Em um depoimento crucial à Polícia Federal, o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, admitiu que a instituição enfrentou sérios problemas de liquidez nos últimos anos. A oitiva, realizada no fim de 2025 e cujos detalhes foram revelados pelo blog da jornalista Andréia Sadi nesta sexta-feira (23/1), expõe que o “modelo de negócio” da instituição era estruturado quase inteiramente sobre o suporte do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A transcrição do depoimento, processada via inteligência artificial, mostra um Vorcaro acuado por uma crise que ele atribui a mudanças regulatórias e pressões do mercado financeiro. Segundo o empresário, o plano de negócios do Master era “100% baseado no FGC” e, em sua visão, não havia irregularidade na estratégia até que o Banco Central (BC) alterou as regras de conformidade após o crescimento acelerado da instituição.
A dependência do “seguro” bancário
O FGC atua no Sistema Financeiro Nacional como uma espécie de seguro para correntistas e investidores, garantindo depósitos de até R$ 250 mil em caso de quebra bancária. Vorcaro detalhou à delegada da PF que a cessão de ativos tornou-se a principal via de captação de recursos do banco.
Contudo, essa engrenagem travou após o anúncio da intenção de compra do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB). De acordo com o depoimento, assim que a negociação com o banco público do Distrito Federal tornou-se pública, as fontes de captação de mercado se fecharam por completo para o Master.
Redução forçada e aporte bilionário
Para tentar estancar a crise e garantir a liquidez mínima exigida, o banco foi forçado a “encolher”. Vorcaro afirmou que a originação de crédito, que chegava a movimentar entre R$ 400 milhões e R$ 500 milhões por mês, precisou ser drasticamente reduzida.
A retração foi uma resposta direta a uma comunicação do Banco Central em novembro de 2024, que exigiu um plano de ação imediato da diretoria. Para manter a operação em pé durante o período de turbulência, o empresário declarou ter aportado quase R$ 6 bilhões de seu patrimônio pessoal na instituição.
Contexto: O ressarcimento aos credores
A situação do Banco Master culminou em um processo de liquidação que agora atinge diretamente milhares de investidores. Desde o último dia 19, o FGC iniciou o pagamento dos ressarcimentos. Até a noite de segunda-feira (19/1), cerca de 600 mil credores já haviam solicitado a devolução de seus valores.
O caso segue sob investigação da Polícia Federal, que busca entender se a dependência agressiva de cessão de ativos e o uso de originadores terceirizados configuraram uma gestão temerária ou fraudulenta, além de analisar as conexões políticas citadas em outros trechos da investigação.
