O consumo abusivo de álcool aumentou entre adultos que vivem nas capitais brasileiras nas últimas duas décadas, com crescimento mais acentuado entre mulheres. É o que aponta um estudo coordenado pela professora Deborah Carvalho Malta, da Escola de Enfermagem da UFMG, que analisou dados de 2006 a 2023 do sistema Vigitel, com mais de 800 mil entrevistados.
De acordo com a pesquisa, a proporção de adultos que relataram consumo abusivo de álcool passou de 15,7% em 2006 para 20,8% em 2023. Entre as mulheres, o avanço foi ainda mais expressivo: de 7,8% para 15,2% no mesmo período, enquanto entre os homens o índice permaneceu praticamente estável, saindo de 25% para 27,3%.
Segundo a coordenadora do estudo, o consumo abusivo ocorre quando há ingestão de cinco ou mais doses para homens e quatro ou mais para mulheres em um curto período de tempo. Em entrevista à 98 News, a pesquisadora alerta que o álcool é uma substância psicoativa e pode causar dependência.
“A mulher hoje tem autonomia, tem independência, sai, trabalha e estudam. São donas da das suas vidas”, relatou Deborah. “Essa autonomia também fez com que elas mudassem seus estilos de vida, inclusive muitas vezes bombardeadas pelas propagandas da indústria, assumindo também costumes e hábitos que são muito do universo masculino. Eu atribuo, além disso, a forte influência da indústria”, acrescenta.
O estudo também identificou aumento do consumo abusivo entre pessoas com 12 anos ou mais de escolaridade e entre diferentes grupos raciais. Regionalmente, a prevalência cresceu no Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul do país.
Outro alerta do levantamento é que o Brasil deve ficar distante da meta internacional de redução do consumo de álcool até 2030, prevista nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Para cumprir o objetivo, o país deveria chegar a 15,5% da população com consumo abusivo, mas a projeção indica que o índice pode alcançar 22,2% até o fim da década.
Para a pesquisadora, o enfrentamento do problema exige políticas públicas mais amplas, como a proibição de festas chamadas de ‘open bar’. “É necessário fortalecer a restrição ao acesso a bebidas alcoólicas, ampliar a proibição de publicidade e intensificar o monitoramento das ações já implementadas”, afirma. “Somente por meio de respostas integradas e baseadas em evidências será possível reverter essa tendência”, conclui.