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Waldomiro Filho aborda ditadura, tortura e sobrevivência em Um homem bom

Por

Igor Teixeira

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(Foto 1: Redes Sociais/ Foto 2: Divulgação/ Companhia das Letras)

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A ditadura militar brasileira, as marcas deixadas pela tortura e a dificuldade de reconstruir a própria vida depois da violência são temas centrais de Um homem bom, romance do escritor e filósofo Waldomiro J. Silva Filho, publicado pela Companhia das Letras. Em entrevista à Rádio 98, o autor falou sobre a criação da obra, a influência da literatura na construção da memória e os desafios da democracia diante da radicalização política.

O livro acompanha a trajetória de um homem que nasceu em meio à pobreza no interior da Bahia, envolveu-se na resistência à ditadura militar e foi preso e torturado em 1976. Décadas depois, o protagonista ainda convive com as consequências da repressão e procura compreender a própria existência.

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A narrativa começa em 2001, durante uma sessão de psicanálise. O personagem relata dificuldades para se comunicar e encontrar sentido nas palavras. A partir desse encontro, suas lembranças conduzem o leitor à infância em Camacã, no sul da Bahia, à formação política durante a juventude e à violência sofrida nas mãos dos agentes da repressão.

Em uma das passagens mais marcantes, os torturadores simulam a execução do protagonista em uma estrada de terra, nas proximidades de Camaçari. Ele acredita que será assassinado, mas é abandonado vivo. A experiência passa a acompanhá-lo durante décadas e transforma a sobrevivência em uma questão central de sua existência.

Waldomiro explicou que a história não é autobiográfica. A inspiração surgiu de reflexões sobre a violência política e de uma experiência na Alemanha, onde atua periodicamente como professor desde 2017. Durante uma visita à cidade de Colônia, destruída durante a Segunda Guerra Mundial, começou a pensar em como as pessoas conseguem reconstruir suas vidas depois de acontecimentos traumáticos.

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O escritor também encontrou inspiração nos testemunhos de pessoas perseguidas por regimes autoritários, especialmente sobreviventes do nazismo.

“Eu não vivi na minha própria carne a ditadura militar, a tortura ou a prisão, mas sinto que consigo compartilhar com outras pessoas, sentir ou compreender o que outras pessoas sentiram ao viver essas coisas”, afirmou.

A tortura e a culpa de quem sobrevive

Um dos principais conflitos do romance é a culpa do sobrevivente. O protagonista deixa para trás a família pobre e, posteriormente, os companheiros de militância que não escaparam da repressão. Mesmo depois de recuperar a liberdade, permanece marcado pela violência.

Segundo Waldomiro, a tortura pode destruir não apenas a integridade física, mas também a capacidade de uma pessoa confiar no mundo e reconhecer a própria identidade.

“Essa é para mim talvez a característica mais terrível da tortura. O assassinato é uma coisa imperdoável, porque é um dano que não tem como ser recuperado nunca. Mas a tortura é um grau acima, porque na tortura frequentemente o torturador mata o torturado e o deixa vivo. É um vivo que está morto, carregar o próprio cadáver, com tristeza, com rancor, com ressentimento. É uma pena que ninguém merece sofrer”, explicou.

O escritor afirma que a sobrevivência não representa necessariamente uma superação. O personagem precisa conviver com as lembranças da violência, com as perdas e com as próprias contradições.

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Ao longo da história, ele procura maneiras de continuar vivendo sem permitir que a experiência da tortura determine completamente sua existência.

“O destino dele vai ser remoer esse sofrimento eternamente ou se rebelar contra essa condição. E a melhor rebelião para um torturado é continuar vivo. Essa é a maior rebelião, continuar vivo hoje, continuar vivo hoje de novo. Essa é a grande vitória do torturado sobre o seu torturador”, afirmou.

Para Waldomiro, a trajetória do protagonista também representa uma tentativa de encontrar significado nas experiências mais simples do cotidiano, sem depender de grandes explicações filosóficas para justificar a própria vida.

A ironia por trás de Um homem bom

O título do romance apresenta uma provocação sobre a moralidade e a facilidade com que pessoas justificam a violência em nome de convicções religiosas ou políticas.

Na narrativa, o torturador é apresentado como alguém capaz de manter uma vida familiar e religiosa enquanto participa da repressão. O próprio protagonista, que na juventude acreditava na transformação revolucionária da sociedade, passa a questionar suas antigas certezas.

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Waldomiro explicou que a expressão um homem bom foi escolhida justamente para provocar essa reflexão.

“Tem um traço de certa ironia ao usar a palavra bom. Frequentemente, nós justificamos as maiores barbaridades que somos capazes de praticar por causa de ideais supremos. É um ideal religioso, é um ideal político, e aí nós damos a nós mesmos a autorização de ser violento, de matar, esganar, trucidar a outra pessoa que não é boa”, afirmou.

O escritor considera que o perigo está na convicção de que uma causa, por mais importante que pareça, oferece autorização moral para cometer atrocidades.

