Andando pela cidade, a pergunta que mais respondo é: A eleição em Minas terá segundo turno? Faltam poucos dias para a eleição, e a resposta mais prudente é que ninguém sabe.
Porque uma coisa é fotografar a intenção do eleitor. Outra, bem diferente, é descobrir quem estará diante da urna no domingo.
Olho nas pesquisas
Os números disponíveis colocam, em média, Cleitinho Azevedo numa situação singular. Ele aparece com 40% das intenções de voto, seguido por Patrus Ananias, com 15%, Alexandre Kalil, com 9%, Mateus Simões e Flávio Roscoe, ambos com 5%, e Gabriel Azevedo, com 3%.
Mas a conta eleitoral não é feita sobre o eleitorado inteiro. É feita sobre os votos válidos.
E aí começa a parte interessante.
Retirados brancos, nulos e indecisos, Cleitinho chega a 49% dos votos válidos. Patrus tem 18%, Kalil 11%, Simões e Roscoe 6% cada, Gabriel 4% e os demais dividem o restante. Considerando a margem de erro, o próprio levantamento não permite afirmar se a eleição terminará ou não no primeiro turno.
Portanto, Cleitinho está exatamente naquela região eleitoral em que um punhado de movimentos pode alterar a conta.
E é aqui que precisamos parar de olhar apenas para a fotografia e começar a olhar para aquilo que a fotografia não consegue capturar perfeitamente.
Quem realmente vai votar?
Na eleição de 2022, Minas Gerais teve 22,29% de abstenção no primeiro turno. Compareceram 77,71% dos eleitores. Em números redondos, mais de um em cada cinco mineiros aptos a votar ficou em casa.
É gente demais para ser tratada como detalhe estatístico.
A pesquisa pergunta: “Em quem você pretende votar?”
A urna acrescenta outra pergunta, silenciosa e decisiva: “Você veio votar?”
São coisas diferentes. E numa eleição em que o primeiro colocado ronda a fronteira dos 50% dos votos válidos, a composição de quem comparece pode importar tanto quanto a migração de votos entre candidatos.
Não significa que uma abstenção maior necessariamente beneficie Cleitinho, Patrus, Kalil ou qualquer outro candidato. Para afirmar isso seria necessário conhecer com precisão quem se abstém e como votariam essas pessoas.
O que podemos afirmar é outra coisa: quando quase um quarto do eleitorado historicamente pode deixar de comparecer, a composição da urna pode ser diferente da composição da pesquisa.
O voto útil.
Esse segundo elemento mostra que Kalil, Simões, Roscoe, Gabriel e os demais candidatos reúnem uma parcela relevante do eleitorado. Se parte desses eleitores resolver migrar nos últimos dias para Cleitinho, aumenta matematicamente a possibilidade de encerramento no primeiro turno.
Se o movimento ocorrer na direção contrária, concentrando votos em algum adversário, aumenta a possibilidade de segundo turno.
Não é preciso imaginar uma debandada cinematográfica. Cleitinho está numericamente próximo demais da linha divisória para que movimentos relativamente pequenos sejam irrelevantes.
O eleitor que decide tarde
Na pesquisa espontânea, aquela em que os nomes dos candidatos não são apresentados ao entrevistado, Cleitinho aparece com 26% e Patrus com 8%. Mas nada menos que 46% ainda se dizem indecisos.
Quarenta e seis por cento.
Isso não significa que metade dos mineiros chegará à seção eleitoral sem saber em quem votar. Significa que existe diferença considerável entre reconhecer um candidato numa lista e lembrar espontaneamente em quem pretende votar.
É um sinal importante sobre o grau de cristalização dessa eleição.
A contradição da campanha mineira
Temos um líder muito próximo da linha matemática necessária para vencer no primeiro turno, mas uma parcela enorme do eleitorado que, quando não recebe uma lista de nomes, ainda não manifesta espontaneamente uma escolha.
A eleição parece definida e indefinida ao mesmo tempo.
Há ainda uma particularidade política.
Cleitinho e Patrus Ananias chegaram à reta decisiva ocupando os dois primeiros lugares, embora suas candidaturas tenham se consolidado em circunstâncias bastante diferentes e relativamente tarde no processo eleitoral. Enquanto isso, candidatos que passaram meses construindo projetos, alianças e programas aparecem atrás.
Isso talvez explique parte da estranha sensação desta campanha: discutiu-se muito quem representa quem e relativamente pouco o que cada um pretende efetivamente fazer com Minas Gerais.
Dívida pública, saúde, educação, infraestrutura, segurança, desenvolvimento econômico, estradas, mineração, atração de investimentos e equilíbrio fiscal deveriam ocupar o centro da eleição.
Mas a campanha frequentemente preferiu os atalhos mais fáceis da política nacional, das redes sociais e das identidades ideológicas.
E o eleitor chega ao domingo tendo de preencher os espaços que a própria campanha deixou vazios. Por isso, talvez a eleição mineira não seja decidida apenas por quem conquistou mais votos durante os últimos meses.
Onde mora a decisão
A eleição em Minas poderá ser decidida por três personagens muito menos barulhentos: quem mudar o voto na última hora, quem transformar seu voto num voto útil e quem simplesmente resolver sair de casa.
Relembrando que em 2022, mais de um em cada cinco eleitores mineiros não saiu.
Agora, com um candidato rondando a linha dos 50% dos votos válidos, cada presença, ou ausência, diante da urna ganha peso matemático.
Pesquisa mede intenção. Campanha tenta transformar intenção em decisão.
Mas é a urna que descobre quem decidiu e resolveu levantar do sofá.
E talvez essa seja a variável mais importante nesta reta final.
Não apenas em quem o mineiro pretende votar, mas quantos mineiros pretendem efetivamente votar.
