O discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a guerra no Irã reforça um cenário de incerteza e expõe contradições na condução do conflito, segundo o cientista político Wilson Mendonça, da Skema Business School. Para o especialista, a intervenção iniciada em 28 de fevereiro não atingiu seus principais objetivos.
“Se havia a intenção de uma mudança de regime, isso não se concretizou. E, curiosamente, essa pauta nem foi defendida no discurso mais recente de Trump”, afirma.
Promessa de guerra curta não se confirmou
Mendonça destaca que a expectativa de uma operação rápida também não se sustentou. “A guerra que seria curta, pontual, como se chegou a sugerir, não aconteceu. O conflito se prolonga e não há clareza sobre os próximos passos”, diz.
Segundo ele, a falta de consistência nas declarações do presidente americano contribui para a insegurança no cenário internacional. “Essa imprevisibilidade, essa mudança constante de discurso, dificulta acreditar nas palavras de Trump”, avalia.
Críticas à OTAN têm efeito contrário
Outro ponto levantado pelo especialista é o impacto das críticas feitas por Trump aos aliados da OTAN.
“As menções, até com um tom quase infantil, de menosprezo à capacidade e à disposição dos membros da OTAN acabaram produzindo o efeito oposto”, afirma.
Segundo Mendonça, isso fortaleceu a posição dos aliados de não se envolverem no conflito.
“Há um aumento de coesão entre esses países, que deixam claro que não faz sentido participar de uma intervenção que consideram unilateral”, explica.
Duas saídas, ambas negativas
Na avaliação do cientista político, o governo americano enfrenta dois cenários possíveis, ambos desfavoráveis.
“A primeira possibilidade é sair do conflito agora e deixar o Irã praticamente com o mesmo formato de gestão desde 1979. A segunda seria uma intervenção em solo, que prolongaria a guerra”, afirma.
Ele ressalta que uma escalada militar teria impacto direto na base política de Trump.
“Isso contraria o próprio discurso de campanha, que foi pautado na redução do envolvimento dos Estados Unidos em guerras externas”, diz.
Estreito de Ormuz amplia risco estratégico
O especialista também chama atenção para o papel do Irã no controle do Estreito de Ormuz. “O Irã entendeu muito claramente o tamanho da vantagem estratégica que tem em mãos”, afirma.
Segundo ele, esse fator pode ganhar ainda mais relevância caso os Estados Unidos recuem. “Se houver saída do conflito neste momento, isso pode ser utilizado de forma muito estratégica pelos líderes iranianos”, diz.
Comparações equivocadas e cenário imprevisível
Mendonça avalia que o governo americano pode ter superestimado a capacidade de replicar estratégias adotadas em outros contextos.
“Talvez a experiência em outros cenários tenha gerado uma leitura equivocada de que o mesmo protocolo funcionaria em qualquer região. Claramente isso não aconteceu no Irã”, afirma.
Cenário segue indefinido
Para o especialista, o momento é de impasse. “São duas situações extremamente desfavoráveis para Trump, que não condizem com o discurso adotado até aqui”, conclui.
