Mais de 50 bispos católicos de diferentes regiões do Brasil assinaram uma carta divulgada nesta sexta-feira (23/10) com críticas a uma das candidaturas à Presidência da República. Sem mencionar nomes, os religiosos afirmam que uma das opções do segundo turno ameaça a democracia, a soberania nacional e princípios da Doutrina Social da Igreja. As críticas fazem referências a posições associadas ao candidato Flávio Bolsonaro (PL), que disputa a eleição contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Intitulado “Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026”, o documento foi datado de quinta-feira (22/10). Os signatários defendem que os fiéis participem da votação de domingo (25/10) e considerem os ensinamentos sociais da Igreja na escolha do próximo presidente.
“O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da Doutrina Social da Igreja, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”, afirmam.
Os religiosos acrescentam que a disputa pode representar uma mudança profunda nos rumos do país e fazem referência às experiências autoritárias do século XX.
Críticas à escala 6×1 e à política econômica
Entre os pontos levantados, os bispos criticam a candidatura que, conforme a carta, se posicionou contra o fim da escala de trabalho 6×1 e defendeu a remuneração por hora trabalhada.
Para os signatários, essas propostas contrariam princípios da Doutrina Social da Igreja relacionados à dignidade do trabalhador e ao direito a uma remuneração adequada.
O documento também critica posições favoráveis à aproximação política e econômica com os Estados Unidos. Os bispos acusam uma das candidaturas de defender a submissão do Brasil aos interesses norte-americanos e questionam propostas relacionadas à exploração de terras raras.
Na área social, a carta aponta contradições entre a defesa de programas de combate à pobreza e posições anteriores do partido de um dos presidenciáveis.
Armas, meio ambiente e democracia
Os religiosos também manifestam preocupação com propostas de ampliação do acesso às armas e com políticas ambientais associadas ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A carta critica a negação da crise climática e cita a defesa da tortura e homenagens a personagens ligados à repressão durante a ditadura militar.
Em outro trecho, os bispos relacionam a disputa eleitoral à preservação das instituições democráticas e mencionam a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por atos contra a democracia.
Os signatários afirmam que uma das candidaturas, embora também esteja sujeita a críticas, demonstrou compromisso com a população mais pobre, a proteção ambiental e o respeito à Constituição.
Bispos de Minas Gerais estão entre os signatários
O documento reúne religiosos de diferentes dioceses brasileiras, incluindo representantes de Minas Gerais.
Entre os signatários mineiros estão Dom Francisco Cota de Oliveira, da Diocese de Sete Lagoas; Dom Geraldo dos Reis Maia, da Diocese de Araçuaí; Dom Joel Maria dos Santos, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte; Dom José Aristeu Vieira, da Diocese de Luz; e Dom Paulo Mendes Peixoto, arcebispo de Uberaba.
Os bispos afirmam estar em comunhão com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mas a carta é assinada individualmente pelos religiosos e não deve ser confundida com um posicionamento institucional de toda a entidade.
Ao final, os signatários defendem a participação dos católicos na votação.
“Conclamamos a todos os católicos para que não deixem de exercer seu direito e votem no dia 25 de outubro, em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos de nossa Igreja”, conclui o documento.
Leia a carta na íntegra
CARTA DE BISPOS CATÓLICOS AO POVO DE DEUS DIANTE DO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2026
22 de outubro de 2026
O Senhor Deus falou, quem não profetizará? (Am 3,8)
O papa Leão XIV, em sua encíclica Magnifica Humanitas, diz: “Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ‘não ser cúmplice’” (216).
Nós, bispos católicos de diversas dioceses do Brasil em comunhão com a CNBB, alinhados com a Mensagem do Conselho Permanente ao Povo Brasileiro, de 21/10/2026, acreditamos ser necessário e urgente, aplicarmos ainda mais em nossas preces pelo País e multiplicar mensagens para ajudar nos discernimentos, já que vivemos no Brasil uma dessas situações mencionadas pelo Papa Leão XIV, diante do cenário eleitoral dado, que exige tomar posição em nome do Santo Evangelho e da Doutrina Social da Igreja (DSI).