Essa discussão também atravessa a formação política do personagem. Na juventude, ele entra em contato com ideias revolucionárias por meio da literatura e da música. Uma das referências é Marginália II, de Gilberto Gil, que desperta reflexões sobre o Brasil, a América Latina e a opressão.

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Com o passar dos anos, entretanto, o protagonista começa a questionar suas escolhas e a própria disposição que teve para recorrer à violência durante a resistência à ditadura.

Waldomiro explica que a intenção é mostrar como as certezas humanas podem entrar em conflito com a experiência concreta da vida.

Literatura e música ajudam a reconstruir a memória

Depois da tortura, o protagonista procura respostas em obras de escritores que também enfrentaram ou refletiram sobre experiências extremas de sofrimento.

Entre as referências estão Primo Levi, Jean Améry e W. G. Sebald, autores que abordaram perseguições políticas, o nazismo e as consequências da violência sobre a memória.

Segundo Waldomiro, a busca pela literatura surge da necessidade de encontrar outras pessoas que tenham vivido experiências semelhantes. O personagem procura compreender como elas conseguiram resistir, mas também descobre histórias de pessoas que não suportaram as consequências do sofrimento.

“O que ele decide fazer é escrever, é buscar texto, é buscar literatura, é buscar relatos, é buscar saber de outras pessoas que passaram algo parecido com ele. Só que ele esbarra em algumas narrativas em que os seus narradores não resistiram. Falaram até uma certa altura e desistiram da vida”, explicou.

A literatura, entretanto, não aparece como uma solução definitiva. Ela permite que o protagonista reconheça sua experiência em outras histórias e encontre maneiras de conviver com o passado.

A música também ocupa um papel importante no romance. Waldomiro contou que organizou a cronologia da narrativa para coincidir com o lançamento de Alucinação, álbum de Belchior publicado em 1976.

O disco representa as inquietações de uma geração marcada pela repressão política, pela desigualdade social e pelo desejo de transformar o país.

Ao comentar o significado do livro, o escritor recorreu à ideia de continuar vivendo apesar das experiências de sofrimento. Para ele, a história não pretende oferecer uma resposta definitiva sobre a existência humana.

“Se tem alguma coisa que eu quero dizer no romance, genericamente, é que sofrimento, dor, pobreza, tortura, ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro. Pelo menos hoje eu não morro”, afirmou, em referência a um verso de Belchior.

Waldomiro também explicou que seu principal objetivo é provocar reflexões nos leitores.

“Se há um objetivo que eu realmente tenho para com os meus leitores é que eles levantem a cabeça toda hora. Fiquem lendo e levantem a cabeça toda hora, porque aquela frase, aquela construção, aquela sonoridade, aquela imagem, aquela metáfora, de alguma maneira os empurra para fora do texto, como se não fosse texto, como se fosse alguma coisa da vida mesmo”, declarou.

Waldomiro defende diálogo diante da radicalização política

A relação entre literatura e política também esteve presente na entrevista. Questionado sobre a aproximação entre os acontecimentos retratados no romance e o cenário brasileiro contemporâneo, Waldomiro afirmou que o país enfrentou riscos à ordem democrática nos últimos ciclos eleitorais.

O filósofo demonstrou preocupação com o crescimento de posições autoritárias e destacou que a democracia depende da capacidade de conversar com pessoas que possuem opiniões diferentes.

Para ele, a discordância é inevitável em sociedades livres e não deve ser tratada como justificativa para excluir determinados grupos do debate público.

“Eu só sei que, se não é possível [conversar], é uma tragédia. Porque, se por acaso nós não pudermos negociar com pessoas que são diversas, têm posições diferentes, a possibilidade da convivência social é quase nula. E veja só, diversidade de opiniões, posições em desacordo, não é algo que nós escolhemos. É algo que é inevitável”, afirmou.

Waldomiro também criticou a generalização de eleitores conservadores como defensores do fascismo. Segundo ele, a existência de divergências políticas não significa que milhões de brasileiros compartilhem posições autoritárias.

“Nós não temos 60 milhões de fascistas. Não temos mesmo. Nós podemos ter 60 milhões de pessoas que são conservadoras, antipetistas, evangélicas, contrárias a isso, contrárias àquilo, mas não fascistas. São pessoas que devem ser ouvidas”, declarou.

O escritor ressaltou que se identifica politicamente com a esquerda, mas considera a preservação da democracia um compromisso que deve estar acima das diferenças ideológicas.

“Eu sou uma pessoa de esquerda. Sempre votei em partido de esquerda, tenho a minha pauta cotidiana de esquerda, mas, para mim, tenho uma coisa mais acima do que ser de esquerda, que é democracia. E democracia é de esquerda e de direita. Os dois estão presentes, porque existe essa dialética de confronto de opiniões que é a democracia”, afirmou.

Na avaliação do filósofo, a literatura contribui para a convivência democrática ao permitir que as pessoas conheçam experiências e perspectivas diferentes das próprias.

