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A esperança não cabe inteira na urna

Por Paulo Leite • Rede 98
11/10/2026 08:17 Atualizado há 2 horas
(Foto: Fábio Pozzebom/Agência Brasil)

Eleger um governo é indispensável. Construir um país exige também a responsabilidade diária de quem cobra honestidade dos outros.

A tentação de terceirizar o futuro

Não devemos entregar todas as nossas esperanças às urnas. Devemos entregar nosso voto, nossa escolha e a possibilidade de substituir governos sem violência. Isso é muito. Mas uma eleição não recebe procuração para fazer, sozinha, o trabalho moral de uma sociedade.

O problema começa quando esperamos de um candidato aquilo que nem sempre exigimos de nós mesmos: honestidade sem exceções, responsabilidade sem desculpas, respeito sem conveniência. Investimos o eleito de uma missão quase religiosa. Depois, descobrimos que o salvador tem interesses, limitações, aliados inconvenientes e uma impressionante capacidade de justificar os próprios erros.

Políticos são gente de carne e osso. Isso não os absolve; torna ainda mais necessária a fiscalização. A democracia precisa funcionar mesmo quando os ocupantes do poder decepcionam. Seu mérito está em permitir que sejam cobrados, limitados e substituídos.

Mais cedo ou mais tarde, qualquer governante tomará uma decisão que nos incomode. O teste da cidadania começa quando conseguimos criticar quem ajudamos a eleger, nossa consciência não deve tomar posse no gabinete.

Quando o adversário vira uma ameaça existencial

Parte do debate público passou a funcionar como um campeonato de apocalipses. De um lado, a invasão comunista sempre a caminho. Do outro, o fascismo apresentado como destino automático de qualquer vitória conservadora. Entre os dois, desaparecem as perguntas concretas sobre orçamento, serviços públicos, liberdades e limites do poder.

Comunismo, fascismo e autoritarismo têm história e significado. Usá-los como insultos universais empobrece a análise e dificulta identificar ameaças reais. Uma proposta autoritária deve ser examinada pelo que faz às instituições e aos direitos, seja qual for a bandeira de seu autor.

Em artigo publicado na revista Science, em 2020, Eli Finkel e outros pesquisadores descreveram o “sectarismo político” a partir de três componentes: a divisão entre “nós” e “eles”, a aversão ao outro grupo e a transformação da divergência em julgamento moral. 

O estudo trata dos Estados Unidos; sua aplicação ao Brasil exige cautela. Ainda assim, oferece uma lente útil para interpretar a substituição do debate pela hostilidade. 

Esse mecanismo aparece quando deixamos de perguntar se uma proposta funciona e passamos a perguntar se ela machuca o lado adversário. O eleitor troca o projeto de país pelo prazer da revanche. E governantes recebem uma licença perigosa: podem errar, desde que mantenham o inimigo irritado.

Tampouco convém colocar o destino brasileiro nas mãos de qualquer liderança estrangeira. Potências defendem seus interesses. Nossa responsabilidade democrática não pode depender da fantasia de um padrinho internacional.

O poder precisa de limites, inclusive quando é nosso

Dizer que o poder embriaga é uma metáfora expressiva. Afirmar que corrompe inevitavelmente a maioria das pessoas seria uma generalização sem comprovação suficiente. Há pessoas íntegras na política, no serviço público e nas empresas. O problema é organizar a vida coletiva como se a integridade dispensasse controles.

Um cargo concentra decisões, distribui oportunidades e aproxima interessados. Quanto maior a possibilidade de favorecer alguém sem prestar contas, maior a necessidade de transparência e fiscalização.

Existe evidência brasileira sobre a eficácia desses controles. Eric Avis, Claudio Ferraz e Frederico Finan estudaram o programa de auditorias municipais da Controladoria-Geral da União. No trabalho publicado no Journal of Political Economy, em 2018, estimaram que uma auditoria anterior reduziu em 8% a corrupção identificada posteriormente. O resultado se refere ao contexto estudado, mas demonstra que fiscalização pode alterar comportamentos. 

A lição é prática: promessas de virtude precisam vir acompanhadas de regras verificáveis. Contas públicas acessíveis, órgãos de controle com autonomia, imprensa livre e responsabilização dão substância à cobrança.

