O segundo dia do Minas Trend reforçou um diagnóstico importante sobre a indústria da moda: o setor passa por uma transformação que não está só na estética, mas na forma de vender, produzir e se organizar.
Entre palestras, desfiles e encontros de negócios, o evento em Belo Horizonte mostrou uma cadeia que tenta se adaptar a um consumidor mais exigente e a um cenário que cobra eficiência e responsabilidade.
Crianças ganham protagonismo e mudam lógica do varejo infantil
Uma das mudanças mais visíveis aparece no varejo. No segmento infantil, a decisão de compra já não está mais concentrada apenas nos pais.
A especialista em varejo infantil e palestrante no Minas Trend, Karine Lombardi explica que esse movimento começa cedo e ganha força na pré-adolescência.
“Hoje, a criança tem um poder gigante de decisão, desde o pequeno. Mas quem paga a conta ainda são os pais. A influência é muito grande na decisão de escolher um produto. A gente percebe crianças a partir de 4, 5 anos já com esse poder”, afirma.
Ela destaca que, entre os mais velhos, essa influência se torna determinante. “Dos 10 aos 16 anos, o pré-adolescente, o juvenil, eles detêm o poder de decisão de compra. Ou seja, a comunicação de uma loja precisa cativar também esse público”, completa.
Experiência de compra vira estratégia central no varejo de moda
Esse novo comportamento também aparece nas discussões sobre tendências globais. A experiência de compra deixou de ser um diferencial e passou a ser parte central da estratégia das marcas.
A especialista em marketing e também palestrante no evento, Francine Pacheco afirma que a jornada do consumidor precisa ser pensada de forma completa. “É primordial ter uma jornada de compra concisa, uma imagem de moda bacana, uma campanha de moda, um storytelling legal”, diz.
Ela ressalta que o consumo hoje envolve múltiplos estímulos. “Além disso, a gente fala do toque do produto, da música, da trilha que tem, até do paladar. O que eu posso elevar para o meu cliente de excelência?”, questiona.
Sustentabilidade pressiona a indústria e impulsiona economia circular
Se o consumo mudou, a produção também entra em revisão. A indústria da moda, frequentemente apontada como uma das mais poluentes, começa a incorporar práticas de economia circular.
A especialista em moda circular Sâmara Merrighi chama atenção para o impacto e a relevância do setor. “A indústria têxtil é realmente uma das mais poluentes, mas também é a segunda que mais emprega no Brasil. Então a gente tem que colocar a indústria num lugar de muito cuidado”, afirma.
Ela reforça a necessidade de equilíbrio. “Ela promove emprego, promove a economia, mas também precisa fazer isso de uma forma social e ambientalmente sustentável”, diz.
Essa mudança passa por entender que circularidade não se resume à reciclagem. A consultora de negócios da moda Tereza Cristina Horn destaca que o conceito é mais amplo.
“Circularidade não é só reciclagem. O upcycling é uma forma de circularidade, os brechós são uma forma também”, explica.
Segundo ela, o desafio está na integração dos processos. “A reciclagem pode ser feita tanto de pré-consumo quanto de pós-consumo. Por isso todos os elos da cadeia precisam estar unidos. O nosso objetivo é tratar a cadeia mineira”, afirma.
Capacitação profissional se torna gargalo para o crescimento do setor
Diante desse cenário mais complexo, a formação profissional aparece como um dos principais desafios para a indústria da moda.
A consultora do Senai Modatec Herika Sendas destaca que a capacitação hoje precisa ir além da técnica. “A gente tem cursos que abrangem desde a parte de gestão, para o aluno sair preparado para gerir uma confecção, até a parte prática, como costura, modelagem e pilotagem”, explica.
Ela avalia que essa formação mais ampla é essencial para o setor. “O SENAI é bem amplo na hora de capacitar para ajudar a indústria”, afirma.
O que o Minas Trend revela é um setor em transição. A moda deixa de ser apenas produto e passa a ser experiência, processo e estratégia.
Mais do que acompanhar tendências, a indústria tenta agora se reposicionar para um futuro que já começou.
