Há figuras públicas que falam. Há figuras públicas que discursam. E há figuras públicas que se exibem. Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal, parece ter escolhido a terceira via, a do pavão togado, sempre pronto a abrir a cauda em cerimônias, seminários, jantares, fóruns internacionais e frases de efeito, como se a República fosse um salão iluminado para sua performance pessoal.
O problema é que, quando o pavão exagera na coreografia, ele deixa de mostrar beleza e passa a revelar o corpo inteiro. E é exatamente isso que vem acontecendo com Gilmar Mendes.
O ministro, que se acostumou a atuar não apenas como juiz, mas como personagem central da vida política brasileira, transformou-se numa espécie de instituição paralela dentro da própria instituição. Fala como juiz, age como articulador, comenta como político, provoca como militante e se apresenta como intelectual acima do bem, do mal e do contraditório. É o Supremo em primeira pessoa. O “eu” acima do colegiado. A toga convertida em púlpito.
O vernáculo xenofóbico e homofóbico
O episódio recente envolvendo críticas a Romeu Zema escancarou essa lógica. A fala sobre o sotaque mineiro foi lida por muitos como uma derrapada xenofóbica. Depois, a provocação com boneco e insinuações de mau gosto foi recebida por críticos como uma atitude de tom homofóbico. Gilmar pediu desculpas pela repercussão, mas a desculpa não apaga o símbolo. O que ficou foi a imagem de um ministro da mais alta Corte do país descendo ao terreno da chacota, da piada torta, da provocação pequena. Para quem costuma posar como guardião da Constituição, foi uma cena institucionalmente pobre. Para quem cobra civilidade dos outros, foi uma aula prática de incivilidade.
Gilmar Mendes não é um comentarista de botequim. Não é deputado em palanque. Não é humorista em fim de carreira testando piada ruim. É ministro do Supremo Tribunal Federal. Quando fala, não fala sozinho. Leva junto a autoridade do cargo. Quando debocha, não debocha apenas como cidadão. Debocha com a toga às costas. Quando provoca, não provoca apenas Romeu Zema. Provoca também a ideia de que ministros devem preservar compostura, prudência e distância institucional.
A lógica pavonesca de Gilmar Mendes
O chamado “Gilmarpalooza”, apelido dado ao Fórum Jurídico de Lisboa, virou o símbolo mais acabado dessa confusão entre alta reflexão jurídica, circulação de poder e networking de luxo. O evento, organizado com participação do IDP, instituto fundado por Gilmar, reúne ministros, políticos, empresários, advogados e representantes de grandes setores econômicos fora do Brasil. Reportagens já apontaram a presença de grupos privados e patrocinadores com interesses sensíveis e, em alguns casos, processos ou temas em discussão no Supremo. A edição de 2025 foi um palco privilegiado para dezenas de grupos privados, com setores como bancos, mineração, energia, agronegócio, tecnologia, seguros e saúde privada orbitando o encontro.
Não se trata de dizer que todo seminário jurídico seja ilegítimo. O debate acadêmico é necessário. A circulação internacional de ideias também. O problema começa quando a fronteira entre pensamento jurídico, lobby empresarial e convivência informal com julgadores fica enevoada. E, quando essa névoa envolve ministros de uma Corte que decide temas bilionários, o cheiro institucional fica ruim. Não é preciso acusar ninguém de crime para enxergar o constrangimento. Basta ter olfato republicano.
Esse ponto não é novo. Já em 2017 circulava a informação, nunca desmentida, que patrocinadores de evento ligado ao IDP tinham ações no STF, mencionando a participação de autoridades do Judiciário, do Executivo, do Legislativo e de empresas em seminário luso-brasileiro. A questão, portanto, não nasceu ontem. Ela apenas cresceu, ganhou luz, ganhou apelido e virou espetáculo. Como quase tudo no Brasil, primeiro parece absurdo; depois vira costume; por fim, quem critica é tratado como inconveniente.
IDP, o Instituto de Gilmar
Há ainda o caso das relações entre o IDP e a CBF, outro ponto que exige luz, transparência e uma dose generosa de desconforto público. O Senado registrou, em 2025, pedido de apoio para CPI destinada a investigar suposta relação entre a CBF e o ministro, citando que o IDP tem contrato com a CBF para gestão da escola CBF Academy e que Gilmar Mendes é fundador do instituto. A confederação e o instituto anunciaram, em 2023, acordo para gestão e operação da CBF Academy.
