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Cartão-postal cercado: obra na Praça do Papa ‘faz aniversário’ e fica R$ 1 milhão mais cara

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Obras na Praça do Papa começaram em fevereiro de 2024 (Débora Elisa/98)

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Dois anos após o início das obras, a Praça do Papa, um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte, segue parcialmente cercada por tapumes. A intervenção, que começou em fevereiro de 2024 com prazo de entrega de 360 dias, até avançou inicialmente, mas precisou ser prorrogada duas vezes, além de contar com aditivos financeiros significativos.

Segundo a prefeitura de BH, a nova previsão de conclusão aponta para o primeiro semestre deste ano. Enquanto isso, moradores, comerciantes e frequentadores convivem com um espaço incompleto. Neste intervalo, o mundo acompanhou até a eleição de um novo Papa, mas os questionamentos sobre a gestão local seguem os mesmos.

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Prazos e custo estendidos

O contrato original previa a conclusão em um ano e orçamento de R$ 11,1 milhões. Em abril de 2025, a prefeitura prorrogou o prazo em 150 dias e acrescentou R$ 766 mil ao contrato. Meses depois, um novo aditivo ampliou novamente o prazo, com conclusão projetada para dezembro de 2025 e vigência contratual até junho de 2026.

Além do acréscimo contratual, documentos apontam que só para manter a estrutura do canteiro além do prazo inicial o custo extra já chegou a R$ 461,5 mil. A despesa envolve vigilância, manutenção de containers, locação de veículos e equipamentos. No total, as alterações contratuais ultrapassam R$ 1 milhão em relação ao valor original.

Em nota, a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap) afirmou que as obras da Praça do Papa “devem ser finalizadas neste primeiro semestre” e que “a previsão é que todo o espaço, incluindo o playground e a Academia da Cidade, seja entregue de forma conjunta”. O órgão informou ainda que os ajustes no cronograma “não decorreram de erro de planejamento, mas de situações que surgiram durante a execução da obra”.

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(Débora Elisa/98)

Tombamento

Ainda segundo a Sudecap, o principal desafio foi a produção do piso cerâmico da praça, que precisa seguir especificações rigorosas de cor e textura.

O piso do Papa é fabricado por uma única empresa certificada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, a Cerâmica Gail. Em setembro de 2025, um incêndio na fábrica comprometeu a capacidade de entrega das peças necessárias para a obra em BH. Segundo a prefeitura, a interrupção na produção impactou diretamente o cronograma.

A reportagem tentou contato com a Cerâmica Gail, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

Para a arquiteta e urbanista Ana Carolina Pereira Vaz, especialista em Patrimônio, intervenções em bens tombados exigem cuidado, mas isso não significa paralisação indefinida. “Qualquer intervenção em bem tombado, de fato, exige um cuidado especial. A gente tem que seguir diretrizes específicas de intervenção para garantir a preservação e a leitura adequada daquele bem cultural. Mas eu costumo dizer que o tombamento não impede; ele qualifica uma intervenção”, explica.

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Sobre a justificativa da dificuldade com o piso, ela pondera que há alternativas técnicas. “Os materiais construtivos que vão ser colocados em uma obra de bem tombado exigem, sim, características específicas. Mas, diante da dificuldade de encontrar algum material, tecnicamente a gente consegue solucionar com outras opções adequadas”, diz.

(Débora Elisa/98)

Para a arquiteta, depender de um único fornecedor não necessariamente justificaria o prolongamento. “Eu acho que sempre existem alternativas técnicas diversas e adequadas. Não acho que isso justifique ficar aguardando. A gente precisa dar continuidade e celeridade a esses processos”, aponta.

Impacto urbanístico

Além das questões técnicas e financeiras, o atraso tem reflexo direto na dinâmica urbana. Localizada na região do Mangabeiras, com vista privilegiada para a Serra do Curral, a praça é um dos principais mirantes da cidade. Para Ana Carolina, a preservação sem uso perde sentido. “A preservação do bem cultural não se justifica se não houver uso. A gente preserva para a sociedade, para que as pessoas utilizem os bens”, defende.

A especialista avalia que o fechamento prolongado gera prejuízo que vai além do canteiro de obras. “Essa demora é muito prejudicial do ponto de vista urbanístico, histórico e arquitetônico, porque a praça não pode exercer sua função de espaço público, de mirante, de ponto turístico e de referência para a Serra do Curral”.

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Comércio afetado

Quem vive da movimentação da praça relata queda significativa na renda. Natany Batista Bahia trabalha no local desde os 17 anos, e hoje, aos 32, afirma que os prejuízos nunca antes foram tão expressivos. “Quem sai prejudicado somos nós. Nós dependemos disso aqui. Nossas famílias dependem dessa renda. É uma tristeza ver um ponto turístico tão bonito dessa forma”, denuncia.

Ela afirma que a estrutura já era limitada antes da obra. “As vendas já eram afetadas pela falta de banheiro. Como aqui é um lugar alto e mais distante, muita gente vem para ficar mais tempo, mas acaba indo embora porque não tem banheiro”, conta. Com o atraso da entrega, a situação piorou. “Afetou ainda mais”, complementa.

(Débora Elisa/98)

Natany também reclama da iluminação do lugar e da falta de apoio do poder público. “A iluminação aqui não é boa. Fica muito escuro, e isso influencia no horário que a barraca pode ficar aberta. Não temos iluminação fornecida por eles [prefeitura] para as barracas. Não temos água, não temos estrutura. É tudo por nossa conta”, questiona.

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Sobre a nova previsão de entrega, a vendedora demonstra descrença. “Antes era para março, e agora foram adiando. Tem gente que trabalha lá dentro e já falou: ‘Para mim, que estou trabalhando na obra, isso é para o ano que vem’”, diz Natany.

Moradores aguardam entrega

A Associação dos Moradores do Bairro Mangabeiras afirma que acompanha o andamento da obra, mas que não se mobilizou por celeridade. O presidente da entidade, Rodrigo Marcos Bedran, diz que a expectativa é pela conclusão.

“A gente torce. Estamos vendo o trabalho intenso e acreditamos que sim”, afirma, ao comentar a previsão mais recente de entrega das obras.

Ele ressalta que a intervenção é mais complexa do que aparenta, por isso, justificaria a demora. “A obra pode até aparentar ser simples, mas é muito mais complexa do que parece, porque a extensão é grande e o patrimônio é tombado”, diz Bedran.

(Débora Elisa/98)

Segundo o presidente da associação, a prefeitura mantém diálogo aberto com a entidade e isso reforça a expectativa de retomada da rotina no local. “Esperamos que as famílias venham, fiquem aqui e consigam contemplar essa maravilha da cidade”, tece.

Enquanto a entrega definitiva não ocorre, a Praça do Papa segue como símbolo de um impasse: entre a necessidade de preservar, a obrigação de planejar e executar com eficiência e a cobrança de quem espera ver novamente o principal mirante da capital plenamente funcional.

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