Quem protesta contra os abusos dos adversários e tolera os dos aliados transforma princípios em acessórios de campanha. A democracia precisa de cidadãos capazes de exigir limites também para o poder que desejam ver exercido.

A pequena vantagem e a grande desculpa

A corrupção também encontra abrigo na linguagem cotidiana. O suborno vira “agrado”. O favorecimento vira “ajuda”. A fraude vira “jeitinho”. A palavra amacia aquilo que a consciência deveria estranhar.

O Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial de 2015, do Banco Mundial, reuniu pesquisas sobre a influência das normas sociais no comportamento. Sua discussão sobre corrupção mostra como expectativas compartilhadas podem ajudar a normalizar práticas desonestas. Quando acreditamos que todos fazem, cresce a tentação de tratar a recusa como ingenuidade. 

É nesse terreno que a vida diária importa. No documento adulterado para obter uma vantagem. Na comissão escondida do cliente. Na indicação que atropela critérios. Na informação falsa compartilhada porque parece útil ao nosso grupo.

Essas condutas não são todas equivalentes juridicamente, nem produzem o mesmo dano. Mas podem compartilhar uma justificativa: a regra vale até atrapalhar meu interesse. A partir daí, o privilégio pessoal ganha o nome de necessidade; o privilégio alheio continua sendo escândalo.

Não há fundamento para afirmar que eliminar pequenas desonestidades acabará automaticamente com grandes esquemas. Redes de corrupção exigem investigação, controles, prevenção e sanções. A ética cotidiana fortalece essa luta ao retirar prestígio e tolerância das práticas que a contradizem.

Quem recebe propina milionária não pode usar o troco indevido do cidadão como desculpa. E o cidadão não precisa esperar a prisão de um poderoso para começar a agir corretamente.

O país que se aprende em casa e na empresa

Uma sociedade melhor precisa ser construída onde as relações acontecem: em casa, na empresa, na escola, no condomínio e no boteco. Nessas situações, os valores anunciados encontram oportunidades de virar comportamento.

Em casa, ensinamos algo quando admitimos um erro e reparamos o prejuízo. Também ensinamos quando humilhamos quem pensa diferente. Crianças escutam sermões, mas convivem com exemplos.

Na empresa, integridade exige condições concretas: critérios claros para contratar e promover, compromissos cumpridos, proteção a quem relata irregularidades. Um discurso impecável na parede perde valor quando o funcionário aprende que precisa fraudar para alcançar a meta.

No boteco, o gesto civilizatório pode ser simples, discordar sem desumanizar, pedir a fonte de uma acusação, interromper uma mentira mesmo quando ela favorece nossa preferência. A amizade não exige unanimidade. Exige que a diferença não seja convertida em autorização para desprezar.

Essa responsabilidade não deve virar um sermão contra quem enfrenta pobreza, violência ou serviços precários. Recursos, oportunidades e poder são distribuídos de forma desigual. Construir justiça também exige políticas públicas e instituições capazes de enfrentar essas desigualdades.

Um compromisso que sobreviva à eleição

Precisamos de um gesto civilizatório que sobreviva ao calendário eleitoral: abandonar a conveniência como medida da honestidade e reconhecer no adversário alguém que tem direitos.

Esse compromisso se prova em escolhas repetidas. Recusar uma vantagem indevida. Corrigir uma informação falsa. Cumprir uma obrigação. Cobrar explicações do aliado. Aceitar o resultado legítimo de uma eleição e continuar fiscalizando o vencedor.

As urnas importam porque políticas públicas mudam vidas e porque a alternância limita o poder. O voto merece nossa esperança. Mas uma parte dela precisa permanecer conosco, para sustentar o trabalho que vem depois.

O país será governado por pessoas imperfeitas. Sua melhora dependerá também da nossa disposição de enfrentar as próprias imperfeições.

É possível começar antes da próxima eleição. Talvez à mesa de casa. Talvez numa reunião de trabalho. Talvez no boteco, entre uma conversa e outra.

A República também precisa aprender a pagar a própria conta.

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Paulo Leite
Paulo Leite
Sociólogo e jornalista. Colunista dos programas Central 98 e 98 Talks. Apresentador do programa Café com Leite.