Não é um julgamento
Quem julga é a Justiça, e ironicamente o personagem central dessa discussão integra a mais alta Corte do país. Mas o jornalismo não precisa esperar trânsito em julgado para apontar zona cinzenta. E a zona cinzenta, nesse caso, é ampla o bastante para caber um desfile inteiro de pavões.
O Brasil precisa discutir com seriedade a conduta pública de ministros do Supremo. Não apenas suas decisões. Não apenas seus votos. Mas sua presença social, seus vínculos institucionais, seus eventos patrocinados, suas relações com empresas, entidades, escritórios, confederações e grupos de poder. Num país minimamente maduro, isso não seria visto como um ataque ao Judiciário. Seria a defesa do Judiciário.
A independência judicial não é salvo-conduto para vaidade. A toga não é fantasia de gala. O cargo de ministro do Supremo não combina com performance permanente, nem com presença em todos os salões onde o poder se reúne para brindar a si mesmo. O magistrado deve parecer imparcial, além de ser imparcial. Deve parecer contido, além de ser técnico. Deve parecer distante dos interesses que julga, além de declarar que não há conflito.
Gilmar Mendes, no entanto, parece cultivar outra escola. A escola da centralidade absoluta. Está sempre no centro do palco, sempre no microfone, sempre no bastidor, sempre na frase definitiva. O juridiquês empolado, empertigado, funciona como plumagem. Enfeita. Impressiona. Intimida. Mas nem sempre esclarece. Às vezes, serve apenas para vestir de erudição aquilo que, no fundo, é exercício bruto de poder.
E quando o poder se acostuma a não ser contestado, ele perde o pudor. Foi o que aconteceu no episódio das provocações contra Zema. Ali, o ministro não apenas errou o tom. Ele mostrou o método. Um método de superioridade performática, de deboche social, de quem parece acreditar que sua inteligência lhe dá licença para ultrapassar limites que ele próprio cobraria dos outros.
É aí que o pavão abre o rabo em praça pública
A cena é quase literária. O ministro que se apresenta como sofisticado escorrega no preconceito. O intelectual que se imagina refinado cai na grosseria. O guardião da Constituição brinca com aquilo que a própria Constituição protege; a dignidade, a igualdade, o respeito à origem regional, à identidade, à diferença. A plumagem vistosa, sob luz forte, revela menos nobreza do que arrogância.
O Supremo Tribunal Federal vive um momento delicado. Sua autoridade vem sendo questionada por setores amplos da sociedade. Parte dessas críticas é injusta, parte é oportunista, parte é golpista, sim. Mas parte é legítima. E uma das críticas mais legítimas é a de que ministros não podem agir como atores políticos sem pagar o preço institucional dessa escolha. Quem entra na arena não pode reclamar da poeira. Quem faz provocação pública não pode pedir silêncio reverente. Quem se comporta como protagonista político será analisado como protagonista político.
Gilmar Mendes parece não perceber que, ao multiplicar aparições, eventos, alianças, frases e provocações, ajuda a corroer a própria solenidade da Corte que integra. O Supremo não precisa de pavões. Precisa de juízes. Não precisa de donos da República. Precisa de servidores da Constituição. Não precisa de festivais personalistas. Precisa de discrição, rigor e transparência.
O país já tem palanque demais. Já tem vaidade demais. Já tem espetáculo demais. O que falta é decoro.
E decoro, no caso de um ministro do Supremo, não é detalhe estético. É parte da função. É a moldura moral do cargo. Um juiz constitucional não pode se comportar como influencer togado, anfitrião de camarote institucional ou comentarista de ironias preconceituosas. A toga exige peso. Exige freio. Exige silêncio, às vezes. Sobretudo quando a palavra ameaça rebaixar a instituição.
A lógica pavonesca de Gilmar Mendes chegou ao seu limite porque deixou de ser apenas vaidade. Virou problema republicano. Quando um ministro se confunde com sua própria corte, quando um instituto privado se mistura à paisagem pública do poder, quando eventos internacionais aproximam julgadores e interesses econômicos, quando a piada de mau gosto substitui a prudência, o país precisa parar e perguntar. Quem fiscaliza os fiscalizadores?
Gilmar Mendes é, sem dúvida, um homem inteligente. Talvez seja esse o problema. Homens inteligentes demais, quando perdem a humildade, tornam-se perigosamente convencidos de que qualquer gesto seu será automaticamente sofisticado. Não será. Às vezes é só grosseria com verniz. Às vezes é só arrogância com latim. Às vezes é só pavonice.
E a República, convenhamos, já não aguenta tanto pavão em cima do telhado.
