A área urbanizada em favelas brasileiras cresceu mais de 150% nas últimas quatro décadas. O território ocupado passou de pouco mais de 60 mil hectares, em 1985, para quase 152 mil hectares em 2025, segundo levantamento do MapBiomas.
A expansão foi acompanhada pela perda proporcional de vegetação e pelo avanço da urbanização sobre regiões mais suscetíveis a enchentes e deslizamentos.
Os dados também mostram uma relação entre a menor presença de áreas verdes e temperaturas mais elevadas. Em regiões urbanas com até 10% de cobertura vegetal, a temperatura da superfície pode ficar, em média, cinco graus acima do entorno durante o verão.
Favelas perderam espaço verde
Em 1985, as favelas tinham, proporcionalmente, mais vegetação do que as demais áreas urbanizadas do país. Quarenta anos depois, a situação se inverteu.
Júlio Pedrassoli, coordenador do tema Urbano no MapBiomas, explica que muitas dessas comunidades surgiram nas periferias das cidades, onde havia maior disponibilidade de vegetação.
Com a expansão das ocupações e o crescimento das próprias cidades ao redor desses territórios, parte desse espaço verde foi substituída pela urbanização.
Ocupação avança sobre áreas de risco
O levantamento também aponta crescimento da urbanização em locais mais vulneráveis a eventos extremos.
A área urbanizada em favelas localizada em regiões classificadas com suscetibilidade muito alta a inundações aumentou 117% no período analisado.
Segundo Pedrassoli, a dificuldade de acesso à moradia em regiões mais seguras contribui para que parte da população ocupe encostas, baixadas e outros terrenos mais expostos a inundações e deslizamentos, onde o custo da terra tende a ser menor.
A expansão sobre essas áreas aumenta o desafio para os municípios, principalmente diante da ocorrência de chuvas intensas e outros eventos extremos.
Menos vegetação, mais calor
A redução da cobertura vegetal também tem impacto sobre a temperatura das cidades.
Nas áreas urbanas com até 10% de vegetação, a temperatura da superfície pode ficar, em média, cinco graus acima das regiões do entorno durante o verão.
Segundo o MapBiomas, a intensidade das chamadas ilhas de calor tende a diminuir conforme aumenta a presença de árvores e outras áreas verdes.
A vegetação ajuda a reduzir a temperatura por meio da sombra e da evapotranspiração. Em áreas densamente construídas, materiais como concreto e asfalto absorvem e armazenam calor por mais tempo.
O efeito chega ao cotidiano da população, com maior desconforto térmico e possíveis impactos sobre a saúde, especialmente em regiões densamente ocupadas e com pouca arborização.
Dados podem orientar ações dos municípios
O levantamento permite identificar áreas onde medidas de adaptação climática podem ser priorizadas.
Entre as possíveis ações estão ampliação da arborização, preservação de áreas verdes, melhoria da drenagem urbana e intervenções para prevenção de enchentes e deslizamentos.
Os dados também podem ajudar no planejamento de políticas habitacionais e na identificação de regiões onde a combinação entre ocupação densa, pouca vegetação e exposição a eventos extremos aumenta a vulnerabilidade dos moradores.
