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Outubro chegou cedo em Minas

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Movimentações na política de Minas (Foto: Pixabay)

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Antecipei aqui na coluna em janeiro, logo que retornei de férias, outubro já chegou para Minas Gerais, e não é força de expressão. É o clima. É o subtexto. É o jeito de andar, de posar, de postar, de visitar e de conversar. Ninguém diz “sou candidato”, mas todo mundo desfila com aquela cara de santinho em procissão… e com o GPS apontado para o Palácio Tiradentes.

Minas entrou na fase em que o silêncio fala alto. E quando o silêncio não dá conta, entra o vídeo. A foto. A filiação. A dobradinha. A indireta com nome e sobrenome. O racha que não é racha. O apoio que não é apoio. A agenda institucional com cheiro de campanha. 

A política mineira, portanto, já não é apenas um jogo de bastidores, virou a coreografia de um espetáculo.

Republicanos, municipalismo e um recado direto

Luís Eduardo Falcão, prefeito de Patos de Minas e presidente da AMM, filiou-se ao Republicanos em Brasília, reunião com o cacique do partido, Marcos Pereira, e com o senador Cleitinho Azevedo. Até aqui, tudo dentro do manual, filiação acontece, partido recruta, líder municipalista amplia base, foto registra o momento.

O detalhe, e detalhe, em política, é o nome educado da palavra estratégia, vem no depois da reunião: Falcão publica vídeo, sobe o tom e faz críticas ao governo Zema. E na política, crítica pública raramente é desabafo, costuma ser uma ruptura clara com senha de entrada para algo maior.

Falcão é um municipalista com capilaridade real. Presidente da AMM tem agenda política, telefone de prefeitos, conhece as demandas, sabe como sair na foto… e agora tem partido. E um  partido grande gosta disso do mesmo jeito que o mineiro gosta de café, forte, direto, sem frescura. Municipalismo, em ano eleitoral, é ouro.

A filiação também ocorre no momento em que o Republicanos tem um ativo eleitoral robusto no estado. O senador Cleitinho, nome naturalmente lembrado para compor chapa majoritária em 2026. Quando um partido tem uma figura com recall, o próximo passo é buscar lastro, e o lastro, geralmente, vem de alguém com estrutura e conhecimento. Traduzindo: o Republicanos pode estar montando um palanque em Minas onde Falcão e Cleitinho cabem na mesma foto.

Quem será cabeça e quem será vice? Depende do vento, e, claro, das pesquisas. Em política, o discurso é o cavalo; a pesquisa é o cavaleiro. 

Mas a construção está em curso e tem método, criar contraste com o “zemísmo” e, ao mesmo tempo, ocupar o espaço da direita que não quer parecer continuidade automática. É como vender mudança sem parecer que está mudando de lado, um exercício acrobático que Minas, por tradição, faz com uma mão na urna.

E há, claro, um tempero forte, O embate entre Mateus Simões e a deputada Lud Falcão, esposa de Luís Eduardo Falcão. Houve troca de acusações, contorno público, relatos de tensão, acusações graves e notas na imprensa. Em política, conflito familiar não é fofoca, é sinalização de campo. Quando o casal vira manchete, o grupo político vira mensagem. E quando o grupo vira mensagem, o eleitor vira audiência, e atinge o adversário.

Esse tipo de atrito nunca fica restrito à honra ferida, ele se torna ativo de campanha, munição de palanque, senha de alianças e, muitas vezes, justificativa para rompimentos inevitáveis. Não é sobre o episódio em si; é sobre o que ele autoriza. E aí a ruptura ganha narrativa.

O PL mineiro em ebulição

Agora vamos apontar a lente para onde a temperatura sobe e o termômetro não tem escala: o PL mineiro é um caldeirão fervendo.

De um lado, Nikolas Ferreira aparece colado em Mateus Simões em viagens pelo interior do estado. Na prática, isso funciona como validação política. É aquele recado sem legenda. Olha aqui, eu ando com ele, eu avalizo, eu entrego junto. Cheiro de pré-campanha disfarçada de visita institucional. A política brasileira inventou esse perfume há décadas: se chama agenda técnica com rota traçada para as urnas.

Só que o PL, como todo caldeirão bom, não ferve em silêncio. Cristiano Caporezzo, deputado estadual e com pretensões à vaga do senado pelo partido, faz críticas a Simões, chama o vice de “inexpressivo” e ainda acena para outro roteiro no plano nacional: Flávio Bolsonaro, não necessariamente a trilha de Zema rumo ao Planalto.

Ou seja, enquanto uma ala tenta costurar palanque estadual com Simões, outra ala trava o freio e disputa a direção do volante. E quando o volante é disputado, o carro não anda, ou anda em ziguezague, que é o jeito mais rápido de perder o controle e a credibilidade.

E como se não bastasse, o pano de fundo federal vira briga de condomínio nas redes sociais. Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro trocam farpas e disputam protagonismo dentro do campo bolsonarista. Isso respinga em Minas porque Minas é grande, mas o espaço da direita competitiva está apertado. Quando o pêndulo nacional oscila, o estadual sente. A política mineira, por mais autônoma que se queira, ainda é puxada por cordas nacionais. E quando essas cordas se embolam, a candidatura mineira vira marionete em nó cego.

A eleição começou, e o eleitor precisa estar atento

A disputa pela vaga no Palácio Tiradentes está em curso para definir quem será o representante da centro-direita e da direita na disputa ao governo num estado que costuma decidir com um misto de pragmatismo e desconfiança.

Mateus Simões representa a continuidade do governo Zema, com apelo à direita e ao bolsonarismo mineiro, tentando somar a máquina do governo ao carisma de aliados, e a uma costura partidária que vai ficando cada vez mais complicada.

Falcão e Cleitinho acenam para uma direita com discurso anti-establishment e musculatura municipalista, criando alternativa por fora do eixo do governo, com vocação para ser contra tudo que está aí, mas em versão mineira com menos grito, e com mais ironia.

E o PL, dividido, pode tanto empurrar uma aliança quanto implodi-la, e às vezes fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

E o cidadão, o eleitor?

A pergunta que interessa ao eleitor mineiro é direta e cruel: essas movimentações entregam solução ou só entregam palanque?

Porque Minas tem problemas com datas de vencimento. Estradas, saúde, segurança, dívida, investimento, educação. Não é viável Minas se transformar em um palco permanente de vaidades, legendas, vídeos e selfies, como se governar fosse administrar engajamento e não administrar realidade.

No fundo, o risco é 2026 virar uma novela de personagens em busca de enredo, enquanto o estado segue esperando o básico. Serviço público que funcione, contas em ordem e um projeto que não seja só uma colagem de slogans. 

A pré-campanha é legítima; a disputa é democrática; a alternância é saudável. O que não dá é aceitar que a política se resuma a uma espécie de campeonato de influência, onde o eleitor é a plateia distraída.

Minas costuma ser um estado lento para se apaixonar e rápido para se arrepender. É por isso que, quando a procissão passa, convém olhar menos para o andor e mais para quem o carrega. E, principalmente, para onde estão levando o santo.

Porque outubro chegou cedo. E essa antecipação suscita uma pergunta: chegou com projeto, ou só com foto para postar no Instagram?

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Paulo Leite

Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.

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