O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou que o país vai ampliar seu arsenal nuclear, em uma mudança relevante na estratégia de defesa francesa desde o fim da Guerra Fria. O anúncio foi feito durante discurso na base naval de Île Longue, na Bretanha.
Reforço inédito em três décadas
Macron afirmou que o reforço inclui o aumento do número de ogivas nucleares — algo que não ocorria nas últimas três décadas. “Um reforço do nosso arsenal é indispensável”, declarou.
“Quem quer ser livre deve ser temido, e quem quer ser temido deve ser forte”, afirmou o presidente.
Segundo ele, a França deixará de divulgar publicamente o número exato de ogivas, revertendo práticas anteriores de transparência.
Atualmente, o país possui cerca de 290 ogivas, segundo o Bulletin of the Atomic Scientists. O pico foi registrado no início da década de 1990, quando o arsenal chegou a aproximadamente 540 ogivas.
Cooperação com aliados europeus
Macron indicou que a França pode deslocar temporariamente aeronaves com armamento nuclear para países aliados na Europa.
Entre os países citados estão Alemanha, Polônia, Reino Unido, Holanda, Bélgica, Grécia, Suécia e Dinamarca.
Os aliados poderão participar de exercícios nucleares com a França. No entanto, o presidente destacou que a decisão final sobre eventual uso das armas continua sendo prerrogativa exclusiva do chefe de Estado francês.
A França é atualmente a única potência nuclear da União Europeia. O Reino Unido mantém seu próprio sistema de dissuasão, mas depende tecnicamente dos Estados Unidos.
Contexto geopolítico
O anúncio ocorre em meio a um ambiente de segurança considerado o mais desafiador para a Europa desde a Guerra Fria.
A guerra na Ucrânia, agora em seu quinto ano, alterou o cenário estratégico no continente. Além disso, declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levantaram dúvidas sobre o compromisso americano com a Otan e com a segurança europeia.
Macron afirmou que “os próximos 50 anos serão uma era de armas nucleares”.
“Se usarmos nosso arsenal nuclear, nenhum país, por mais poderoso que seja, poderá escapar”, disse.
Estrutura do arsenal francês
As ogivas francesas estão divididas entre armas lançadas pelo ar e mísseis balísticos M51 lançados por submarinos.
O país possui mais de 30 toneladas de urânio em grau militar e cerca de 6 toneladas de plutônio em grau militar, segundo a Associação de Controle de Armas.
Em 2024, a França informou que pretende produzir trítio — elemento utilizado em ogivas termonucleares — em uma usina nuclear civil.
O Centro de Valduc, perto de Dijon, é responsável pela manutenção, armazenamento e desmantelamento de armas nucleares.
A França utiliza supercomputadores e lasers de alta potência para simular detonações nucleares, já que abandonou testes explosivos.
Mudança estratégica
A decisão representa uma inflexão na postura francesa. Historicamente, o país não mantinha armas nucleares em outros territórios europeus nem integrava seu arsenal diretamente ao guarda-chuva nuclear da Otan.
“O que eu mais quero é que os europeus retomem o controle de seu próprio destino”, afirmou Macron.
O arsenal francês é o quarto maior do mundo. Apenas Estados Unidos e Rússia possuem mais armas nucleares desdobradas.
