Relógios e outros dispositivos inteligentes podem ajudar a acompanhar tendências da frequência cardíaca, atividade física, sono e recuperação, mas os dados não substituem avaliação médica nem devem ser interpretados como diagnóstico. No Setembro Vermelho, mês de conscientização sobre as doenças cardiovasculares, a coordenadora do Serviço de Cardiologia da Rede Mater Dei, Patrícia Tavares, explica que informações como zonas de treino, VO₂ máximo e variabilidade da frequência cardíaca dependem de características individuais e têm limitações. Um dos principais alertas é que o relógio não detecta infarto e um resultado considerado normal pelo aparelho não deve levar uma pessoa com sintomas a adiar a procura por atendimento.
Segundo o Cardiômetro, ferramenta da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), as doenças cardiovasculares matam cerca de 350 mil brasileiros por ano e respondem por 30% dos óbitos no país. Parte dessas mortes poderia ser evitada com o controle de fatores de risco.
A alimentação saudável, a prática regular de atividade física, não fumar, dormir adequadamente e controlar peso, pressão arterial, colesterol e glicemia estão entre os cuidados relacionados à prevenção.
Os dispositivos vestíveis, conhecidos como wearables, podem ser aliados nesse acompanhamento, principalmente por registrarem informações durante a rotina e a prática de exercícios.
“Os wearables são aliados importantes da saúde, pois ajudam a acompanhar, fora do consultório, as tendências dos dados de atividade física, frequência cardíaca e sono. No entanto, a precisão varia conforme o aparelho, o algoritmo, o ajuste no pulso, o tipo de exercício e as características da pessoa. Esses números devem ser vistos como informações complementares, e não como diagnóstico”, afirma Patrícia.
Zona de treino varia de pessoa para pessoa
As zonas de treinamento representam faixas de frequência cardíaca associadas a diferentes níveis de esforço. Relógios e aplicativos costumam estimá-las a partir da frequência cardíaca máxima, muitas vezes utilizando a fórmula “220 menos a idade”.
A conta, porém, é baseada em uma média da população. Duas pessoas com a mesma idade podem apresentar frequências cardíacas máximas diferentes.
O condicionamento físico, o uso de medicamentos e as condições de saúde também interferem na resposta do coração durante o exercício. Pessoas que utilizam betabloqueadores, por exemplo, costumam apresentar frequência cardíaca mais baixa durante o esforço.
Nesses casos, a zona indicada pelo dispositivo pode não representar o esforço real. Outros métodos podem ajudar a avaliar a intensidade, como a escala de percepção de esforço e o teste da fala.
“Não é simplesmente dizer ‘treine na zona 2’ ou ‘treine na zona 4’. Precisamos saber qual é o objetivo daquela pessoa: saúde cardiovascular, emagrecimento, melhora metabólica, corrida de longa distância, ganho de performance ou longevidade”, explica a cardiologista.
A chamada zona 2 corresponde a um esforço moderado e contínuo. Para uma definição mais precisa, a referência são os limiares ventilatórios medidos no teste cardiopulmonar de exercício.
VO₂ máximo e recuperação são estimativas
Outro indicador acompanhado pelos dispositivos é a frequência cardíaca de recuperação, que mostra quanto os batimentos caem no primeiro minuto após o fim do exercício. Uma recuperação lenta que se repete em treinos semelhantes é uma informação que pode ser levada à consulta médica.
Já a variabilidade da frequência cardíaca mede pequenas diferenças no intervalo entre os batimentos e é utilizada por alguns dispositivos para estimar a recuperação do organismo. Álcool, noites mal dormidas e infecções podem reduzir o valor.
“O dado serve para observar tendências ao longo de semanas, e não para avaliar um dia isolado”, diz Patrícia.
Os relógios também estimam o VO₂ máximo, que representa a quantidade máxima de oxigênio que o organismo consegue utilizar durante um esforço máximo.
“A aptidão cardiorrespiratória está entre os preditores mais fortes de mortalidade, e melhorá-la reduz o risco”, afirma.
O valor apresentado pelo relógio é calculado a partir de informações como frequência cardíaca e dados do treino. A medição direta é feita pelo teste cardiopulmonar de exercício, também chamado de ergoespirometria, realizado com esforço em uma esteira e análise do ar expirado.
Gasto calórico é uma das medidas menos precisas
Entre os indicadores fornecidos pelos wearables, o gasto calórico é apontado como um dos menos precisos. Os aparelhos combinam algoritmos com dados pessoais e informações da atividade realizada para chegar a uma estimativa.
Por isso, o resultado não deve ser tratado como uma medida exata para definir quanto uma pessoa deve comer ou quanto precisa compensar após o exercício.
Quando a medição é necessária em um acompanhamento, a calorimetria indireta de repouso permite avaliar a taxa metabólica basal. Já o gasto durante o esforço pode ser medido pelo teste cardiopulmonar.
Relógio não detecta infarto
Alguns dispositivos conseguem identificar irregularidades no ritmo cardíaco e produzir um traçado semelhante ao de um eletrocardiograma simples. O recurso é voltado principalmente para identificar sinais de fibrilação atrial.
Há, porém, uma diferença importante. O relógio registra o coração por apenas um ângulo, enquanto o eletrocardiograma convencional utiliza 12 derivações.
O dispositivo também não detecta infarto ou isquemia. Dessa forma, um resultado normal na tela não exclui a possibilidade de doença cardíaca.
“Se a pessoa sente palpitações, desmaia, apresenta falta de ar ou dor no peito durante o exercício, ela precisa ser avaliada independentemente do que o relógio está mostrando. O dispositivo pode levantar uma dúvida, mas não confirma a causa”, orienta Patrícia.
Exames ajudam a investigar alterações
A investigação médica pode envolver diferentes exames, conforme cada caso. O eletrocardiograma registra a atividade elétrica do coração em repouso, enquanto o Holter acompanha essa atividade por 24 horas durante a rotina e pode ajudar na investigação de palpitações e arritmias.
O teste ergométrico avalia a resposta do coração ao esforço controlado em uma esteira. O ecocardiograma permite analisar a estrutura e o funcionamento do coração, enquanto o MAPA acompanha a pressão arterial durante 24 horas.
Já o teste cardiopulmonar de exercício analisa parâmetros respiratórios durante o esforço, incluindo consumo de oxigênio, produção de gás carbônico e ventilação pulmonar.
Para Patrícia, mais importante do que perseguir valores específicos no relógio é observar tendências e mudanças ao longo do tempo.
“A questão não é perseguir um número perfeito. É construir bons hábitos de forma sustentável e controlar fatores de risco com avaliação profissional quando necessário”, conclui.