“O anúncio do Evangelho não pode esquecer a vida concreta dos povos” (Rerum Novarum, 15). O católico e a católica devem exercer a sua cidadania inspirados pela DSI e decidir o seu voto à luz de seus ensinamentos. Devem deixar “que o Evangelho […] avalie as estruturas econômicas e políticas que, como viria a recordar São João Paulo II, podem tornar-se verdadeiras e próprias ‘estruturas de pecado’, para que nenhuma pessoa e nenhum povo sejam vistos como prescindíveis nos processos de desenvolvimento (Magnifica Humanitas, 36)
Duas candidaturas estão colocadas. Independentemente de votarmos ou não, um dos candidatos será o próximo presidente do Brasil. Mas é preciso votar. Votem para fazer a diferença. O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI, a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum. Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças.
Queremos auxiliar os católicos em sua decisão, apontando alguns pontos de antagonismo entre o ensinamento social da Igreja e uma das candidaturas em disputa.
As mudanças tecnológicas do mundo atual “não podem ser avaliadas apenas em termos de eficiência, mas a partir da dignidade do trabalhador, do direito a uma remuneração suficiente e da efetiva possibilidade de participar na vida social” (Magnifica Humanitas, 37). A candidatura que sempre foi contra o fim da escala 6×1 e propunha pagar o salário por hora trabalhada, não reconhece a dignidade do trabalhador e poderá voltar a este tema.
“A promoção do bem comum nunca pode ser separada do respeito pelo direito dos povos a existir […]. Qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, por isso, inaceitável (Magnifica Humanitas, 64). Um dos candidatos promete submissão do Brasil aos Estados Unidos (EUA), fez parte de uma conspiração para taxar produtos brasileiros, defende a intervenção estrangeira em nossas eleições e promete entregar nossas terras raras à exploração dos EUA.
A exortação apostólica Dilexi Te (Eu te amei, sobre o amor para com os pobres) critica os que pensam que “seria melhor deixar [os pobres] na miséria e ensinar-lhes antes a trabalhar” e que “a liberdade do mercado levará naturalmente à solução do problema da pobreza” (114). O partido de um dos candidatos sempre foi publicamente contrário aos programas sociais e de combate à pobreza, por desconhecerem as causas da miséria no Brasil, mesmo que agora o seu candidato diga que vai continuar alguns programas sociais. Estão, portanto, em contradição com a evangélica opção preferencial pelos pobres, reafirmada nos principais documentos de nossa Igreja.
A DSI propõe o desarmamento e diz que “o enorme aumento das armas representa uma ameaça grave para a estabilidade e a paz” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 508). Um dos candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu Governo.
O cuidado com a Ecologia Integral é hoje elemento central da DSI. A Laudato si’ critica “as atitudes que barram os caminhos de solução” que “vão da negação do problema à indiferença” (14). Um dos candidatos não reconhece a crise climática, nega os problemas ecológicos e quer dar continuidade às políticas de devastação que caracterizaram o Governo de seu pai e a atuação de seu partido no Congresso. Lembremo-nos da “Lei da Devastação” (nº 15.190/2025) aprovada no ano passado.
“O discípulo de Cristo rejeita todo recurso [à tortura], de modo algum justificável” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 404). Um dos candidatos é publicamente favorável à tortura e sua família fez homenagens a um dos maiores torturadores da ditadura brasileira, o general Brilhante Ustra, que matou muitas pessoas.
“A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia […]; ela não pode, portanto, favorecer a formação de grupos restritos de dirigentes, que usurpam o poder do Estado a favor dos seus interesses particulares ou dos objetivos ideológicos” (Centesimus Annus, 46). Um dos candidatos é filho do presidente que foi condenado e preso por atentar contra a democracia e segue suas ideias. Fez várias declarações de ameaça à ordem constitucional e, se eleito, governará com maioria absoluta no Congresso Nacional e no STF, criando as condições para uma usurpação do poder e submissão do país à sua ideologia.
Por outro lado, temos outra candidatura que, embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição. Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja.
Diante desses e inúmeros outros elementos, não podemos nos manter neutros, a fim de que nossa consciência ou a história não nos condenem no futuro. Quem se calou diante das ameaças totalitárias que se concretizaram na Europa do século XX deixou uma herança vergonhosa para as gerações seguintes.
Conclamamos a todos os católicos para que não deixem de exercer seu direito e votem no dia 25 de outubro, em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos de nossa Igreja.
Que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, ilumine a mente de cada um e cada uma de nós.
