Belo Horizonte viveu um sábado diferente em novembro de 2025. Em poucas horas, três ocorrências de trânsito foram registradas. Uma carreta invadiu uma loja às margens da Avenida Amazonas, um carro de luxo atingiu um poste na Avenida Tancredo Neves, e um homem foi atropelado no Anel Rodoviário.
O cenário ilustra bem o que a capital mineira vivenciou ao longo de todo o ano. De janeiro a dezembro foram registrados 312.214 acidentes, média de uma notificação a cada dois minutos. Esse é o maior número computado nos últimos 15 anos.
Nas ocorrências, 2.230 pessoas morreram. Os acidentes também deixaram 88.077 feridos, sendo 9.662 em estado grave. Os dados foram compilados pela Rede 98 com base nas informações do Painel Acidentes de Trânsito do Governo de Minas. Em um ano, a alta nos acidentes foi de 4,17%, e de 4,7% no número de óbitos.
Os carros foram os que mais se envolveram nos acidentes, seguidos pelas motocicletas, caminhões, caminhonetes e ônibus.
Relatos de testemunhas aos policiais que constam nos boletins de ocorrência colocam a falta de atenção como a principal causa das dos registros). Seguido pela má visibilidade, a derrapagem e desobedecer a parada obrigatória.
2025 não foi o ano mais letal
Mesmo com o número recorde de ocorrências, 2025 não foi o ano mais letal. O número de mortes é menor do que 2015, que teve 2.327 óbitos no trânsito, o maior valor da série histórica, e 2017, com 2.279 mortes.
Escolhas do Brasil
A especialista em educação e segurança no trânsito, Roberta Torres, avalia que o afrouxamento das leis e a falta de fiscalização contribuem para os números negativos.
“O crescimento é um alerta muito sério e representa o resultado das escolhas que estamos fazendo nos últimos anos. Escolhas da gestão pública sejam no afrouxamento das leis, mas também na fiscalização. Nós tivemos a retirada de radares, ampliação de prazos de avaliação médica, agora, renovação automática da carteira, e no dia a dia, as escolhas individuais que também contam. Como pressa, estresse, distração, desrespeito as regras básicas do trânsito. Então, infelizmente, o que o Brasil tem demonstrado em relação a prevenção dos sinistros e as mortes do trânsito é desanimador. Estamos indo no sentido contrário dos acordos internacionais de reduzir pela metade o número de mortes e de acidentes de trânsito até 2030 e não estamos cumprindo com as metas estabelecidas no plano nacional de prevenção a acidentes de trânsito”, avaliou.
Roberta Torres também chama a atenção para os hábitos dos motoristas, como o uso de celular, como determinante para os acidentes.
“Quando olhamos para as causas a gente vê um ponto comum, que é o comportamento humano. Hoje, o principal vilão, que é o uso de celular ao volante ou mesmo no guidão da motocicleta, ele tem representado um número significativo. E a desobediência a sinalização que também aparece entre uma das principais causas, vem de uma série de fatores, como falta de fiscalização. Muita gente argumenta de que existe uma indústria da multa, mas se a gente olhar bem consegue observar que a maioria das infrações cometidas todos os dias pelas pessoas não são registradas. Seria até humanamente impossível fiscalizar todo mundo e o tempo todo, e esse também não é o objetivo da fiscalização. Mas, além disso, temos a educação como um papel muito importante. Então, colocar o que está previsto no código de trânsito desde 1997, que é a educação de trânsito nas escolas, seria uma forma da gente melhorar a percepção de risco das pessoas no longo prazo. E isso, infelizmente, não acontece”, comentou.
