Sete em cada dez mulheres dizem já ter sofrido algum tipo de assédio em capitais brasileiras. O dado é da pesquisa “Viver nas Cidades: Mulheres”, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis e pela Ipsos-Ipec. O levantamento ouviu 3.500 pessoas em dez capitais, incluindo Belo Horizonte, e revela que, na capital mineira, um ponto específico acendeu alerta: o aumento de relatos de assédio dentro do ambiente de trabalho.
De forma geral, os casos de assédio acontecem principalmente em ruas e espaços públicos, como praças e parques. Em segundo lugar aparece o transporte público. O ambiente de trabalho surge em terceiro lugar — mas, em Belo Horizonte, a incidência nesse espaço é um pouco maior que a média nacional.
Segundo o coordenador de relações institucionais do Instituto Cidades Sustentáveis, Igor Pantoja, esse dado chama atenção e indica que as empresas também precisam se envolver no enfrentamento do problema.
“Em Belo Horizonte, o ambiente de trabalho aparece um pouco mais alto do que a média nacional. Acho que já tem aí um recado importante de se pensar que tipo de campanhas e políticas as empresas estão adotando para lidar com esse tipo de situação”, afirma.
Pantoja destaca que o combate ao assédio não depende apenas de políticas públicas, mas também de iniciativas do setor privado. “Existe uma responsabilidade muito clara também das empresas em coibir esse tipo de prática. É importante ter um olhar mais atento para o que está acontecendo dentro dos ambientes de trabalho”, diz.
Assédio em aplicativos também cresce
Outro ponto que vem ganhando destaque nas pesquisas mais recentes é o aumento de relatos de assédio em transportes particulares por aplicativo.
De acordo com Pantoja, esse tipo de ocorrência tem crescido ao longo dos últimos anos, desde que o levantamento começou a ser feito. “É uma situação relatada cada vez mais pelas mulheres. E são basicamente duas empresas que fazem esse tipo de serviço no Brasil, então é possível e urgente ter um olhar mais atento para essa questão”, afirma.
Sete em cada dez mulheres já sofreram assédio
Considerando o total das dez capitais pesquisadas — entre elas Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre — 71% das mulheres afirmaram já ter sofrido algum tipo de assédio em pelo menos um dos locais analisados.
Os espaços avaliados foram:
- ruas e espaços públicos
- transporte público
- ambiente de trabalho
- ambiente doméstico
- bares e casas noturnas
- transporte particular
Apesar das variações entre as cidades, a proporção de mulheres que relatam já ter vivido esse tipo de situação permanece alta em todas as capitais.
População pede punições mais duras
A pesquisa também perguntou quais medidas deveriam ser priorizadas para combater a violência contra a mulher.
A resposta mais citada foi aumentar as penas para agressores, mencionada por 55% dos entrevistados. Em seguida aparece a ampliação dos serviços de proteção às vítimas, com 48%.
Para Pantoja, esse tipo de resposta reflete um padrão já observado em outros debates no país. “No Brasil existe uma tradição de buscar aumentar punições para resolver problemas. Essa é a principal resposta da população, embora também apareçam outras medidas importantes, como ampliar os serviços de proteção e agilizar investigações”, explica.
Diferença de percepção dentro de casa
O levantamento também analisou como homens e mulheres enxergam a divisão das tarefas domésticas.
No total da amostra, 39% dizem que as tarefas são responsabilidade de todos, mas as mulheres fazem a maior parte. Outros 37% afirmam que a divisão é igualitária.
Quando o recorte é por gênero, porém, surge uma diferença de percepção:
- 47% dos homens acreditam que as tarefas são divididas igualmente
- entre as mulheres, esse número cai para 28%
Em Belo Horizonte, essa diferença de percepção também aparece. Segundo Pantoja, houve uma pequena melhora na consciência masculina sobre o tema, mas a desigualdade ainda é evidente. “A visão entre homens e mulheres ainda é bastante diferente. Houve um aumento da percepção masculina de que existe desigualdade, mas ainda é uma questão que precisa avançar muito dentro das casas”, afirma.
A pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres 2026 foi realizada entre 1º e 27 de dezembro de 2025. Ao todo, foram feitas 3.500 entrevistas online com moradores de dez capitais brasileiras, com pessoas a partir de 16 anos.
O levantamento tem 95% de nível de confiança e margem de erro de 2 pontos percentuais para o total da amostra. Para resultados específicos por capital, a margem varia entre 4 e 6 pontos percentuais.