“O texto literário renuncia à violência no momento em que escolhe a palavra e não o ato. Escolhe palavras, escolhe dizer para que alguém leia e, de alguma maneira, levante a cabeça. E não pega num revólver, numa faca, numa pistola e vai mostrar a verdade de fato das coisas”, explicou.

Romance passou por 12 versões antes da publicação

Durante a entrevista, Waldomiro também detalhou seu processo de escrita. Professor de filosofia e servidor público federal, ele costuma acordar por volta das 5h e reservar aproximadamente três horas diárias para a produção literária.

Os primeiros textos são escritos à mão, com lápis e caderno. Somente depois o conteúdo é transferido para o computador, onde passa por sucessivas revisões.

Segundo o escritor, uma das versões iniciais de Um homem bom ultrapassava 350 páginas. O texto foi reduzido e reescrito até chegar às 156 páginas da edição publicada.

“A versão que chegou na Companhia foi a nona versão. E a versão que foi publicada é a 12ª. Porque a minha editora me fez observações, comentários, e eu fui refazendo, revendo. Então foram 12 versões. E é isso, eu vou lapidando, tirando palavras, vendo qual é a palavra mais direta, qual é a frase mais suave”, relatou.

O autor também comentou os desafios para ampliar o acesso à literatura no Brasil, destacando a importância de políticas públicas de incentivo à leitura, da formação de leitores e da valorização da educação.

Para Waldomiro, a literatura não deve ser limitada a uma única categoria de obras ou leitores. O contato com diferentes histórias permite ampliar a compreensão do mundo e desenvolver a capacidade de refletir sobre a própria realidade.

É essa proposta que atravessa Um homem bom, romance que utiliza a memória da ditadura militar para discutir a violência, as contradições humanas e a possibilidade de continuar vivendo depois de experiências extremas.

Waldomiro defende incentivo à leitura e destaca diversidade da literatura brasileira

Ao comentar os desafios para aproximar crianças e adolescentes da literatura, Waldomiro demonstrou otimismo com as mudanças no mercado editorial brasileiro. Para o escritor, a ampliação da diversidade nos catálogos das editoras, o crescimento das feiras literárias e a presença de influenciadores digitais dedicados aos livros representam avanços importantes na formação de novos leitores.

O autor destacou que grandes editoras passaram a publicar mais obras de escritores negros, indígenas, LGBTQIA+ e de outras vozes que historicamente tiveram menos espaço no mercado.

“Eu acho que o mercado editorial se abriu à diversidade. Você tem hoje as mais relevantes vozes presentes nesse mercado. Isso, para mim, foi a grande revolução, porque houve um período em que ou você tinha a literatura clássica europeia ou tinha os livros que eram impressos em mimeógrafo, que se vendiam em bares, apenas de mão em mão”, afirmou.

Waldomiro também ressaltou a importância das políticas públicas de distribuição de livros nas escolas e citou O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, como exemplo de obra contemporânea que alcançou estudantes da rede pública.

Apesar dos avanços, o escritor considera que o preço dos livros ainda dificulta o acesso à leitura. Entre as possibilidades para enfrentar o problema, sugeriu a criação de um benefício destinado exclusivamente à compra de obras literárias por estudantes do ensino médio.

“Talvez o Estado possa contribuir de alguma maneira com maior incentivo ao livro, para diminuir impostos, porque hoje o livro ainda está muito caro. Fico pensando em um projeto tipo ‘Meu Livro, Minha Vida’, em que estudante de ensino médio tenha uma bolsa de R$ 400, R$ 300 para poder comprar apenas livros, fomentando livrarias”, sugeriu.

A proposta foi apresentada pelo escritor como uma possibilidade de política pública, sem referência a um programa já existente.

Questionado sobre a relação das novas gerações com as telas e as redes sociais, Waldomiro defendeu que a resposta deve passar pela melhoria da educação, e não apenas pela imposição de restrições.

Para ele, escolas de tempo integral, professores valorizados e atividades culturais podem oferecer aos jovens outras formas de ocupar o tempo e desenvolver interesses.

“Se a gente tiver professores com melhores condições de trabalho, escolas com melhores aparelhos, escolas integrais, em que o aluno possa estar o dia todo envolvido com atividades de criação, de estudo, atividades físicas, esporte, cirandas de livros, eu acho que é o único meio que nós temos para poder não proibir, não restringir, não cortar, mas criar novos espaços para esses jovens”, explicou.

O escritor também defendeu maior participação dos governos federal e estaduais no fortalecimento da educação pública.

Mesmo diante dos desafios, Waldomiro afirmou acreditar no crescimento do público leitor brasileiro e na capacidade da literatura de alcançar novas gerações.

“Eu sou otimista, bastante otimista”, concluiu.

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Igor Teixeira

Jornalista formado pelo Centro Universitário UNA, é repórter de política da 98FM. Tem passagens pela TV Alterosa e Itatiaia.

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