O dólar cedeu mais de 1% nesta quinta-feira, 11, e passou a acumular perda de 1,08% na semana, chegando a tocar nível abaixo de R$ 5,10 à tarde. Apesar da desvalorização global do dólar, o real se destacou ao ter a melhor performance entre os mercados emergentes, na toada de desmonte de posições defensivas após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, dizer que cancelou os ataques e bombardeios para o Irã, antes programados para esta noite. O desempenho positivo foi ainda mais forte, com fluxo estrangeiro para a Bolsa, depois de o republicano dizer que fez um ótimo acordo para encerrar a guerra até o fim de semana.
Após máxima de R$ 5,182 (+0,18%) pela manhã e mínima a R$ 5,0921 (-1,55%) nesta tarde, o dólar à vista fechou em queda de 1,37%, a R$ 5,1016. No ano, a divisa americana perde 7,06%, mas ainda acumula alta de 1,16% em junho.
Por volta das 17 horas, o contrato futuro para julho caía 1,62%, a R$ 5,124, enquanto o índice DXY, que mede o comportamento da divisa americana ante seis moedas fortes, recuava 0,30%.
A alta do dólar pela manhã foi pontual, com a divisa passando a ceder com a expectativa de juros altos por mais tempo sustentando fluxo para o real através de operações de carry trade. A economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, Marcela Kawauti, nota que a pesquisa mensal de serviços (PMS) mais forte do que o esperado coloca pressão sobre juros aqui dentro e fala a favor do real, por conta do diferencial de juros
O fôlego do moeda local, contudo, ficou mais forte – apreciando mais de 1% – apenas após Trump publicar, na Truth Social, que decidiu suspender a operação militar no Irã, antes programada para esta noite, devido ao avanço nas negociações com o país persa. Na ocasião, o republicano também disse que um acordo prévio foi aprovado pela liderança iraniana.
Em desencontro de narrativas, Irã e Israel tinham negado a existência do acordo. Ainda assim, a dinâmica de recuperação do real se manteve. “O mercado financeiro tinha medo de ter mais uma troca de fogo entre EUA e Irã e de que o cessar-fogo realmente acabaria. Então independente de ter um acordo concreto, a sinalização de que não haverá mais uma escalada foi importante”, avalia o economista do grupo CVPAR, Marcelo Fonseca
A partir do entendimento de que EUA não fará mais um contra-ataque forte, o prêmio de risco global diminuiu e o Brasil atraiu um pouco mais de dinheiro novamente, aponta Kawauti. O movimento de mínima do dólar veio em sintonia com máxima da Bolsa e recuo mais expressivo dos juros futuros.
Por volta das 16h30 a apreciação do real ganhou ainda mais força, após Trump reforçar que teria acabado de fazer um ótimo acordo para encerrar a guerra e prometendo finalizar os documentos nos próximos dias. A CBS News também noticiou que um memorando de entendimento entre EUA e Irã provavelmente será assinado no início da próxima semana.
“Volta um cenário de risk-off no sentido de entusiasmo maior. Mas ainda há dúvidas sobre se é um fim permanente do conflito”, comenta o diretor global de FX e derivativos listados da Hedgepoint Global Markets, Guilhermo Marques, notando que o dólar teve uma alta considerável nas últimas três semanas, a qual ainda não foi totalmente corrigida no pregão desta quinta.
O operador de câmbio da AGK corretora, Fernando César, considera que até não se resolver a situação do Oriente Médio de maneira totalmente conclusiva, com a assinatura do acordo, o câmbio pode continuar volátil. Além de um noticiário mais benigno e otimista em torno de um alinhamento entre EUA, Israel e Irã, o operador também considera que pode ter ocorrido fluxo de venda de posição de exportadores que tinham aproveitado a alta da moeda americana mais cedo.
Bolsa
A sinalização do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que houve um acordo preliminar com o Irã e outros países do Oriente Médio para encerrar o conflito na região devolveu o apetite por risco aos investidores e colaborou para o Ibovespa fechar em alta nesta quinta-feira, 11. A falta de clareza sobre os termos do acordo, porém, limita eventuais novos avanços do índice.
“É uma notícia que traz sinal de que os canais diplomáticos continuam ativos, apesar da escalada militar”, disse Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos.
Ele acrescenta, porém, que há outros fatores influenciando a Bolsa – entre eles os preços do petróleo, a expectativa de inflação global e o fluxo de capital estrangeiro. No curto prazo, a tendência do Ibovespa é ficar “lateralizado ou ajustar um pouco para cima”.
O Ibovespa terminou o pregão com avanço de 1,71%, a 171.497,24 pontos, perto da máxima intradia (171.926,72 pontos) e longe da mínima da sessão (168.280,39 pontos). O volume de negócios foi de R$ 30,391 bilhões.
