O governo de Donald Trump apresentou ao Brasil, em outubro de 2025, uma proposta com 21 exigências para negociar a redução das tarifas impostas a produtos brasileiros. Entre os pedidos estavam mudanças em áreas como comércio, tecnologia, minerais críticos, meio ambiente e até regras relacionadas às eleições presidenciais de 2026. As informações são exclusivas do Estadão.
O documento foi apresentado ao governo brasileiro em 16 de outubro de 2025, durante as negociações entre os dois países. Entre as condições estabelecidas pelos Estados Unidos estava o compromisso brasileiro com a realização de uma eleição presidencial “livre e justa” em 2026.
A proposta também previa que pessoas classificadas no documento como “dissidentes políticos” não fossem presas, detidas arbitrariamente ou impedidas de participar da disputa eleitoral.
A lista incluía ainda demandas relacionadas à liberdade de expressão e à atuação de empresas de tecnologia americanas no Brasil. Os Estados Unidos queriam garantias para que companhias digitais tivessem possibilidade de se manifestar e recorrer de decisões envolvendo conteúdos publicados em redes sociais, além de regras consideradas mais claras sobre remoção de conteúdo e responsabilidade civil.
Exigências econômicas
No campo comercial, os americanos propunham a retirada de tarifas brasileiras sobre uma série de produtos dos Estados Unidos, entre eles etanol, produtos químicos, máquinas, veículos e itens de alta tecnologia.
A proposta também previa que o Brasil não adotasse determinadas restrições à importação de produtos remanufaturados e que aceitasse bens americanos que cumprissem padrões técnicos dos EUA ou internacionais sem exigir etapas adicionais de avaliação de conformidade.
Outro ponto envolvia a tributação de serviços digitais. O governo Trump queria que o Brasil não criasse impostos sobre serviços digitais que, segundo a proposta, pudessem discriminar empresas americanas. O documento também defendia uma moratória permanente, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), sobre tarifas aplicadas a transmissões eletrônicas.
Os Estados Unidos ainda pediam que instituições financeiras brasileiras não fossem penalizadas por cumprir sanções financeiras determinadas pelo governo americano.
Minerais críticos e investimentos
A proposta também mirava o setor brasileiro de minerais considerados estratégicos. O governo americano queria receber informações antecipadas sobre possíveis transferências de ativos nessa área e defendia que empresas dos EUA tivessem a oportunidade de participar de processos de licitação relacionados a esses negócios.
Washington também propunha medidas para restringir investimentos de determinados grupos estrangeiros considerados uma preocupação para os interesses americanos nos setores de mineração e indústria.
Outro item tratava especificamente da compra de aeronaves. A proposta previa que companhias aéreas brasileiras adquirissem aviões comerciais produzidos nos Estados Unidos, incluindo a possibilidade de anúncios de intenção de compra de aeronaves da Boeing.
Meio ambiente e comércio
A agenda apresentada pelos americanos também incluía compromissos ambientais. O Brasil deveria intensificar o combate ao desmatamento ilegal e reforçar a aplicação das normas existentes relacionadas à proteção das florestas.
A pesca ilegal também apareceu entre as exigências, com pedido para que o país fortalecesse a fiscalização e impedisse a comercialização de produtos provenientes de atividades de pesca ilegal, não declarada ou não regulamentada.
O documento ainda previa cooperação entre os dois países para enfrentar o excesso de capacidade na produção mundial de aço e buscar maior estabilidade no comércio internacional de soja.
Nova proposta em janeiro
As exigências apresentadas em outubro foram consideradas inaceitáveis pelo governo brasileiro. Em janeiro de 2026, os Estados Unidos apresentaram uma segunda proposta, desta vez mais enxuta, com sete setores e 14 tópicos.
O novo documento deixou de lado as questões de política doméstica presentes na primeira versão, mas manteve pedidos relacionados à retirada de tarifas sobre produtos americanos. Entre os setores citados estavam agricultura, comércio digital, indústria, minerais críticos, tecnologia, setor aeroespacial e trabalho.
Na área industrial, por exemplo, os EUA voltaram a defender a eliminação de tarifas sobre produtos como veículos, peças, produtos químicos, equipamentos médicos e frutos do mar. Também pediram que o Brasil aceitasse veículos fabricados nos Estados Unidos que atendessem aos padrões americanos de segurança e emissões.
A segunda proposta também tratava da mineração e pedia uma revisão da venda das operações de níquel da Anglo American, além da abertura de espaço para investimentos de empresas americanas no setor de minerais críticos.
Em contrapartida, os Estados Unidos indicavam que poderiam reduzir as tarifas aplicadas a determinados produtos brasileiros, mas alguns dos percentuais e produtos que seriam beneficiados ainda apareciam como itens a serem definidos no documento.
Negociações não impedem novas tarifas
As tratativas não impediram a escalada das tensões comerciais entre os dois países. Em julho de 2026, o governo Trump anunciou novas sobretaxas sobre produtos brasileiros, após investigações conduzidas com base na Seção 301 da legislação comercial americana.
Em agosto, Brasil e Estados Unidos retomaram contatos para tentar avançar nas negociações. Segundo interlocutores do governo brasileiro, novas reuniões foram realizadas e os americanos deveriam apresentar uma nova proposta com os pontos de interesse de Washington.
As tratativas devem continuar em setembro, com previsão de encontro entre autoridades brasileiras e americanas durante reunião ministerial do G20.
