“Todas as palavras foram inventadas”. Essa frase parece óbvia, mas ela desmonta uma das reações mais curiosas que temos diante da mudança linguística: “Essa palavra não existe”. Existe a partir de quando? Quando entra no dicionário, quando aparece em um jornal, quando uma geração inteira começa a usá-la, ou quando ela consegue fazer aquilo que toda palavra precisa fazer: produzir sentido entre as pessoas?
A linguista canadense Gretchen McCulloch, que estuda a linguagem da internet, mostra como os ambientes digitais aceleraram processos que a língua sempre teve. Palavras nascem, mudam de sentido, migram entre grupos e, algumas vezes, desaparecem. A diferença é que, hoje, conseguimos assistir a esse processo quase em tempo real. Uma expressão pode sair de um jogo, passar por um meme, chegar ao TikTok, ser transformada no Brasil e, poucos meses depois, aparecer numa conversa corporativa.
Pense em verbos como “tancar”, “flopar”, “shippar” ou “hitar”. O português não foi destruído por eles; fez o contrário: engoliu palavras estrangeiras e as obrigou a obedecer à sua própria gramática. Nós “tancamos”, algo “flopou”, alguém “hitou”. É uma operação linguística sofisticada, disfarçada de gíria. O falante pega o material novo e o adapta à estrutura que já domina. Termos desse tipo continuam circulando entre as gerações mais novas e mostram como o vocabulário digital mistura inglês, jogos, memes e cultura local.
A questão mais interessante, portanto, não é saber se a palavra é bonita; é perguntar por que algumas invenções recebem prestígio e outras, desprezo. Startup, benchmark e networking entraram no vocabulário corporativo sem provocar o mesmo escândalo que muitas criações das periferias, dos jovens ou da internet. Aí a discussão deixa de ser apenas linguística e passa a ser social.
Às vezes, não rejeitamos a palavra, mas quem a pronuncia.
Isso não significa que todo neologismo deva entrar num relatório executivo. A adequação continua existindo. O profissional competente sabe que “tancar” pode funcionar numa conversa e ser inadequado em um contrato, mas ele não confunde adequação com superioridade linguística. Uma coisa é escolher o registro certo; outra é tratar como inferior quem utiliza um registro diferente.
Para as empresas, essa distinção é valiosa. Marketing, recursos humanos, líderes e atendimento precisam observar as palavras novas não para imitá-las, mas para entender o que elas revelam. O vocabulário de um grupo mostra o que ele acha engraçado, desejável, constrangedor, admirável ou ultrapassado. Uma palavra nova pode indicar uma mudança cultural.
Por isso, talvez a pergunta mais inteligente diante de uma palavra estranha não seja “Que absurdo é esse?”, e sim: “Por que alguém precisou criar isso?”. Assim, deixamos de policiar a língua e passamos a ler um pouco mais a sociedade.
