O debate sobre terras raras saiu do subsolo e subiu à superfície da política. O tema merece atenção séria, porque não estamos falando de pedrinhas exóticas para enriquecer uma palestra de seminário. Estamos falando de insumos decisivos para ímãs permanentes, carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, sistemas militares, defesa, transição energética e soberania industrial. O nome já engana: “raras” nem sempre porque inexistentes, mas porque difíceis de separar, processar e transformar em riqueza industrial. E é aí que mora o drama brasileiro.
O protagonismo brasileiro
O Brasil tem tamanho para ser protagonista nesse jogo. O país aparece entre os maiores detentores de reservas de terras raras do planeta. O Brasil tem geologia de potência. Mas, como quase sempre acontece por aqui, entre ter riqueza e saber usá-la há um abismo. O país pode ser grande no mapa mineral e pequeno na inteligência estratégica. E essa, no fundo, é a velha tragédia nacional: abundância no chão, miopia na política.
Ter reserva, porém, não é a mesma coisa que ter poder. O dado mais constrangedor é que, apesar de toda essa abundância, o Brasil ainda ocupa papel modesto na produção global e menor ainda na industrialização dessa cadeia. Temos o recurso, mas não dominamos os elos mais valiosos do processo. É como herdar uma biblioteca inteira e continuar analfabeto econômico. O cofre está cheio, mas a chave da transformação continua nas mãos de outros.
A China na frente
A geopolítica ajuda a entender por que o tema ficou tão quente. Hoje, a cadeia global das terras raras é fortemente concentrada, sobretudo na China, que domina não apenas a extração, mas principalmente o refino, o processamento e a fabricação dos componentes industriais de maior valor agregado. E é justamente aí que mora a diferença entre ser fornecedor e ser potência. Quem controla a química, a tecnologia e a indústria não vende apenas minério, vende influência, autonomia e futuro.
Um passado para ser usado como lição
Nesse ponto, o Brasil deveria olhar para trás antes de correr para frente. Minas Gerais conhece bem essa armadilha. Durante décadas, consolidou-se uma política econômica em que o estado cava, exporta, movimenta bilhões e, ainda assim, retém menos riqueza do que poderia. O caso do minério de ferro é o exemplo mais gritante dessa distorção. Criou-se um modelo em que a exportação da matéria-prima bruta foi incentivada, enquanto a agregação de valor, a industrialização pesada e a transformação tecnológica ficaram em segundo plano. O resultado foi perverso. Minas ajudou a abastecer o mundo, mas muitas vezes ficou com a cratera, a poeira, o desgaste da infraestrutura e uma fatia bem menor do valor gerado.
Esse erro foi ainda mais danoso porque atingiu em cheio um estado cuja economia tem na mineração um dos seus pilares históricos. A lógica da exportação primária até engorda estatísticas de balança comercial, mas empobrece o projeto de desenvolvimento quando não vem acompanhada de industrialização, inovação e capacidade de retenção de riqueza.
Minas Gerais foi empurrada, muitas vezes, para o papel de fornecedora de volume, quando poderia ter sido também protagonista da transformação. Em vez de exportar apenas rocha e solo, poderia ter exportado mais aço sofisticado, tecnologia, cadeias produtivas robustas e empregos qualificados. É a diferença entre ser dono da mina e ser dono do destino.
Não podemos repetir o erro
Por isso, o debate sobre terras raras não pode repetir a burrice estratégica já cometida com o minério de ferro. Se o Brasil optar novamente por celebrar a abundância mineral enquanto terceiriza o refino, a inovação e a indústria, estará apenas trocando de nome e de tabela periódica, mas preservando o mesmo vício histórico. Sai o ferro, entram as terras raras, e o país continua preso à velha sina colonial: vende barato o que extrai e recompra caro o que não soube transformar.
Nesse contexto, a reação do governo federal é compreensível, mas ainda parece mais animada no discurso do que madura na execução. Há iniciativas, estudos, tentativas de organizar a cadeia, linhas de financiamento e um esforço recente para atrair investimentos. Tudo isso é melhor do que a sonolência burocrática de antes. O problema é que, no Brasil, frequentemente se confunde anúncio com estratégia e intenção com política de Estado. E, quando isso acontece, o país posa de visionário enquanto continua operando como fornecedor periférico.
Para onde queremos ir?
O Brasil não pode se contentar em ser um almoxarifado mineral do século XXI. Reservas, por si só, não garantem soberania. O que garante soberania é a capacidade de processar, transformar, dominar tecnologia, criar indústria, formar capital humano e reter valor. Sem isso, terras raras serão apenas mais um capítulo da longa biografia nacional da riqueza desperdiçada.
Também não se trata de defender um extrativismo desordenado, como se qualquer corrida mineral fosse automaticamente virtuosa. O setor precisa caminhar com critério ambiental, previsibilidade regulatória, segurança jurídica e responsabilidade social. Mas responsabilidade não é sinônimo de paralisia. Um país sério consegue explorar com rigor, fiscalizar com firmeza e industrializar com inteligência. O Brasil, quando quer, sabe montar instituições complexas. O que falta, muitas vezes, é vontade de pensar grande por mais de um mandato.
A importância de Minas Gerais
Minas Gerais tem papel decisivo nessa história. Pela tradição mineral, pela base industrial, pela logística e pela densidade técnica, o estado poderia ser um dos centros de uma política nacional de minerais estratégicos. Mas, para isso, precisa escapar do destino preguiçoso que tantas vezes lhe foi imposto, o de carregar nas costas a riqueza geológica do país e receber em troca os impactos, enquanto o valor agregado vai embora.
Minas não pode continuar sendo apenas o lugar de onde a riqueza sai. Precisa ser também o lugar onde ela se transforma.
A reação do governo federal, portanto, deve ser lida com prudência. É positivo que o tema tenha entrado na agenda. É importante que haja financiamento, estudos e articulação institucional. Mas isso só terá valor real se vier acompanhado de uma decisão clara. Não repetir com as terras raras o erro histórico cometido com o minério de ferro. Porque o Brasil já perdeu tempo demais exportando montanha e importando futuro.
No fim das contas, terras raras são menos um assunto de mineração e mais um teste de inteligência nacional. O país tem reserva, tem demanda global, tem capital interessado e tem urgência geopolítica a seu favor. O que falta é decidir se quer ser uma nação que transforma riqueza em poder, ou apenas o sujeito cordial que entrega a matéria-prima na porta, sorri para o comprador e agradece pela gorjeta.
