A CPI do Crime Organizado terminou ontem, 14 de abril de 2026, de um jeito que já se tornou um velho vício da República, muito barulho, muita pose, muita fala inflamada, e, na hora decisiva, a política escolheu proteger a si mesma.
O relatório final do senador Alessandro Vieira, que pedia o indiciamento de três ministros do STF, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi rejeitado por 6 votos a 4. Pedido de indiciamento que seria encaminhado ao Ministério Público Federal, cujo chefe hierárquico é o mesmo Paulo Gonet citado no relatório. Daqui em diante não seria preciso dizer mais nada, mas é necessário.
A comissão encerrou os trabalhos sem dar consequência prática ao documento mais explosivo de sua reta final. Uma derrubada do relatório que não foi uma vitória da prudência institucional. Foi uma derrota da coragem política.
Não estamos falando de condenação prévia
Não se trata de transformar CPI em tribunal de exceção. Não se trata sequer de afirmar, como dogma, que tudo o que estava no relatório era irrefutável. O ponto central é outro, e ele é devastador: uma comissão criada para investigar a infiltração do crime organizado no Estado, depois de 120 dias de trabalho, 220 páginas de relatório, 134 documentos recebidos, 312 requerimentos e 18 reuniões, chegou ao fim com o Senado escolhendo não aprofundar, não tensionar e não encaminhar as conclusões mais sensíveis que surgiram no caminho.
O cheiro do medo
O relatório sustentava que havia elementos para apontar crimes de responsabilidade e incompatibilidades funcionais no caso envolvendo o Banco Master. O mínimo que se esperava de senadores comprometidos com o papel constitucional do Parlamento era permitir que esse material fosse formalmente levado adiante para exame das instâncias cabíveis. Rejeitar o texto de saída, politicamente, significa sepultar a apuração antes mesmo que ela pudesse enfrentar o devido processo institucional. O Senado, mais uma vez, preferiu a liturgia da reverência à obrigação da fiscalização.
E isso é particularmente grave porque o relatório não nasceu num ambiente folclórico, nem de uma comissão improvisada de fim de feira. O próprio documento registra que a CPI foi instalada com prazo exíguo de 120 dias e orçamento de apenas R$30 mil, além de relatar dificuldades operacionais e o que chamou de “obstrução sistemática” provocada por decisões monocráticas do STF. Mesmo trabalhando sob limitações severas, a comissão produziu um diagnóstico duro sobre o avanço do crime organizado e suas conexões com estruturas formais de poder. Enterrar seu capítulo mais incômodo é uma forma de dizer ao país que certas portas não podem sequer ser empurradas.
O problema não é a falta de escândalo. É a abundância de remendos
Toda vez que uma investigação chega perto demais do coração do poder, entra em cena a tropa do abafamento elegante. Não se diz “vamos proteger os nossos”. Diz-se “é preciso responsabilidade”. Não se afirma “não queremos apurar”. Diz-se “o relatório extrapolou”. Não se admite “temos receio das consequências”. Fala-se em “segurança jurídica”, “equilíbrio entre Poderes”, “preservação institucional”. É sempre a mesma música, com arranjo novo. A orquestra muda, mas o concerto da blindagem é antigo.
Um resultado devastador para a credibilidade do Legislativo
Uma CPI só faz sentido se tiver liberdade para incomodar. Se ela existe apenas para colher depoimentos, produzir manchetes e terminar mansamente no arquivo morto quando a investigação alcança gente graúda, então não é instrumento de controle. É uma peça de teatro. É um biombo institucional. É um ritual caro, barulhento e estéril para simular vigor republicano enquanto a verdade é algemada nos bastidores.
A decisão dos senadores que derrubaram o relatório passa ao país uma mensagem péssima. Existe rigor para uns e indulgência para outros. Quando o alvo é periférico, a máquina do escândalo anda depressa. Quando a fumaça sobe perto da cúpula, entra em ação o Corpo de Bombeiros da conveniência. E assim a democracia vai se deformando não só por abusos explícitos, mas também por covardias rotineiras.
O mais irônico é que isso tudo ocorre sob o pretexto de defesa institucional. Mas as instituições que queiram manter sua credibilidade não se defendem com silêncio; se defendem com transparência. Instituições não se fortalecem com blindagem; se fortalecem com prestação de contas. E autoridades públicas, quanto mais poder concentram, mais devem estar expostas ao escrutínio. Esse é o princípio básico de qualquer ordem democrática que se leve a sério.
Ao rejeitar o relatório, os senadores não absolveram ninguém. Isso é importante deixar claro. Mas fizeram algo talvez politicamente ainda pior: impediram que o próprio Senado se colocasse, com firmeza, no papel de quem exige esclarecimentos quando as suspeitas alcançam o topo da pirâmide. Em vez de afirmar independência, a Casa exibiu submissão. Em vez de defender sua prerrogativa investigativa, recolheu-se. Em vez de enfrentar o desconforto, escolheu o conforto da omissão.
Omissão, em política, raramente é neutra
Quando o Parlamento desiste de fiscalizar com coragem, quem ganha não é a harmonia entre Poderes. Quem ganha é a cultura da intocabilidade. Ganha a sensação de que existe no Brasil uma camada de autoridades pairando acima do incômodo, acima da dúvida, acima do constrangimento público. Ganha a pedagogia perversa de que alguns nomes jamais devem ser contrariados, ou expostos.
Num país ferido pela expansão do crime organizado, pela erosão da confiança pública e pela hipertrofia institucional, essa escolha é desastrosa. Porque o cidadão olha e entende, com razão, que o sistema só é duro até a página dois. Depois disso, ele amolece, hesita, cochicha, recua e arquiva.
No fim das contas, o recado da votação foi cristalino. O Senado podia ter errado investigando mais. Preferiu errar investigando menos. Podia ter assumido o risco político da apuração. Preferiu a paz covarde dos corredores. Podia ter sustentado sua missão. Preferiu curvar-se covardemente diante dos poderosos.
E toda vez que a espinha da República se curva, o crime, organizado ou engravatado, aprende que ainda há sombras demais onde se esconder.
