A tarde desta quinta-feira, 28 de maio, teve peso simbólico na siderurgia brasileira A Gerdau celebrou os 40 anos de sua usina em Ouro Branco, uma das unidades mais importantes da história da companhia no Brasil, e sua maior operação no mundo.
Mas o evento, realizado dentro da própria planta industrial, foi mais do que uma comemoração empresarial. Foi também um recado econômico, industrial e político.
Celebrando com o o olhar no futuro
Ao celebrar quatro décadas em Minas Gerais, a Gerdau olhou para trás com orgulho, mas mirou adiante com preocupação. O tom do CEO Gustavo Werneck foi de reconhecimento pela trajetória construída em Ouro Branco, mas também de alerta sobre os desafios que rondam a indústria brasileira: concorrência externa desleal, perda de competitividade, queda na formação de engenheiros, aumento de custos e insegurança regulatória.
Em outras palavras: a festa teve memória e fotografia. Mas também teve reflexão e cobrança.
A usina de Ouro Branco não é apenas uma estrutura industrial. É um motor econômico regional, uma referência para a siderurgia nacional e um símbolo da presença da Gerdau em Minas.
Ao longo de 40 anos, ajudou a transformar o município, gerou empregos, movimentou fornecedores, atraiu tecnologia e colocou o aço mineiro dentro da engrenagem produtiva do país.
Gustavo Werneck fez questão de reforçar esse vínculo. Lembrando que a Gerdau é “mineira de coração” e que Minas Gerais continuará sendo estratégica para o futuro da empresa. A frase tem valor institucional, mas também tem valor econômico. Num momento em que muitas empresas reduzem planos, adiam investimentos ou concentram expansão fora do Brasil, dizer que Minas seguirá relevante é uma sinalização importante.
Os investimentos
A companhia prepara novos anúncios para o segundo semestre, mas já existem investimentos correntes de grande porte na região. O destaque é a plataforma de mineração sustentável em Miguel Burnier, distrito de Ouro Preto, próxima de ser concluída. Segundo Werneck, trata-se do maior investimento já feito pela Gerdau em Minas Gerais, com os melhores conceitos de sustentabilidade disponíveis no mundo e sem uso de barragens.
Esse ponto é relevante. Minas sabe, talvez como poucos estados brasileiros, o peso econômico da mineração, e também seus riscos, traumas e cobranças. Quando uma empresa fala em mineração sustentável, sem barragem, em um território marcado por tragédias ambientais, ela não está apenas apresentando um projeto técnico. Está tentando responder a uma exigência histórica: produzir, sim, mas produzir de outro modo.
A nova estrutura em Miguel Burnier deve reforçar a competitividade da usina de Ouro Branco. E competitividade é a palavra-chave de todo esse debate.
Uma reflexão sobre o mercado brasileiro
A Gerdau celebra 40 anos de presença industrial em Minas, mas o Brasil que cerca essa indústria é cada vez mais difícil. Na fala de Werneck, a crítica mais contundente foi dirigida à entrada do aço chinês no mercado brasileiro. Para o CEO, o problema não é competir. A Gerdau, segundo ele, sabe competir e tem feito isso no Brasil e no exterior. O problema é disputar mercado contra produtos que chegam em condições desiguais.
É a velha diferença entre concorrência e invasão predatória. Concorrência obriga eficiência. Concorrência melhora preço. Concorrência estimula inovação. Mas concorrência desleal desmonta indústria, fecha planta, reduz emprego e transforma o país em consumidor passivo da produção alheia.
Werneck foi direto ao afirmar que a indústria brasileira precisa de mecanismos de defesa comercial, especialmente medidas antidumping. Não se trata, segundo ele, de protecionismo puro e simples, mas de criar condições mínimas para que a disputa seja isonômica. O governo federal já teria reconhecido, em investigações preliminares, indícios de que a competição não ocorre em bases justas. A expectativa da empresa é de que decisões definitivas possam sair nos próximos meses.
O tema é maior do que a Gerdau. É um debate sobre o lugar da indústria no Brasil. E os números citados por Werneck ajudam a dimensionar o problema: a indústria representa mais de 25% da arrecadação previdenciária e cerca de 40% dos impostos federais. Um país continental, urbano, complexo e desigual como o Brasil não sobrevive apenas com serviços, consumo e exportação de commodities. Precisa de indústria. Precisa de aço. Precisa de engenheiro. Precisa de fábrica funcionando.
O dado mais incômodo talvez seja outro: atualmente, cerca de 75% dos resultados da Gerdau vêm de fora do Brasil, especialmente dos Estados Unidos. É ótimo para uma empresa brasileira ter presença global. Mas é preocupante quando o ambiente externo se torna mais atraente do que o ambiente doméstico. Quando o lucro cresce lá fora e encolhe aqui dentro, alguém precisa perguntar: o que estamos fazendo com o nosso próprio setor produtivo?
A resposta passa por custo, burocracia, tributação, infraestrutura, insegurança jurídica e concorrência externa. Passa também por educação.