Confira todos os 55 bispos que assinaram a carta
- Dom Adolfo Zon Pereira, SX — Diocese do Alto Solimões (AM)
- Dom Adriano Ciocca Vasino — bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT)
- Dom Benedito Araújo — Diocese de Campo Maior (PI)
- Dom Edmilson Tadeu Canavarros dos Santos — Prelazia de Itacoatiara (AM)
- Dom Edson Damian — bispo emérito de São Gabriel da Cachoeira (AM)
- Dom Egídio Bisol — bispo emérito de Afogados da Ingazeira (PE)
- Dom Erwin Kräutler — bispo emérito da Prelazia do Xingu (PA)
- Dom Evaldo Carvalho dos Santos — Diocese de Viana (MA)
- Dom Eugênio Rixen — bispo emérito de Goiás
- Dom Evaristo Pascoal Spengler — Diocese de Roraima
- Dom Flavio Giovenale — Diocese de Cruzeiro do Sul (AC)
- Dom Francisco Cota de Oliveira — Diocese de Sete Lagoas (MG)
- Dom Frei Aloísio Alberto Dilli, OFM — bispo emérito de Santa Cruz do Sul (RS)
- Dom Frei Pedro Cesário Palma, OFMCap — Diocese de Jardim (MS)
- Dom Frei Samuel Ferreira de Lima, OFM — bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus (AM)
- Dom Geraldo dos Reis Maia — Diocese de Araçuaí (MG)
- Dom Giovane Pereira de Melo — Diocese de Araguaína (TO)
- Dom Giuseppe Luigi Spiga — Diocese de Grajaú (MA)
- Dom Guilherme Werlang — bispo emérito de Lages (SC)
- Dom Itacir Brassiani — Diocese de Santa Cruz do Sul (RS)
- Dom João Batista de Oliveira — Diocese de Corumbá (MS)
- Dom João Muniz Alves, OFM — Diocese de Xingu-Altamira (PA)
- Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães — Diocese de Santos (SP)
- Dom Joaquim Hudson de Souza Ribeiro — bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus (AM)
- Dom Joel Maria dos Santos — bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte (MG)
- Dom José Albuquerque de Araújo — Diocese de Parintins (AM)
- Dom José Aristeu Vieira — Diocese de Luz (MG)
- Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, SDV — presidente da Comissão Pastoral da Terra
- Dom José Luiz Ferreira Salles — Diocese de Pesqueira (PE)
- Dom José Mario Stroeher — bispo de Rio Grande (RS)
- Dom José Reginaldo Andrietta — Diocese de Jales (SP)
- Dom Lauro Sérgio Versiani Barbosa — Diocese de Colatina (ES)
- Dom Lucio Nicoletto — Prelazia de São Félix do Araguaia (MT)
- Dom Luiz Antonio Lopes Ricci — Diocese de Itapetininga (SP)
- Dom Luiz Fernando Lisboa — arcebispo de Cachoeiro de Itapemirim (ES)
- Dom Luiz Gonzaga Fechio — Diocese de Amparo (SP)
- Dom Manoel João Francisco — bispo emérito de Cornélio Procópio (PR)
- Dom Mauro Montagnoli — bispo emérito de Ilhéus (BA)
- Dom Moacir Aparecido de Freitas — Diocese de Votuporanga (SP)
- Dom Nereudo Freire Henrique — bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife (PE)
- Dom Norberto Foerster — Diocese de Ji-Paraná (RO)
- Dom Otair Nicoletti — Diocese de Coxim (MS)
- Dom Paolo Andreolli — Diocese de Ponta de Pedras (PA)
- Dom Paulo Mendes Peixoto — arcebispo de Uberaba (MG)
- Dom Pedro José Conti — bispo emérito de Macapá (AP)
- Dom Raimundo Possidonio Carrera da Mata — Diocese de Bragança do Pará (PA)
- Dom Roque Paloschi — arcebispo de Porto Velho (RO)
- Dom Sebastião Lima Duarte — Diocese de Caxias do Maranhão (MA)
- Dom Silvio Guterres Dutra — Diocese de Vacaria (RS)
- Dom Vanthuy Neto — Diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM)
- Dom Vicente de Paula Ferreira — Diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA)
- Dom Zanoni Demettino Castro — arcebispo de Feira de Santana (BA)
- Dom Zenildo Lima da Silva — bispo auxiliar de Manaus (AM)