”, explica Bruna.

Mesmo morando em Belém, Douglas mantém o vínculo musical com a avó por meio de videochamadas. No ano passado, a família conseguiu se reunir presencialmente e promoveu uma grande roda de samba no quintal de casa.

“A ideia era justamente provocar essas memórias. Reunimos sobrinhas, primas, todo mundo, para que ela sentisse aquele ambiente familiar. E funcionou. Ela ficou acordada, interagiu, lembrou de várias músicas e demonstrou muito afeto”, conta a neta.

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Esse tipo de estímulo é altamente recomendado do ponto de vista clínico. Segundo o geriatra Adriano Faustino, quando a música é escolhida de acordo com a história de vida do paciente, os efeitos são ainda mais positivos. “Músicas ligadas à juventude ou a momentos marcantes criam conexões cerebrais mais fortes. Elas estimulam emoções positivas, reduzem o isolamento e fortalecem o vínculo com familiares e cuidadores”, explica.

O repertório que mais desperta respostas emocionais em Léa reúne nomes como Jamelão, Nelson Cavaquinho e Lupicínio Rodrigues, artistas das décadas de 1930, 1940 e 1950. Mas é Cartola quem ocupa um lugar especial.

“Quando o Douglas toca, ela lembra, sorri, curte e canta junto. Isso é muito positivo para ela”, observa Bruna. A ligação com o compositor vem de longa data. “Meu avô era um grande admirador do Cartola, e isso ficou muito marcado nela.”

O médico reforça que a música não é capaz de curar o Alzheimer, mas é uma ferramenta poderosa no tratamento. “Ela melhora a qualidade de vida, estimula o cérebro e pode retardar a progressão da doença quando associada a outras medidas, como boa alimentação, suplementação adequada e atividade física. Além disso, é uma intervenção acessível, de baixo custo e com enorme potencial para ser incorporada às políticas públicas de saúde”, conclui.

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Larissa Reis

Graduada em jornalismo pela UFMG e repórter da Rede 98 desde 2024. Vencedora do 13° Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, idealizado pelo Instituto Vladimir Herzog. Também participou de reportagens premiadas pela CDL/BH em 2022 (2º lugar) e em 2024 (1º lugar).

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