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A eleição antes da eleição

Por Paulo Leite Rede 98
01/07/2026 07:12 Atualizado há 3 horas
FOTO: ASICS/TSE

Toda eleição começa antes da campanha. Começa quando os partidos ainda evitam a palavra candidatura, quando lideranças dizem que estão apenas “conversando”, quando alianças são testadas em silêncio, quando pesquisas internas circulam em grupos restritos e quando o eleitor, mesmo sem prestar muita atenção, já começa a formar suas primeiras impressões.

A política raramente espera o calendário oficial. Ela se antecipa. Ensaia. Mede força. Testa nomes. Produz gestos. Planta dúvidas. Vende certezas. E, muitas vezes, decide parte importante do jogo antes mesmo de a maioria perceber que o jogo começou.

É nesse território que nasce a cobertura da Rede 98, como espaço de análise, contexto e leitura crítica da eleição. Não para acompanhar apenas o barulho da disputa, mas para tentar entender o que está por trás dos movimentos, das alianças, das promessas e dos silêncios.

Não basta tratar a eleição como uma sequência de declarações, agendas, fotos, vídeos e frases de efeito. Isso faz parte do processo, claro. Mas é só a superfície. A eleição verdadeira acontece também nas escolhas que não aparecem, nos recuos calculados, nos apoios que custam caro e nas promessas que precisam ser confrontadas com a realidade.

O lugar de Minas

Minas Gerais chega a este ciclo eleitoral ocupando, mais uma vez, um lugar decisivo. O estado não será apenas cenário. Será peça importante para entender os rumos da política nacional e, principalmente, para definir os caminhos do próprio futuro mineiro. Minas tem peso eleitoral, diversidade regional, relevância econômica e uma tradição política que costuma funcionar como termômetro do Brasil.

Mas Minas não pode ser lida apenas pelo mapa partidário. Minas precisa ser lida pelo território, pela vida concreta e pelas diferenças internas que fazem deste estado uma espécie de país dentro do país.

A Região Metropolitana de Belo Horizonte tem uma agenda. O Norte de Minas tem outra. O Triângulo fala uma língua econômica própria. O Sul carrega suas vocações. A Zona da Mata tem seus gargalos. O Vale do Aço, os Vales do Jequitinhonha, Mucuri e Rio Doce, o Centro-Oeste, o Noroeste e o Alto Paranaíba vivem realidades que não cabem em um discurso pronto.

O cenário eleitoral mineiro, neste momento, reflete essa complexidade. Há um campo governista tentando organizar a sucessão depois do ciclo Romeu Zema, uma direita ainda em busca de definição mais clara, uma esquerda pressionada a encontrar protagonismo real no estado e um centro político tentando provar que ainda existe espaço entre os pólos nacionais. Mais do que antecipar vencedores, o quadro mostra uma eleição aberta, marcada por articulações incompletas, lideranças em teste e uma pergunta essencial. Quem conseguirá transformar presença política em projeto consistente para Minas?

Por isso, entender a eleição mineira exige olhar para além dos nomes. É preciso perguntar o que cada projeto político oferece para um estado complexo, desigual, endividado e cheio de potencial. Um estado que reúne mineração, agro, indústria, serviços, tecnologia, universidades, cidades históricas, periferias metropolitanas, estradas ruins, riqueza natural e bolsões persistentes de pobreza.

Minas não cabe em slogan

A eleição será atravessada por temas que não podem ser tratados como acessórios de campanha, dívida pública, desenvolvimento econômico, segurança, saúde, educação, saneamento, infraestrutura, mobilidade, emprego, atração de investimentos e qualidade dos serviços públicos. O eleitor será chamado a escolher pessoas, partidos e alianças, mas também será chamado a escolher caminhos.

A função de uma boa cobertura eleitoral é justamente acender algumas luzes. Separar barulho de força real. Promessa de plano. Popularidade de consistência. Frase bonita de proposta viável. Marketing de capacidade administrativa. Porque uma coisa é produzir um vídeo eficiente para rede social. Outra, muito diferente, é governar Minas Gerais.

Em tempos de comunicação acelerada, a eleição corre o risco de virar espetáculo permanente. Uma frase cortada pauta o debate. Um vídeo de poucos segundos cria uma falsa certeza. Uma polêmica fabricada ocupa o espaço de uma discussão urgente. E, nesse ambiente, a análise deixa de ser luxo. Vira necessidade democrática.

Sem análise, eleição vira torcida. E democracia não se sustenta apenas com torcida. Democracia exige informação, comparação, crítica, memória e responsabilidade.

A disputa em Minas terá influência nacional, como sempre. Os grandes campos políticos tentarão transformar o estado em vitrine de seus projetos. Isso faz parte do jogo. Mas Minas não pode ser tratada apenas como palanque de projetos nacionais. O estado tem seus próprios problemas, suas próprias urgências e suas próprias perguntas.

O eleitor mineiro precisa saber o que cada candidatura pensa sobre Minas. Não apenas onde se posiciona na guerra nacional de narrativas. Não apenas quem apoia ou por quem é apoiada. A pergunta essencial é mais objetiva. Que projeto existe para governar este estado?

Governar Minas não é tarefa para improviso. É administrar uma máquina pesada, uma dívida expressiva, demandas regionais muito diferentes e uma população que cobra resultado, mesmo quando parece silenciosa. O mineiro observa. Desconfia. Espera. E, quando decide, costuma dar recados que a política demora a entender.

É mais que saber quem vai ganhar

A pergunta central da eleição, portanto, não deve ser apenas quem vai ganhar. Essa é a pergunta mais óbvia. A mais importante é outra. Que Minas sairá das urnas?

Uma Minas mais eficiente? Mais segura? Mais competitiva? Mais justa? Mais integrada? Mais capaz de enfrentar seus gargalos históricos? Ou uma Minas novamente presa ao velho ciclo de promessa grande, execução pequena e conta empurrada para depois?

A cobertura eleitoral que começa agora precisa acompanhar pesquisas, partidos, candidaturas e alianças. Mas precisa, sobretudo, acompanhar o sentido desses movimentos. Quem fala com o eleitor real? Quem tem base política? Quem tem projeto? Quem tem capacidade de articulação? Quem apenas surfa uma onda passageira? Quem promete o que não cabe no orçamento? Quem evita os temas difíceis? Quem transforma problema sério em frase de campanha?

Pesquisa importa, mas pesquisa é fotografia. Política é filme. E o filme mineiro costuma ser longo, cheio de personagem inesperado, reviravolta no terceiro ato e final que muita gente só entende depois da apuração.

Uma visão criteriosa

Por isso, a eleição deve ser acompanhada com lupa, contexto e espírito crítico. Não para complicar o que é simples, mas para simplificar o que muitos tentam complicar de propósito. O eleitor não precisa de fumaça. Precisa de clareza.

No fim das contas, eleição não é espetáculo para especialistas. É uma decisão que afeta a vida de todos. Define orçamento, prioridade, obra, escola, hospital, polícia, estrada, saneamento, emprego e futuro.

Minas entra em mais um ciclo eleitoral carregando seu peso histórico e suas contradições. Será disputada por partidos, lideranças, candidaturas e projetos de poder. Mas a pergunta que precisa orientar a leitura daqui para frente é direta. O que essa disputa entrega para Minas?

É isso que precisa ser acompanhado.

Com atenção aos bastidores, respeito aos fatos, compromisso com o eleitor e pouca paciência para frase vazia.

Esta coluna é assinada por Paulo Leite e tem caráter analítico e opinativo. O texto não reflete o posicionamento do grupo.
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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.