A saúde mental no ambiente de trabalho passou a ser tratada como fator direto de impacto econômico nas empresas e no país. O tema foi debatido nesta sexta-feira (24/4), durante o Imersão Indústria, realizado no BH Shopping, na região Centro-Sul de Belo Horizonte.
Em entrevista à 98 News, o médico e advogado especialista em direito do trabalho Marcos Mendanha afirmou que o cuidado com o bem-estar dos trabalhadores deixou de ser apenas uma pauta de saúde e passou a integrar a gestão estratégica das empresas.
Nova regra amplia responsabilidade das empresas
A mudança de cenário passa pela entrada em vigor de novas regras que ampliam a responsabilidade das empresas sobre o ambiente de trabalho.
Segundo Mendanha, a nova NR-1 deve obrigar organizações a gerenciar riscos psicossociais de forma estruturada. “Essa interface saúde, mental e trabalho está cada vez mais em voga”, disse.
Ao detalhar a mudança, ele explica que a norma traz uma exigência prática para o dia a dia das empresas.
“No mês de maio entra em vigor, caso não seja adiada mais uma vez, a nova NR-1, que traz justamente essa responsabilidade para as organizações de gerenciar os riscos psicossociais como, por exemplo, sobrecarga de trabalho que não é meramente excepcional, mas é algo padronizado, uma rotina ou falta de autonomia, e entre outros fatores que estão relacionados, segundo pesquisas, a esgotamento, adoecimento.”
Adoecimento impacta produtividade e custos
Na prática, o especialista afirma que o adoecimento dos trabalhadores afeta diretamente a operação das empresas, tanto na presença quanto no desempenho das equipes.
“Um ambiente que tem muitos trabalhadores adoecidos, é um ambiente que tem mais absenteísmo, as pessoas faltam mais”, afirmou.
Segundo ele, mesmo quando o trabalhador permanece na empresa, o rendimento pode ser comprometido. “É um ambiente que tem mais presenteísmo, as pessoas estão lá, mas elas não conseguem entregar por limitação da própria doença que ela tá.”
Esse cenário também gera impacto financeiro indireto, com aumento de encargos ligados aos afastamentos. “é um ambiente que você tem uma majoração do FAP que é uma questão tributária que tem a ver com o número de afastamentos relacionados ao trabalho.”
Além disso, o reflexo aparece no volume de ações judiciais. “é uma empresa onde normalmente o contencioso trabalhista é maior. Então você tem aí o maior pagamento de indenizações.”
Saúde mental passa a ser condição para produtividade
Para Mendanha, ainda há uma leitura equivocada dentro das empresas, que trata saúde mental e produtividade como temas opostos. “Vigora-se ainda aquela questão, como conciliar saúde mental com produtividade. Na verdade, uma é condição para outra.”
Na avaliação dele, essa relação é direta e inevitável. “Ou essa conciliação existe ou simplesmente as duas vão cair.”
Dados associam bem-estar a desempenho financeiro
O especialista também cita estudos que apontam uma relação consistente entre investimento em bem-estar e valorização das empresas. “Ao longo de 14 anos as empresas que mais investiram em saúde e bem-estar valorizaram 325% em conta, é, na contramão de apenas 105% que foi a média de valorização das bolsas do S&P 500.”
Ele destaca que esse padrão se repete em diferentes análises recentes. “Oxford, uma pesquisa de Oxford 2024 mostrou também bem a mesma coisa quando comparava várias empresas, especialmente aquelas que mais investiam no bem-estar dos trabalhadores. Elas produzem mais.”
Empresas precisam atuar nas causas, não apenas nos efeitos
Apesar do avanço do debate, Mendanha avalia que muitas empresas ainda adotam medidas superficiais, sem enfrentar os fatores estruturais do problema. “A gente precisa investir mesmo num ambiente que promova promova bem-estar, né? que que que que atue diretamente nos fatores de riscos psicossociais.”
Para ele, ações pontuais não substituem a gestão efetiva dos riscos. “Isso é mais importante do que, por exemplo, colocar uma mesa de ping-pong ou oferecer psicólogo para todo mundo, é gerenciar esses riscos, né?”.
Tema entra no centro da estratégia das empresas
Diante desse cenário, o especialista defende que a saúde mental deixe de ser tratada como um tema isolado e passe a integrar as decisões estratégicas das empresas. “Por isso que essa pauta não pode ser uma pauta médica ou pauta do do do do setor de saúde e segurança. Agora isso tem que vir para mesa da gestão, para mesa do CEO.”