Boragini ressalta que o Ibovespa deve voltar a subir quando os investidores estrangeiros retomarem o apetite por investimentos no país. Isso deve acontecer quando houver mais certeza sobre o fim das hostilidades entre Estados Unidos e Irã e conforme forem concluídas as ofertas de capital de grandes empresas de tecnologia, entre elas a SpaceX, que estão drenando recursos dos mercados.
Eduardo Carlier, codiretor da Azimut Brasil Wealth Management, aponta outros pontos que precisam se resolver para que a Bolsa brasileira volte a exibir a pujança dos meses anteriores.
“No cenário pré-guerra, tínhamos fluxo estrangeiro positivo, cenário eleitoral equilibrado e Brasil como um dos únicos países a ter corte de juros. A gente enfraqueceu nas três condições. Perdeu fluxo, cenário eleitoral ficou mais inclinado ao governo atual e cortes de juros sumiram. Haveria uma reprecificação com a melhora de cada uma dessas coisas”, disse ele.
Carlier cita a queda nos preços do petróleo, que pode trazer alívio ao quadro inflacionário, como um elemento que ajuda a melhorar o cenário no curto prazo. “O alívio vem de saber que estamos descartando cenários de preços mais altos, de maior estresse, que estão mais longe.”
Juros
Já em firme queda por toda a extensão da curva desde a abertura, os juros futuros negociados na B3 acentuaram o ritmo de baixa na segunda etapa do pregão, recuando quase 0,5 ponto nos vértices intermediários no fim da tarde. O movimento, que voltou a colocar na mesa a chance de novo corte da Selic na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) da próxima semana, ocorreu em sincronia com o exterior, em meio a notícias mais positivas sobre o conflito no Oriente Médio.
O estopim para a melhora adicional das taxas futuras, após seguidos dias de estresse no mercado de renda fixa devido ao recrudescimento do cenário doméstico, desta vez veio de fora: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, informou ter cancelado ataques e bombardeios programados que iriam ocorrer contra o Irã nesta noite, após avanços nas negociações com Teerã Em seguida à afirmação, os principais contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) tocaram mínimas intradia, e continuaram queimando prêmios no restante da sessão.
Também ajudaram na descompressão novos relatos de Trump à mídia dos EUA sobre um acordo de paz com o país persa, que, segundo ele, está “praticamente concluído”. Em coletiva de imprensa concedida posteriormente, o republicano afirmou que os documentos da tratativa serão finalizados nos próximos dias, e sua assinatura deve ocorrer “em breve, talvez no fim de semana”
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 diminuiu de 14,481% no ajuste da véspera para 14,31%. O DI para janeiro de 2029 cedeu a 14,505%, vindo de 14,968% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 anotou queda de 14,841% no ajuste anterior a 14,405%.
Ainda que em sintonia com o alívio no ambiente externo, agentes avaliam que o fechamento da curva local nesta quinta-feira, 11, foi maior do que o observado nos retornos dos Treasuries. Isso pode ser explicado por correções do “exagero” observado nas sessões mais recentes, segundo profissionais, tendo em vista que os DIs chegaram a flertar com o nível de 15%, retirando totalmente da curva expectativas de calibragem adicional da Selic.
“Acho que estava muito esticado, com o pessoal querendo discutir aumento da Selic aqui. Isso é o fim da picada. Mas quando chegamos a essas discussões, é porque normalmente o preço exagerou”, disse um estrategista de uma grande tesouraria à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).
A chance de redução de 0,25 ponto da taxa em junho apontada pela curva a termo voltou a ser majoritária, com 60% de probabilidade, ante cerca de 30% de quarta, observa Flávio Serrano, economista-chefe do banco Bmg. Já a Selic terminal projetada para 2026 cedeu de 15,05% na quarta a 14,80% nesta quinta – ou seja, ainda embute algum ajuste para cima, uma vez que o juro básico está em 14,50%.
Economista-chefe da BGC Liquidez, Felipe Tavares mantém a perspectiva de que o Copom não vai mexer na Selic em sua decisão da próxima quarta-feira. “Não há nenhum motivo que faça a gente ver um alívio a ponto de o Banco Central cortar. Muito pelo contrário”, disse, enumerando a postura mais ‘hawk’ de banqueiros centrais de países desenvolvidos, a atividade forte nos EUA e, por aqui, o mercado de trabalho aquecido e dados de atividade também acima do previsto, tais como a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS).
Publicado nesta quinta pelo IBGE, o dado mostrou que o volume prestado de serviços avançou 1,2% entre março e abril, feitos os ajustes sazonais, o dobro da mediana de 0,6% dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast. “Era para a PMS ter feito preço na curva, porque veio muito acima do esperado, mas o dado foi completamente ignorado”, comentou Tavares. Para ele, a pesquisa reforçou, assim como a produção industrial, que o BC tem um “desafio gigantesco” pela frente.