Investimentos em formação
Um dos pontos mais interessantes da celebração em Ouro Branco foi o anúncio de iniciativas voltadas à formação de engenheiros. A Gerdau pretende atuar com instituições de ensino, como a Ânima, para estimular novas gerações de profissionais nas áreas de engenharia mecânica, elétrica, de minas e metalúrgica.
Aqui há um alerta silencioso e grave. Segundo Werneck, os Estados Unidos formam cerca de 25 engenheiros para cada mil habitantes. O Brasil teria cinco, e em queda. É uma diferença brutal. Não há indústria moderna sem engenharia. Não há transição energética sem engenharia. Não há mineração sustentável, siderurgia limpa, automação, produtividade ou inovação sem gente preparada para projetar, operar, corrigir e reinventar processos.
O Brasil discute muito ideologia e pouco matemática. Discute muito palanque e pouco laboratório. Discute muita narrativa e pouco chão de fábrica. E o futuro não se constrói apenas com discurso bonito. O futuro precisa de cálculo, projeto, aço, energia, logística e gente qualificada.
Nesse sentido, a iniciativa da Gerdau é mais do que uma ação social. É estratégia de sobrevivência industrial. Uma empresa que precisa de engenheiros e percebe que o país está formando menos profissionais nessa área não pode apenas reclamar. Precisa agir. E, nesse ponto, Werneck fez uma distinção importante: há problemas que dependem do governo, mas há outros em que a própria iniciativa privada precisa assumir protagonismo.
A escala 6X1
A comemoração dos 40 anos também abriu espaço para outro tema sensível: a proposta de fim da escala 6×1. Gustavo Werneck classificou o impacto como “brutal” caso a mudança seja implantada sem debate profundo com o setor produtivo e sem contrapartidas de produtividade.
Esse é um ponto delicado, porque envolve uma aspiração legítima dos trabalhadores. É evidente que uma escala mais humana, com mais tempo de descanso, é desejável. Ninguém deveria viver esmagado pela rotina, transformado em peça cansada de uma engrenagem infinita. O problema, como quase sempre no Brasil, está no método.
Mudar jornada sem discutir custo, produtividade, reorganização de turnos, impacto sobre pequenas, médias e grandes empresas, reposição de mão de obra e competitividade pode gerar um efeito colateral perigoso. A intenção pode ser civilizatória. O resultado, se mal construído, pode ser desemprego, informalidade, aumento de preços e fechamento de postos de trabalho.
Werneck não rejeitou o debate. Pelo contrário: disse que a Gerdau não é contra discutir o tema e até implementar mudanças ao longo do tempo. Mas criticou a forma como o assunto vem avançando, sem uma conversa estruturada com quem emprega, produz e paga a conta. E essa pergunta é inevitável: quem paga a conta?
Toda mudança trabalhista tem impacto. Pode ser justo fazer. Pode ser necessário fazer. Mas alguém precisa calcular. A política brasileira, muitas vezes, gosta de aprovar bondades no plenário e mandar a fatura para o caixa das empresas. Só que empresa não imprime dinheiro. Quando o custo sobe sem aumento de produtividade, ele aparece em algum lugar: no preço, no investimento adiado, na contratação suspensa ou na planta desligada.
E aí voltamos ao aço.
Werneck lembrou que a Gerdau tem operações paradas em Barão de Cocais, em Minas, em Mogi das Cruzes, em São Paulo, e na Bahia. Com medidas de defesa comercial e melhora nas condições de competitividade, essas unidades poderiam voltar a operar. Isso significa emprego, renda, arrecadação e produção nacional. Não é uma discussão abstrata. É economia real, daquela que suja a bota, acende forno, carrega caminhão e paga salário no fim do mês.
Os 40 anos da usina da Gerdau em Ouro Branco, portanto, representam mais do que uma efeméride corporativa. São uma fotografia do Brasil que deu certo e do Brasil que ainda precisa decidir se quer continuar produzindo.
De um lado, uma empresa que investe, forma mão de obra, aposta em sustentabilidade e mantém Minas no centro de sua estratégia. De outro, um país que ainda parece desconfiar de quem produz, como se indústria fosse problema, e não solução.
Ouro Branco mostra que a indústria brasileira tem história, capacidade e futuro. Mas futuro não é herança automática. Futuro exige ambiente de negócios, defesa comercial, educação técnica, energia competitiva, estabilidade regulatória e respeito a quem empreende e trabalha.
A Gerdau celebrou 40 anos em Minas. Mas a pergunta que ficou no ar não é apenas sobre o passado. É sobre os próximos 40.
O Brasil quer ser uma nação industrial ou apenas um grande mercado consumidor de produtos fabricados lá fora?
A resposta não cabe em discurso de solenidade. Cabe em política pública, decisão econômica e coragem para defender a produção nacional sem cair no protecionismo preguiçoso. Porque indústria não nasce de improviso. Indústria se constrói. E, quando se perde, não volta com decreto, nem com aplauso, nem com saudade.
Volta com competitividade. E isso, hoje, é o aço mais urgente que o Brasil precisa temperar.
