Para Wilson Mendonça, cientista político e consultor da Skema Business School, a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou no sequestro de Nicolás Maduro e de sua esposa, representa um rompimento drástico com a ordem global. O especialista afirma que a intervenção “rasga por definitivo a carta das Nações Unidas ou qualquer formato de concertação multilateral desenvolvido aí no fim da Segunda Guerra”.
Segundo Mendonça, o ato insere o atual presidente norte-americano em uma lista de líderes que ignoraram pactos globais. A ação “inclui inclusive o presidente estadunidense num rol aí de outros estadistas que desconsideraram por completo esse acordo internacional, como claramente George Bush fez em 2003 na intervenção do Iraque”, compara o consultor, traçando também um paralelo com a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
Essa postura unilateral elimina, na visão do analista, qualquer possibilidade de Donald Trump atuar como mediador legítimo em outros conflitos. “Qual legitimidade seria defendida numa mediação entre Ucrânia e Rússia?”, questiona Mendonça, lembrando que a Rússia já manifestou repúdio ao evento e que o Irã demonstra preocupação diante das “ameaças estadunidenses mais recentes”.
Sobre as motivações do ataque, o cientista político é categórico ao classificar as justificativas de combate ao narcotráfico e defesa dos direitos humanos como uma “cortina de fumaça”. Para ele, o objetivo real é “limpar o caminho para as empresas norte-americanas de petróleo”, instalando no poder um governo “fantoche” que possa “pavimentar a entrada das empresas”.
O evento impõe um desafio diplomático complexo para o governo brasileiro. Mendonça avalia que o “Brasil se encontra numa posição muito sensível”, pois busca retomar uma relação bilateral intensa com Trump, mas não pode descuidar “de uma defesa da liderança da América Latina em relação a essa liberdade”, sustentando os princípios de soberania e não intervenção.
Por fim, o cientista alerta que a operação militar envia uma mensagem explícita e “extremamente preocupante para qualquer estado soberano que entre no caminho dos Estados Unidos nos próximos dias”, reconfigurando o cenário de segurança e autonomia na região.
