A política mineira entrou naquela fase em que cada reunião produz uma nova dúvida, cada convenção termina com uma ata aberta e cada candidato parece esperar que o outro se movimente primeiro. O problema é que, enquanto todos calculam o próximo passo, o calendário eleitoral continua caminhando.
No plano nacional, pelo menos uma definição ocorreu. O Partido Novo oficializou, por unanimidade, a candidatura do ex-governador Romeu Zema à Presidência da República. A vaga de vice permanece aberta. Entre os nomes especulados apareceu Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, com quem Zema confirmou ter mantido uma primeira conversa.
Por enquanto, há aproximação e elogios, mas não existe composição fechada. Entretanto, a política continua parecendo uma sala de embarque na qual ninguém sabe exatamente qual será o destino do voo.
A convenção da espera
O PL mineiro reuniu seus dirigentes e candidatos na Assembleia Legislativa, falou em união da direita, apresentou possibilidades, fez discursos e terminou sem escolher um candidato ao governo.
A única definição majoritária foi a oficialização de Domingos Sávio para o Senado. Para o Palácio Tiradentes, o partido decidiu esperar mais um pouco pela resposta de Cleitinho Azevedo.
Flávio Roscoe continua sendo uma alternativa importante caso o PL resolva comandar uma chapa própria. Vittorio Medioli também apareceu nas articulações, embora tenha sido incluído na ata como candidato à Assembleia Legislativa.
Marcelo Aro, até pouco tempo tratado como candidato ao Senado na chapa do governador Mateus Simões, passou igualmente a circular entre as alternativas para o governo. estadual do PL, deputado Zé Vitor, chegou a apresentar publicamente o que considera uma composição ideal: Cleitinho para governador, Luís Eduardo Falcão como vice e Domingos Sávio e Marcelo Aro disputando as duas vagas ao Senado.
É uma chapa bonita no papel. O pequeno detalhe é que depende da concordância de todos os envolvidos, e o principal deles ainda não disse claramente se aceita participar.
Cleitinho e o custo da demora
Eduardo Azevedo, irmão de Cleitinho, garantiu durante a convenção do PL que o senador será candidato ao governo. Dentro do Republicanos, entretanto, a situação continua sendo tratada com cautela.
Depois de conversar com integrantes da direção nacional do partido, a informação que obtive é que Cleitinho ainda não comunicou uma decisão definitiva. Existe, inclusive, um movimento entre dirigentes do Republicanos para que ele não dispute o governo e para que Marcelo Aro seja apoiado como alternativa.
Essa possibilidade já é discutida publicamente por setores do partido. A prioridade formal continua sendo Cleitinho, mas Marcelo Aro transformou-se no plano alternativo mais evidente, considerando que Cleitinho atravessa um momento pessoal doloroso, com a recente morte de um irmão. Isso explica parte do silêncio e merece respeito.
Mas existe também uma realidade política que não dá para esperar. Partidos precisam montar chapas, dividir recursos, organizar palanques e registrar candidaturas. A indecisão prolongada pode fazer Cleitinho perder o controle de uma articulação que nasceu ao redor de seu nome.
O senador continua sendo eleitoralmente desejado. Porém, na política, até o candidato mais cobiçado corre o risco de descobrir que os aliados começaram a procurar outro endereço.
A ruptura com Marcelo Aro
A movimentação de Marcelo Aro em direção a uma candidatura ao governo produz consequências imediatas no Palácio Tiradentes.
Segundo apuração desta coluna, o governador Mateus Simões prepara o desligamento do secretário de Governo, Castellar Guimarães Neto, nome diretamente ligado ao grupo de Aro. A decisão poderá atingir também entre 400 e 500 ocupantes de cargos comissionados identificados politicamente com o ex-secretário.
Até a publicação desta coluna, os atos de exoneração ainda não haviam sido formalizados. Mas os movimentos internos apontam para uma decisão entre esta terça e quarta-feira.
Não se trata apenas de reorganização administrativa. É uma mensagem política escrita com tinta grossa.
Marcelo Aro tem todo o direito de escolher seu caminho, disputar o cargo que desejar e construir alianças com quem considerar conveniente. O governador, por sua vez, considera insustentável manter dentro da administração uma estrutura política que poderá trabalhar pela candidatura de um concorrente.
A lógica é compreensível. O problema é que a ruptura expõe a dimensão da dependência que existia entre os dois grupos.
Se centenas de cargos são identificados como pertencentes a um único aliado, significa que o governo não está apenas retirando alguns colaboradores. Está desmontando uma parte de sua própria sustentação política.
Mateus Simões demonstra autoridade. Mas quanto maior for a estrutura retirada, maior será a prova do espaço que Marcelo Aro ocupava dentro do governo.
O PT definiu Patrus e Marília
Enquanto a direita continua discutindo quem será candidato, o PT realizou sua convenção virtual e confirmou Patrus Ananias para o governo de Minas.
O desenho de alianças mais recente prevê Jarbas Soares como candidato à segunda vaga do Senado, enquanto Josué Gomes é considerado para a vice de Patrus.
O anúncio definitivo ainda depende das negociações partidárias e da participação da direção nacional. Há porém outro problema na esquerda. A federação PSOL-Rede oficializou Áurea Carolina como candidata ao Senado e afirmou que sua candidatura é inegociável. Portanto, se valer o que afirma o PSOL, Áurea não está sendo articulada para vice de Patrus, mas para uma das duas vagas mineiras na Câmara Alta.
PSOL e Rede pretendem caminhar juntos, será necessário resolver uma equação com três nomes para apenas duas vagas: Marília Campos, Jarbas Soares e Áurea Carolina.
A esquerda resolveu o nome para o governo, mas ainda não resolveu completamente a chapa.
A confusão como método
Zema está oficialmente na disputa presidencial, mas não tem vice. O PL fez convenção, mas não escolheu candidato ao governo. Cleitinho é tratado como candidato pelo irmão e como indeciso por dirigentes de seu próprio partido.
Marcelo Aro pode sair de candidato ao Senado na chapa de Mateus Simões para adversário do governador. E o PT definiu Patrus, mas ainda precisa acomodar aliados numa chapa em que há mais candidatos ao Senado do que vagas disponíveis.
Antigamente, uma emissora de rádio dizia que, em vinte minutos, tudo poderia mudar.
Na política mineira de hoje, vinte minutos são tempo suficiente para surgir uma nova candidatura, desaparecer uma antiga aliança e alguém descobrir que foi expulso do próprio casamento antes mesmo de a cerimônia começar.
A única certeza é a confusão. E até ela poderá mudar antes da publicação dessa coluna, ou do seu próximo cafézinho.
